Acompanhe o Uruguai-Espanha
- Bem-vindo ao Flashscore, Emilio. Ainda o vejo em forma para continuar a jogar.
- Em forma, em forma... já começam a pesar os anos, já lá vão 55 e, bem, a aparência não está má, mas se olhares por dentro a coisa já é diferente (risos).
- Sente falta da vida de futebolista de elite?
- Sente-se falta de competir, isso sem dúvida nenhuma. Talvez o treino diário, as viagens e tudo isso, nem tanto. Mas o que é competir, acho que se sente sempre falta. Para isso não há idade e, mesmo que vamos envelhecendo, esse espírito competitivo continua dentro de todos nós.
- Jogou com a seleção espanhola uns Jogos Olímpicos e um Europeu. Como eram essas concentrações tão longas e sem tantas distrações como agora?
- Aquilo era bastante mais aborrecido do que agora. Toda a gente gostava de jogar às cartas ou coisas do género. Não havia tanto acesso à internet, não havia Instagram para andar a cuscar tudo. Praticamente, eu passava o tempo a ler ou a passear, não havia muito para fazer. Era o preço a pagar por estar numa grande competição.

- De certa forma era algo mais pessoal, não? Mais próxima a convivência entre todos, jogadores e staff.
- Sim, sim, é verdade. Além disso, partilhava-se o quarto, normalmente tinhas um colega. Agora parece que vão sozinhos. Antes, procuravas sempre uma sala onde pudesses estar com mais colegas para conversar, jogar bilhar, matraquilhos ou o que fosse.
- E agora, de fora, como vê esta nova época dourada que parece estar a viver a seleção?
- Estou a ver bem. Toda a gente ficou de cabelos em pé com o empate no primeiro jogo. Mas acho que essa é a preparação lógica que um Mundial tão longo exige. Tens adversários mais acessíveis nos primeiros jogos. O normal é chegares sem estar totalmente afinado. Que sejam esses jogos a servir de treino para chegares ao desta madrugada. Mas acho que o Uruguai é aquele que todos esperavam para ver se podíamos ser primeiros do grupo. Por isso, acho que neste momento Espanha está bem posicionada, onde devia estar.
- Não o preocupou esse início tão hesitante contra Cabo Verde?
- Não, não. A verdade é que não. Dizia a toda a gente que tínhamos um ponto a mais do que quando fomos campeões do mundo. Esse jogo (contra a Suíça) perdeu-se e até jogámos bastante mal. Neste, o único problema foi não conseguirmos marcar golo. Mas tivemos o controlo total do jogo, rematámos não sei quantas vezes à baliza. Bem, acho que Espanha já é mundialmente conhecida pelo seu jogo e todos esperam que jogue a um grande nível.
Um tiki-taka muito mais evoluído
- Muitas vezes, caímos também nas comparações. Mas em 2010, por exemplo, jogava-se um tipo de futebol que foi evoluindo. Agora já não é tanto o tiki-taka de que se falava, mas sim há muito mais profundidade nas alas.
- Eu gosto mais disto. O tiki-taka está bem, é bom ter a bola. Mas acho que é preciso ter a bola para causar dano ao adversário. É isso que Espanha procura. Continua a manter a posse, mas agora, quando pode, mata-te. Já pelas alas, já a partir da segunda linha, tem agora muitos jogadores a chegar à área e acho que sabemos aproveitar isso muito bem.
- Foi extremo, embora jogasse na ala esquerda sendo canhoto, algo que hoje em dia é muito raro, não?
- Agora sim, agora é quase impossível.
- Gostaria de ter jogado pela direita para aproveitar o remate como faz Lamine Yamal?
- Não, sinceramente não (risos). Primeiro porque não tinha um grande remate e o que eu gostava era de chegar à linha de fundo e cruzar para o avançado que aparecia. Essa era a minha missão e adorava fazê-lo.
