Luisão conquistou o triplete pelo Cruzeiro em 2003, disputou as Taças de 2006 e 2010 e fez história no Benfica. Foram 15 temporadas consecutivas no clube português, onde se tornou o jogador com mais títulos na história dos encarnados (20 troféus) e o capitão que mais vezes vestiu a camisa do clube, superando a marca de 500 jogos.
O brasileiro também conquistou a Copa América de 2004 com a Seleção - com direito a golo na final contra a Argentina - e duas Taças das Confederações (2005 e 2009). Com 45 anos, Luisão é atualmente um dos comentadores dos canais ESPN.
- A que atribui a incrível longevidade no Benfica? Esteve tentado a sair do clube em algum momento?
- A cada ano, a cada dois anos, tinha propostas de outros clubes. Eu atribuo a longevidade ao presidente da altura , Luís Filipe Vieira, que não aceitava. Vou dar um exemplo: chegou uma proposta da Juventus e eu adorava a Juventus, porque um defesa na Itália evolui muito. Fui falar com o presidente e ele mandou-me para aquele lugar (risos), disse que não queria saber. Via-me como um jogador de confiança e que quando contratava os jogadores, eu estava ali para fazê-los crescer. Mas houve várias propostas. O Camacho, por exemplo, é um treinador espanhol que saiu dali, queria levar-me para o Real Madrid, ele não deixou. O Quique Flores foi nosso treinador também e depois foi para o Atlético de Madrid. Ligou-me próximo do Mundial-2010, a dizer que me queria levar para lá. O presidente também não deixou. Mas eu não ficava chateado porque eu pensava pelo lado de deixar um legado.
- Quem foi o melhor treinador com que você trabalhou?
- O melhor treinador para mim foi o Jorge Jesus. E se quiser, conto uma história dele logo quando chegou. Chamou-me ao gabinete e disse: 'olha, se eu estivesse num clube e me oferecessem o teu nome, eu não te contrataria'. E acrescentou: 'agora eu vou-te ensinar a jogar'. Eu fiquei com aquilo na cabeça. Peguei no carro, fui para casa e disse, 'falou com tanta autoridade que eu vou fazer tudo o que ele disser'. No primeiro jogo, eu nem suei a camisola. Ensinou-me uma maneira da defesa jogar que era toda em linha, quando saía um, o outro vinha, para não depender do atacante... Tinha uma frase que ele usava até à exaustão no treino: 'se um dia apagar a luz, eu quero que a minha equipa jogue no escuro e toda a gente sabe onde está toda a gente'. E era verdade.

- Jesus foi o melhor só taticamente ou no conjunto?
- Taticamente, mas ele não sabe lidar tanto com o lado humano dos jogadores. O ser humano fora de campo, sim, mas dentro de campo ele é um pouco bruto, no português claro, na maneira de tratar o jogador. Agora, fora de campo, é de um coração enorme.
- Essa brutalidade atrapalha um pouco?
- Os (jogadores) mais novos, sim, os mais novos. Porque, no meu caso, e no dos outros mais experientes, já sabíamos lidar com isso. Só que aos mais novos colocava pressão em cima. Essa maneira enérgica de falar transformava em pressão nos jogadores.
- Tem um carinho especial pelo Luiz Felipe Scolari que o estreou como profissional?
- Muito especial, porque houve um treino em que o adjunto dele, o Murtosa, apitava falta em toda bola que eu chegava. Eu pensava, dava falta, respirava, era falta... Perdi a cabeça. Disse-lhe 'tomar caju'. Expulsou-me do treino. Liguei ao meu pai e disse, 'pai, acabou, não dá mais'. Voltei no outro dia para treinar, e a minha roupa não estava mais no balneário dos juniores. Aí o tio Dássio, que era o diretor da formação disse-me: 'Ninguém te disse? É para te apresentares nos profissionais'. Corri do campo da formação até ao profissional, parecia o Usain Bolt. Entrei no balneário, e o Felipão deu-me uma lição de humildade que eu carrego comigo até hoje. Saí a chorar do gabinete dele porque disse-me coisas que tocaram no coração mesmo. Disse que se eu tivesse aquele comportamento (de insultar um adjunto), não ia ser ninguém no futebol. Assimilei e transformei numa humildade para a vida. Nunca tirei o pé do chão muito pela conversa com o Felipão, então ele tem um lugar especial no meu coração. Foi dura a caminhada, mas sempre com o pé no chão, sempre próximo da família, sempre próximo do meu pai, sempre ouvindo conselhos, sempre ouvindo o treinador, sempre querendo melhorar.

