Diário do Mundial: Adeptos da Noruega ignoram goleada e colocam franceses a remar

Torcida nórdica foi mais uma vez o destaque nesta Copa do Mundo
Torcida nórdica foi mais uma vez o destaque nesta Copa do MundoFRANCK FIFE / AFP

O Mundial é também feito daqueles que aprenderam a ter paciência. Para os adeptos da Noruega que coloriram as bancadas do Gillette Stadium na sexta-feira, o resultado final contra a França — uma goleada por 4-1 — ou o onze que entrou em campo foram meros detalhes.

Recorde aqui as incidências do encontro 

Mesmo com a rotação do plantel e a poupar estrelas como Erling Haaland e Martin Ødegaard, os noruegueses continuaram a ser protagonistas do evento, como têm sido durante toda a competição.

Seja com bola a rolar, penálti falhado ou oportunidades desperdiçadas em cima da baliza, a seleção escandinava foi para cima dos franceses empurrada por uma claque que decidiu pelo surpreendente: curtir o momento e celebrar. 

Noruegueses não se importaram com escolhas do treinador e celebraram vaga na segunda fase
Noruegueses não se importaram com escolhas do treinador e celebraram vaga na segunda faseJOSE HERNANDEZ / ANADOLU / ANADOLU VIA AFP

A última vez que a Noruega tinha pisado num relvado do Mundial foi em França, em 1998 - quando chegou a vencer o Brasil na fase de grupos. De lá para cá, foram quase 30 anos de frustrações.

“Esperamos isso por 28 anos. Isso aqui é um jogo de exibição para nós", disse um animado Magnus Furunes, segurando a sua cerveja e rodeado por compatriotas no último anel das bancadas do gigantesco Gillette Stadium. "Não colocamos o onze titular, mas isso não importa. Isso realmente não importa. Essa não é a nossa equipa A", reforçou o amigo Jakob Berntzen. 

Magnus Furunes está em êxtase com a performance da seleção norueguesa
Magnus Furunes está em êxtase com a performance da seleção norueguesaJosias Pereira / Flashscore

O sentimento é geracional. Muitos dos milhares de escandinavos que cruzaram o Atlântico para invadir Massachusetts estavam no jardim de infância ou nem sequer eram nascidos em 1998. Não havia memória viva, em alta definição, do que era torcer pela pátria no maior palco da terra. Estar em Foxborough esta sexta-feira, portanto, transformou o estádio dos New England Patriots num parque de diversões. Qualquer linha de passe, desarme ou canto já era motivo para uma catarse coletiva.

E o selecionador Ståle Solbakken, pelo visto, também estava embalado. No aguardado duelo entre Haaland e Mbappé, o francês compareceu, mas o norueguês assistiu ao jogo no sofá - mais precisamente, do banco de suplentes. E a ausência do matador não impediu os escandinavos de colocarem a França em apuros, mas os golos noruegueses pararam mesmo no acerto de Aasgaard, ainda na primeira parte.

Haaland não foi a campo contra a seleção francesa
Haaland não foi a campo contra a seleção francesaMAURO PIMENTEL / AFP

Quando o relógio apontava 86 minutos, os noruegueses começaram a pular e cantar de forma efusiva. Minutos depois, os franceses resolveram entrar na onda da festa nórdica: os adeptos do país bicampeão mundial começaram a reproduzir a remada viking, tornando-se a primeira claque estrangeira a adotar o gesto neste Mundial, sob os aplausos orgulhosos dos próprios noruegueses. 

Ao apito final, mesmo com a goleada consumada no marcador, o que se ouvia no Gillette Stadium era um coro monumental ao som de "Freed from Desire", com os noruegueses a comemorar a vida e o torneio como se tivessem vencido o jogo.

Noruegueses cantaram a plenos pulmões no apito final
Noruegueses cantaram a plenos pulmões no apito finalMAURO PIMENTEL / AFP

Nada vai estragar o verão dos noruegueses

A atual geração norueguesa já quebrou recordes ao alcançar a melhor pontuação da história do país numa fase de grupos do Mundial. O grande objetivo agora é a fase a eliminar, mantendo vivo o sonho de avançar ainda mais no rumo aos oitavos de final. A confiança no plantel continua, independentemente de quem estiver do outro lado do campo.

Adeptos da Noruega vivem um verão inesquecível nos Estados Unidos
Adeptos da Noruega vivem um verão inesquecível nos Estados UnidosFRANCK FIFE / AFP

Quando soou o apito final, a superioridade francesa e o marcador podem até ter ficado registados no relatório, mas a narrativa legítima das bancadas de Foxborough foi escrita em azul, branco e vermelho nórdicos.

Para uma nação que passou 28 anos a assistir ao maior espetáculo da terra pela televisão, nenhuma derrota no mundo é capaz de estragar a festa de quem, embalado por clássicos das pistas e remadas improvisadas, está a fazer o verão na América do Norte valer a pena. 

Futebol