- E como vê o Lamine e o Nico Williams, que ainda não chegaram totalmente bem? Foram um fator decisivo no Europeu que se ganhou, mas nesta edição, depois de tanto tempo parados com problemas físicos, ainda não estão claramente ao seu melhor nível.
- Bem, acho que vão fazer o mesmo que fez Espanha no geral. Começaram em baixo e, pouco a pouco, vão ganhar forma. E quando chegarem os jogos a sério, os importantes em que ou passas de ronda ou vais para casa, acho que aí vão brilhar como aquilo que são, grandíssimos jogadores que causam imenso perigo pelas alas. Muito mesmo.
- Tendo tantos extremos no plantel, surpreendeu-o que no primeiro jogo De La Fuente tenha colocado o Gavi como extremo esquerdo?
- Acho que surpreendeu toda a gente. Ninguém esperava isso, também não correu muito bem essa aposta e acho que, assim que tiver estes dois craques (Lamine e Nico), porque são dois craques, em forma, não vai ter dúvidas em colocá-los aos dois ao mesmo tempo.

- Baena esteve, por exemplo, melhor, tal como o resto da equipa, pelo menos a nível de criação de oportunidades, de eficácia e assim, sem ser extremo, não?
- É que temos jogadores muito bons que podem jogar em várias posições. O Baena pode jogar nas alas, pode jogar por dentro perfeitamente porque tem muita qualidade, tem remate. Para mim temos uma grande seleção, já o disse, não sei se a favorita, a número um, mas claramente entre as quatro ou cinco favoritas.
A grande diferença entre Espanha e as restantes seleções
- Do que viu até agora, por exemplo, em Espanha, Emilio, o que mais gostou e o que menos?
- O que menos gostei foi a falta de pontaria no primeiro dia e a falta de ritmo na circulação da bola. Acho que Espanha tem muita qualidade e tem de a aproveitar. Jogar rápido e desposicionar as defesas adversárias. Isso faltou no primeiro jogo. No segundo já voltámos a ver a Espanha a que estamos habituados. Acho que aí sim, viu-se uma Espanha com vontade de marcar golo, com vontade de atacar constantemente o adversário, de duelos individuais, que no primeiro jogo praticamente não se tinham visto. Acho que isso vai dar-nos o que é preciso numa equipa, o que é preciso para chegar às últimas jornadas, às meias-finais ou à final. Depois, a partir daí, não se sabe o que vai acontecer porque haverá seleções fortíssimas, mas essa ambição temos de a ter.
- O que se está a ver neste Mundial, para além da seleção espanhola, é que todas as estrelas estão a brilhar, estão a ter os seus momentos. Praticamente não há nenhum dos grandes que não esteja a marcar golos, a fazer bons jogos, no fundo a mostrar porque são estrelas. E isto é difícil, chegar os melhores no melhor momento, na melhor competição.
- Sim, é verdade. Olha, acho que essa é a vantagem que temos. Vês a Argentina, dizes Messi; Portugal, Cristiano; Noruega, Haaland; dizes Espanha, sim, podes dizer Lamine Yamal, mas não o dizes com tanta força, não é um hipergoleador que resolve sozinho os jogos, Espanha joga em equipa. E quando um dos teus jogadores não brilha, brilha outro. Isso nas outras seleções é muito mais difícil de ver. Acho que essa é uma das grandes vantagens de Espanha.
Segue-se o Uruguai
- O que me diz do Uruguai, com disputas internas até com Bielsa? Não é a melhor forma de encarar uma finalíssima como a que têm contra Espanha.
- Não, de certeza que não. E ainda menos contra um adversário como Espanha. Medo no futebol acho que não existe, mas sim muito respeito por Espanha. Sabem que têm uma tarefa muito complicada. Os dois jogos empatados, sobretudo o segundo, para mim é um deslize importantíssimo. Acho que não contavam nada com jogar a sua primeira final já contra Espanha. Eles não estão bem e nós temos de aproveitar isso.

