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Médio titular do Japão em 1993, Moriyasu estava em campo quando o empate 2-2 com o Iraque, nos descontos, acabou com o sonho de disputar o primeiro Mundial da história do país. E depois de um primeiro tempo em que o Japão poderia ter definido a vaga.
33 anos depois, encontra o Brasil num jogo a eliminar de Mundial cenário inimaginável naquela época. O país que um dia importou craques brasileiros para aprender a jogar futebol agora exporta talentos para as principais ligas da Europa, disputa o seu oitavo Mundial consecutivo e chega aos 16 avos de final convencido de que pode enfrentar qualquer adversário. A transformação é uma das mais bem-sucedidas do desporto mundial. E começou com forte influência brasileira.
Projeto começou antes do primeiro Mundial
Até ao fim dos anos 1980, o futebol japonês vivia à sombra do basebol. O campeonato era formado por equipas ligadas a grandes empresas, o profissionalismo ainda gatinhava e a seleção colecionava fracassos na qualificação. Apesar de a Federação Japonesa de Futebol existir desde 1921 e o Japão ter chegado aos quartos de final do torneio de futebol dos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936.
A criação da J.League, em 1993, é um ponto importante da mudança. A nova liga nasceu com um plano que extrapolava o futebol profissional. Batizado de "Visão dos 100 Anos", o projeto previa clubes ligados às comunidades, investimentos pesados em categorias de base, formação de treinadores e estádios capazes de aproximar adeptos e equipas. O objetivo era transformar o futebol num dos desportos mais populares do país e fazer do Japão uma potência internacional. Para acelerar esse processo, como os resultados já mostram, a solução foi importar conhecimento.
Zico foi o professor
Nenhum estrangeiro exerceu influência maior do que Zico.
Em 1991, o maior ídolo da história do Flamengo desembarcou no então Sumitomo Metals, clube que se transformaria no Kashima Antlers. Mais do que um camisola 10, o brasileiro levou ao Japão uma cultura de treino, disciplina e competitividade que ainda estava a ser construída.
A sua influência rapidamente ultrapassou as quatro linhas. O Kashima Antlers tornou-se o clube mais vencedor do país e virou referência para a recém-criada J.League. Até hoje, Zico é tratado pelos japoneses como o "Deus do Futebol".
Anos depois, entre 2002 e 2006, voltou ao país para dirigir a seleção. Conquistou a Taça Asiática de 2004 e comandou o Japão justamente no Mundial da Alemanha, quando enfrentou o Brasil nos oitavos de final. Os japoneses chegaram a abrir o marcador, mas acabaram derrotados por 4-1.
Zico foi o principal símbolo desse intercâmbio, mas não esteve sozinho. Nos anos 1990, a J.League abriu espaço para nomes como Dunga, Leonardo, Ramón Díaz, Gary Lineker e Dragan Stojković. Eles ajudaram a elevar o nível técnico da competição e aceleraram a profissionalização do futebol japonês.

De importador de craques a exportador de talentos
Se nos anos 1990 o Japão precisava de trazer estrelas estrangeiras para elevar o seu futebol, hoje são os jogadores japoneses que abastecem as principais ligas da Europa.
A mudança pode ser contada pelas gerações. Primeiro veio Kazuyoshi Miura, o eterno King Kazu, símbolo da profissionalização da J.League. Depois apareceram Hidetoshi Nakata, que brilhou no futebol italiano, Shunsuke Nakamura, ídolo do Celtic, e Keisuke Honda, protagonista da seleção em três Mundiais.

Hoje, a nova geração confirma o sucesso do projeto iniciado há mais de 30 anos. Jogadores como Kaoru Mitoma, Takefusa Kubo, Wataru Endo, Takehiro Tomiyasu, Daichi Kamada, Ritsu Dōan e Zion Suzuki atuam em alguns dos campeonatos mais competitivos do planeta.
Até junho, havia 62 jogadores japoneses atuando nas oito principais ligas europeias, incluindo a primeira e a segunda divisões de Inglaterra, além dos campeonatos da Alemanha e da Bélgica.

Na Premier League, quatro japoneses disputam a competição, entre eles o médio Daichi Kamada (Crystal Palace), que integrou a seleção japonesa no Mundial da América do Norte. Na Bundesliga, são 15 jogadores japoneses, enquanto na Jupiler League belga são 19. É o retrato mais evidente da inversão de papéis: o país que importava conhecimento passou a exportar talento.
Uma seleção que aprendeu a competir
Os resultados apareceram rapidamente. Desde a estreia na França, em 1998, o Japão nunca mais ficou fora de um Mundial.
Em 2002, a jogar em casa ao lado da Coreia do Sul, alcançou os oitavos de final pela primeira vez. Repetiu o feito em 2010, 2018 e 2022.
Na Rússia, esteve a minutos de eliminar a Bélgica depois de estar a vencer por 2-0 nos oitavos de final. Sofreu a reviravolta por 3-2 e os belgas seguiriam até aos quartos para eliminar o Brasil.

No Catar, voltou a surpreender ao derrotar Alemanha e Espanha na fase de grupos, terminando na liderança de um dos grupos mais difíceis da competição. Caiu apenas nos penáltis frente à Croácia — outra seleção que, mais tarde, também eliminaria o Brasil.
Ainda falta alcançar os quartos de final pela primeira vez. Mas o Japão deixou de ser uma surpresa há muito tempo. Tornou-se um modelo de planeamento desportivo e uma presença permanente entre as seleções mais competitivas do futebol mundial. Em 2005, a Associação Japonesa de Futebol estabeleceu as metas de colocar o país entre as 10 melhores seleções do mundo até 2015 (hoje é a 18.ª) e conquistar o título mundial até 2050. Mas existe uma ambição legítima de tentar antecipar essa conquista.
Japão joga de azul: saiba porquê
Embora a bandeira japonesa seja vermelha e branca, a seleção veste azul desde o início do século passado. A origem mais aceite remete a uma equipa formada maioritariamente por estudantes da então Universidade Imperial de Tóquio, que representou o país em competições internacionais ao usar essa cor.

O azul atravessou gerações, resistiu a tentativas de mudança e acabou por tornar-se um símbolo nacional. Hoje, reforçado pelo apelido Samurai Blue, representa muito mais do que um uniforme.
Representa um futebol que começou a procurar inspiração no Brasil, mas que, ao longo de três décadas, construiu uma identidade própria e passou a servir de exemplo para o resto do mundo.
Mundial-2026
O Campeonato do Mundo de 2026 tem lugar de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México. O torneio conta com 48 seleções nacionais e é disputado em 16 estádios modernos.
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