Exclusivo com Aílton: "Neymar já não é o mesmo, mas eu levava-o ao Mundial"

Aílton é embaixador do Werder Bremen na Alemanha
Aílton é embaixador do Werder Bremen na AlemanhaČTK / imago sportfotodienst / Maximilian Koch

O antigo avançado brasileiro e atual embaixador do Werder Bremen falou sobre as dúvidas que ainda persistem em torno de uma possível convocatória de Neymar para o Mundial-2026, o atual momento de forma de Luis Díazna Bundesliga e o poderio do Bayern Munich.

Aílton Gonçalves da Silva, conhecido simplesmente por Aílton no mundo do futebol, tem um lugar de destaque na história da Bundesliga e, naturalmente, no Werder Bremen: é o quinto melhor marcador estrangeiro da liga alemã e, na época 2003/04, escreveu o seu nome na história dos Verdes, ao conquistar o título e a Bota de Ouro da competição.

Aílton tem, por isso, autoridade para falar do futebol alemão, do domínio incontestável do Bayern Munich e das hipóteses de Neymar integrar a lista de convocados de Carlo Ancelotti para o Mundial-2026, que se disputará nos Estados Unidos, México e Canadá.

Veja o que o antigo avançado brasileiro disse ao Flashscore.

Mundial-2026: O "caso Neymar" e os favoritos a serem campeões

- Vamos ao Campeonato do Mundo. Quais são as suas equipas favoritas?

Eu diria que a França, a Argentina e a Inglaterra têm boas equipas. A Alemanha e o Brasil porque têm o peso da camisola e a tradição, mas a Espanha é muito forte. Penso que tudo pode acontecer num Campeonato do Mundo.

A Alemanha está a jogar bem hoje, mas não se sabe como vai jogar amanhã; o Brasil está muito inseguro, tem jogadores que ainda não estão confiantes. Há um treinador de renome (Carlo Ancelotti), mas quem tem de jogar são os jogadores e não vejo confiança para chegar a um Campeonato do Mundo e dizer 'eu sou o Brasil'. Neste momento, não estão a mostrar grande futebol. Mas como latino vou colocar Argentina e Brasil; e na Europa França, Espanha e possivelmente Alemanha.

- Ancelotti deve chamar Neymar?

Para disputar um Campeonato do Mundo é preciso estar a um nível muito elevado, física e mentalmente, porque é muito difícil. Nunca joguei um Campeonato do Mundo, mas sei que é uma competição muito difícil. O Neymar tem uma qualidade inegável, mas tem de mudar a sua forma de jogar porque já não é o Neymar de antigamente; a forma física já não é a mesma. Mas é um jogador que pode fazer uma jogada e mudar o jogo todo. Se eu fosse o treinador, chamava-o e ele estaria na minha lista de jogadores para o Campeonato do Mundo.

- Individualmente, quais jogadores você acha que estarão em grande forma para o Mundial-2026?

A França tem jogadores que farão a diferença no Campeonato do Mundo. Temos o Mbappé e o Olise do Bayern. Os dois são impressionantes.

Os números de Neymar
Os números de NeymarFlashscore

O poderio do Bayern e um olhar sobre a Bundesliga

- Com o seu vasto conhecimento da Bundesliga, o que acha do Bayern de Munique?

É muito fácil falar do Bayern: é a melhor equipa, tem os melhores jogadores e a época que está a fazer ofensivamente é muito boa. Eles têm jogadores com muito potencial para definir jogadas e é normal na Alemanha que o Bayern esteja num bom momento.

- Como extremo, acha que Luis Diaz está entre os cinco melhores do mundo?

Sim, o jogador cresceu muito e encaixou-se muito bem no sistema. Para um jogador latino, quando se muda, é um pouco difícil, por causa da língua, da mentalidade, da estrutura e da cultura alemãs, mas como ele já estava no Liverpool, isso ajudou-o a adaptar-se bem à Europa. Está a jogar muito bem, para mim é um dos melhores da Europa no ataque e relacionou-se muito bem com Harry Kane. É por isso que o Bayern tem um grande poder ofensivo e é por isso que é favorito na Liga dos Campeões.

- Se compararmos a sua época de jogador com a atual: o que mudou na Bundesliga?