- Lá têm, por exemplo, o Fede Valverde. Têm o Ronald Araújo também, embora não estejam no seu melhor nível.
- Têm jogadores interessantes e certamente vão tentar jogar de forma agressiva, vão ter de pressionar muito Espanha, meter o pé. Bem, são as armas que o Uruguai tem, mas Espanha é muito favorita neste jogo.
- E para o Mundial, vê-a candidata a chegar longe? Porque também é preciso ter em conta os cruzamentos.
- Isso importa-me menos. Os outros vão estar a dizer o mesmo. Quando virem que Espanha está do seu lado do quadro não vão ficar muito contentes. Já te digo, acho que antes de começar o Mundial, Espanha era uma das favoritas. E vi muitos jogos de muitas seleções. Não vi nenhuma que digas "esta é muito melhor que Espanha". Acho que continuamos a ter essa capacidade de nos considerarmos favoritos. E mesmo que, como te digo, talvez não sejamos a favorita número um, toda a gente nas apostas coloca Espanha.
- Pode isso pesar numa seleção tão jovem como a espanhola?
- Não, temos uma seleção jovem, é verdade, mas muito destemida. Acho que a estes rapazes não lhes importa nada isso de serem chamados favoritos. Pelo contrário, sentem-se até confortáveis a pensar que podem ser os melhores do mundo.
As subidas de Racing e Deportivo
- Bem, já que o tenho aqui Emilio, não resisto a perguntar-lhe por um verão muito bom para os adeptos do Racing de Santander e do Deportivo da Corunha, também para os do Málaga. Mas jogou no Racing e no Depor.
- Sim, é verdade. Uma época excecional. O Racing já tinha tido dois anos a bater na trave, digamos assim. E toda a gente em Santander esperava que esta época fosse de sucesso. E assim foi, com um futebol muito bom, sagrando-se campeão da LaLiga 2. E foi uma grande alegria para a cidade. E o Deportivo, que acho que era menos favorito, foi sendo um dos outsiders. Mas chegou aos jogos importantes, aos últimos 10 jogos da liga com força. E conseguiu também a subida. São dois clássicos da LaLiga que, para mim, dão cor a essa categoria. Há equipas que tu dizes, como é que esta equipa está na LaLiga? Que nunca lá esteve. Pois bem, Deportivo e Racing de Santander acho que são dos clássicos.

- Bem, clássico é o Real Madrid, que contratou Mourinho.
Sim, sim. Poucos esperavam, antes de Florentino o anunciar, que Mourinho pudesse voltar ao Real Madrid. Bem, vamos ver primeiro ver que equipa vão construir. Porque acho que a equipa do ano passado estava bastante desequilibrada. Vamos ver se conseguem equilibrar, fazer um plantel forte. E pode voltar a lutar pelos títulos.
- Pois o título de campeão do mundo é o que deve esperar pela seleção espanhola se fizer as coisas bem, Emilio. Gostaria de ter feito parte desta seleção para lutar pelo Mundial?
- Claro, e quem não gostaria? É difícil dizer que não ao ver Espanha jogar. O quão bem joga, a qualidade que todos têm, o quão unido está o grupo, que acho que também é fundamental para alcançar grandes objetivos. E claro, teria gostado sem dúvida. Representar o teu país é o melhor que há e, se não, não importa a época. Gostaria também de ter jogado na época do Di Stéfano e do Gento, nesta e nas que vierem. Jogar por Espanha é sempre um prazer.
- Foi um prazer falar consigo, Emilio, conversar um pouco sobre a seleção e sobre futebol. E que continue a brilhar como faz com as lendas do Real Madrid e, sobretudo, da seleção espanhola.
- Bem, espero é não me magoar, isso é o mais importante (sorri).
Mundial-2026
O Campeonato do Mundo de 2026 tem lugar de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México. O torneio conta com 48 seleções nacionais e é disputado em 16 estádios modernos.
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