- Recentemente defendeu o Vinícius Júnior no episódio com o Prestianni. Foi complicado comprar esta luta por ser atleta do Benfica?
- Tenho 100% de convicção que eu tinha que ter tomado essa posição. Não foi fácil porque foi um jogo contra o meu ex-clube. Mas em nenhum momento eu fiquei contra a instituição. Fiquei contra o ato em si. Foi duro porque foi porrada de tudo quanto é lado nas minhas redes sociais, inclusive gente de dentro do Benfica colocou o meu caráter em dúvida indevidamente, mas eu tenho que orgulhar meu pai e minha mãe eu não tenho que orgulhar o adepto, ou ficar em cima do muro só porque eu fiquei 15 anos como jogador e 26 anos como diretor (do Benfica).
- O Vini é hoje a voz mais ativa contra o racismo no futebol?
- O Vini sofre vários tipos de preconceito. O primeiro é o racismo, mas há o facto de ser um brasileiro negro brilhar num dos cinco principais campeonatos do mundo. Então, é difícil para as pessoas admitirem isso. É difícil. É difícil ver um negro brasileiro que saiu de onde saiu e está a brilhar no campo. Então, ele sofre, na minha opinião, dois racismos. Racismo pelo país de onde saiu e da situação que saiu.
- A punição da UEFA a Prestianni ajuda a combater o racismo?
- Não. Primeiro que antes de ser insuficiente, eu acho que foi um pouco mentirosa. A UEFA não puniu o Prestianni por racismo e sim por homofobia com 6 jogos. Então foi uma maneira de camuflar e tudo continua na mesma coisa, vai acontecer de novo. Isto foi uma maneira da UEFA não se expor e camuflar o que foi mais grave, que foi o racismo. Na minha opinião, a UEFA foi infeliz. A causa tinha que ficar clara e não ficou, não ficou porque quis subestimar a nossa inteligência, a inteligência dos adeptos , a inteligência dos jogadores e eu não concordo com isso.
- Recebeu apoio de adeptos do Benfica também?
- Um ou outro apoio, o resto insultou, chamaram-me de macaco, de Judas, 'não voltes mais no clube, sai do mural'. Só que os números dizem, né? Não querendo ser orgulhoso demais, mas eu sou o segundo jogador com mais jogos, o primeiro jogador com mais títulos. E quando eu cheguei lá, o Benfica estava às traças. Mas em Lisboa a coisa foi diferente. Quando fui lá e andei na rua, toda a gente dizia, 'eu sou benfiquista, parabéns pelo teu comportamento. Foi corajoso e tal'. Porque uma coisa é a rede social, mas quando eu estive no país para ter o termómetro, respeitaram-me.

- Torce por algum dos antigos clubes quando assiste futebol?
- Tenho um carinho enorme pelo Cruzeiro, pela Juventus-SP, e pelo Benfica também torço. Mas, aqui no Brasil - e isso é inédito -, aqui no Brasil eu sou adepto do Corinthians, porque eu acho que a claque é espetacular. Torço, mas isento. Gosto, não fico triste, não fico alegre, mas acima de tudo está o profissionalismo, e o meu profissionalismo na ESPN tem que ser isento.
- O corintianismo vem de berço?
Sim, porque meu pai era pontepretano no caso, e todo adepto da Ponte Preta torce para o Corinthians, né? Mas quando começas a jogar, começas a perder um pouco essa paixão por um clube e começas a defender o teu. Então, fica aquela coisinha, mas nada exagerado.

- Como definiria a experiência de jogar um Mundial para nós mortais, que não somos jogadores profissionais?
- É maravilhoso, é maravilhoso. Estás noutro mundo. Uma coisa é disputar o campeonato brasileiro, o campeonato português, a Taça do Brasil. Agora, o Mundial é uma coisa inexplicável. A não ser a palavra orgulho, não há outra coisa para definir, sabe? Porque passa muita coisa pela cabeça, passa a tua imagem em criança, numa cidade pequena e de repente estás entre os melhores do Brasil. Em 2006 tinha Cafu, Roberto Carlos, Dida, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho. Então, passa um filme na sua cabeça. Ficas orgulhoso por estar ali, por estar a representar a tua pátria, por saber que há 200 milhões de habitantes a torcer por ti e a ver os jogos.
- O golo de Adriano virou o símbolo do título do Brasil na Copa América 2004, mas também marcou naquela final. É o golo favorito?
- Eu fiz de tudo naquele jogo. Começou o jogo, eu fiz um penálti. Depois, marquei. E depois eu fui fazer uma cobertura ao (guarda-redes) Júlio César no cruzamento, o Ayala cabeceou o meu crânio e eu tive convulsão. Desmaiei já no alto com convulsão. Então aquela parte eu acompanhei no hospital.
- Lembra-se lance da concussão?
- Lembro-me do lance, e depois lembro do golo. Tirando aquela exibição contra a Argentina na Taça das Confederações, para mim foi o jogo mais marcante da minha carreira.
- Tem saudade da época de jogador?
- É muita pressão quando jogamos? Fica saudade, mas eu não tenho mais vontade porque a pressão é muito grande, podes falhar e qualquer falha pode estragar a tua carreira.