Mudou muito. Penso que no meu tempo havia jogadores com mais qualidades, mais peso para jogar futebol. Em 2004, quando fui campeão, a diferença de pontos entre nós e o Bayern era de apenas seis. Muito pouco e atrás de nós vinham o Dortmund, o Leverkusen, o Schalke, o Estugarda... Todos tinham jogadores muito bons e o nível era muito elevado. Hoje em dia, vejo a Bundesliga num nível muito baixo. Se tirarmos o Bayern e o Dortmund, estão todos no fundo do poço. É por isso que a Bundesliga desceu muito. Tínhamos equipas que lutavam pela Liga Europa, pela Liga dos Campeões, mas hoje essas equipas lutam para evitar a despromoção. Portanto, tudo mudou. O Bayern dominou durante mais de uma década.

Em 2004, Ailton ganhou a Taça da Alemanha e a Bundesliga com o Werder Bremen.
Em 2004, Ailton ganhou a Taça da Alemanha e a Bundesliga com o Werder Bremen.MICHAEL URBAN / DDP / DDP IMAGES VIA AFP

- Porque é que acha que isso acontece?

O futebol, em geral, mudou muito. Hoje em dia, os jogadores são mais caros e pedem muito dinheiro para jogar futebol. Por isso, as equipas que não têm poder financeiro não podem contratar jogadores.

Falando da Alemanha, equipas como o Werder Bremen, ou outras equipas que podiam lutar pelo topo, contrataram jogadores que deviam ter tido outra análise. Há jogadores que foram contratados e ficaram no banco, outros ficaram em casa. Não estou a falar apenas do Bremen, mas de muitas equipas. E quando se tem um poder económico forte, como é o caso do Bayern, se um jogador falha, há outro que está lá. O meu ponto de vista é que não foram recrutados jogadores de qualidade para lutar no topo.

O troféu de melhor marcador que recuperou e o sonho de regressar ao Brasil

- Sabemos que você recuperou o troféu de melhor marcador da Bundesliga de 2003/04. Como foi isso?

Um empresário ficou com o meu troféu e queria que eu pagasse um valor muito alto. Eu disse-lhe que não, que ele não era meu agente na altura e que não tinha de pagar qualquer comissão. Depois levou-me as coisas quando estive no México, e estou a falar de 2006, quando joguei no Hamburgo. Pedi-lhe para tirar as minhas coisas do meu apartamento em Hamburgo e levá-las para Bremen. Ele levou algumas coisas para Bremen e os meus troféus para a casa dele em Colónia. Depois da Turquia, fui para a Sérvia com um representante alemão e aí começou a luta.

No final, tive de pagar uma taxa pelo processo, mas também disse 'ei, dou-vos mais para chegarem a acordo. Se vamos esperar pela justiça, eu vou tê-la (ganhar). Não quero vender e não concordo que vendam porque não vos devo absolutamente nada'.

Mas isso acontece com muitos futebolistas, que conhecem pessoas más. Acontece muitas vezes. Naquela altura, só pensava em jogar e em confiar nas pessoas.

Para além da Taça e da Bundesliga, em 2004 ganhou a Bota de Ouro por ter sido o melhor marcador do campeonato com 28 golos.
Para além da Taça e da Bundesliga, em 2004 ganhou a Bota de Ouro por ter sido o melhor marcador do campeonato com 28 golos.ANDREAS ALTWEIN / DPA / DPA PICTURE-ALLIANCE VIA AFP

- Qual é a sua situação atual?

Vivo na Alemanha, levo uma vida tranquila. Sou embaixador do clube (Werder Bremen). Tenho de estar presente em eventos, agora à noite tenho dois compromissos. Sou calmo e quero dar aos meus filhos um pouco da cultura europeia, e depois penso voltar para o Brasil, para a minha aldeia, com os meus cavalos... porque gosto do rancho. Estou quase a fazer 53 anos e daqui a dois ou três anos quero voltar.

- Há algum momento na vida em que dizemos 'já fiz o suficiente e agora é altura de aproveitar'?

Vou falar como pai: tenho cinco filhos. E uma família é uma preocupação muito grande, é um fardo muito pesado, e o pai fica sempre com a ideia de que os filhos nunca vão crescer e sempre vão precisar do pai. Eu tenho o Aílton e a Estela, que têm 18 anos, e os outros são mais velhos, já têm os seus empregos. O compromisso com as famílias faz com que a pessoa mude o seu plano, a sua rota. Então, daqui a dois ou três anos eu quero voltar para o Brasil. Os meus filhos já estarão com a vida encaminhada, com os estudos concluídos. Eu só tenho que aproveitar o resto da minha vida, descansar.