- Como lidou com essa pressão quando cometeu um penálti no início da final da Copa América contra a Argentina?
- Como tinha contato com psicólogos, eu estava preparado já para o bem ou para o mal, então quando eu fiz o penálti a primeira coisa que eu pensei foi: 'No Brasil está toda a gente a insultar-me'. Só que o psicólogo ensinou-me que quando acontece este tipo de coisas, é preciso dois, três contactos com o atacante para que o teu cérebro volte para o jogo de novo. Então eu tive esse pensamento, fiz a estratégia e voltei para o jogo de novo. Porque a tendência era perder a confiança e cometer outro erro. A primeira coisa que eu fiz foi logo ir no Carlos Tevez com dois, três contatos, de encostar fisicamente mesmo. A bola pode estar longe, mas estás ali a encostar nele, a provocar, porque o teu cérebro volta para o jogo de novo e volta para a competição.
- Dois anos mais tarde, jogou no Brasil de 2006 do Quadrado Mágico. O que falhou no Mundial da Alemanha?
- Naquele Mundial, o Brasil estava espetacular. Só que apanhámos uma França muito forte também, com o Zidane no auge da forma. E acabamos a sofrer um golo de bola parada, onde a narrativa de quem critica é de colocar a culpa no Roberto Carlos. Mas não é essa a narrativa verdadeira. A narrativa verdadeira é que o Roberto Carlos ficava na entrada da área, e outro jogador marcava o Henry. Infelizmente o jogo estava competitivo e sofremos um golo de bola parada, então, não é que o quarteto não funcionou.
- Foi a derrota mais pesada da carreira?
-Acho que não. A derrota mais pesada foi no Mundial-2010, porque mudou a geração e contra os Países Baixos podíamos ter feito 3-0 só no primeiro tempo. A de 2006 eram jogadores mais experientes, muitos já tinham ganho em 2002. Quando ganhas e perdes a próxima, a derrota dói menos. Mas quando muda a geração e tens a oportunidade mais clara, de jogar contra uns Países Baixos no primeiro tempo e conseguir fazer três, se quisesse, e acabas por perder depois no segundo tempo por dois erros - um do Felipe Melo que pisou o Sneijder e o Júlio César, infelizmente, falha numa bola. Um jogo que podíamos ter ganho e em 5,10 minutos somos eliminados. Eu acho que essa foi a derrota que mais doeu.
- Que avançado tirava o sono?
- Conto uma história: com a Seleção, naquele particular do Centenário da FIFA (em 2004), o Juan e o Roque Jr. estavam lesionados. E eu e o Cris no banco. De noite, o (técnico) Parreira bateu na porta e disse, 'olha, vais jogar, estás preparado?'. Não tinha como dizer não, né? Eu disse, 'estou'. Só que eu liguei a televisão do quarto depois, era Henry, Zidane, faziam golos de tudo quanto era forma, eu só pensei: 'Amanhã eu vou jogar e depois nunca mais volto para a seleção brasileira, porque olha o que eu estou a ver ali”. Liguei a televisão, não consegui dormir também, ou dormi pouco. Mas chegou no jogo, eu e o Cris resolvemos dar tudo. Era nossa oportunidade de ouro. E o jogo ficou 0-0. Até a minha relação no clube também mudou, para os portugueses mudou a imagem que tinham de mim – de um jogador que não estava a acompanhar o ritmo do campeonato português para um jogador respeitado porque foi titular da seleção brasileira contra a França e não sofreu golo.
- E o Cristiano Ronaldo era mais fácil de marcar?
- Dizer que era fácil, não era fácil. Eu confesso que jogar contra ele não conseguia dormir na véspera.
- Para terminar, vou citar uns clubes e diz-me qual é a primeira lembrança ou memória que vem à cabeça.
- Ok
- Primeiro, o Juventus da Mooca
- Sérgio Soares. Porque eu era criança ali e vi-o jogar e vi-o como treinador depois. E ficava admirado.
- Cruzeiro?
- Alex Talento, que foi quem mudou aquele clube de 2003.
- Benfica?
- Benfica é o adepto.
- E seleção brasileira?
- Cafu, porque quem conquista o que o Cafu conquistou com a história do Cafu… joga quatro Mundiais. Poderiam ser vários, mas se é uma lembrança, é o Cafu.
