Exclusivo com Rui Águas: Cabo Verde no Mundial é "o maior acontecimento desde a independência"

Rui Águas orientou a seleção nacional de Cabo Verde
Rui Águas orientou a seleção nacional de Cabo VerdeKHALED DESOUKI / AFP / AFP / Profimedia

Há um momento preciso em que o futebol deixa de ser apenas um desporto e transforma-se no pulsar de toda uma nação. Para Cabo Verde, esse momento está a prolongar-se, convertendo o palco do Mundial-2026 numa poderosa montra de identidade, resiliência e orgulho. A qualificação dos Tubarões Azuis representa muito mais do que um marco desportivo; é a celebração máxima de uma cultura, um fio condutor que atravessa o oceano e une o arquipélago à sua vasta diáspora global.

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Depois de se libertar do rótulo de mero outsider com um histórico 0-0 frente à Espanha e um emocionante 2-2 diante do Uruguai, Cabo Verde encontra-se agora num cruzamento inimaginável. A próxima partida, frente à Arábia Saudita, é um duelo direto por um lugar incrível na fase a eliminar.

Para compreender a alma desta equipa e a dimensão do momento, falámos com um homem que conhece como poucos este belo arquipélago do Atlântico, a 500 km a oeste da costa do Senegal. Tão bem, aliás, que tem família lá.

Falamos de Rui Águas. Nascido em 1960, o antigo avançado português teve uma carreira de qualidade, destacando-se sobretudo no Benfica e no FC Porto. Conquistou quatro campeonatos ao serviço dos dois rivais e chegou mesmo a sagrar-se melhor marcador da Taça dos Campeões Europeus. Também levou o seu talento à Serie A italiana durante uma época, vestindo a camisola da Reggiana.

Acima de tudo, porém, Rui Águas é o homem que orientou a seleção nacional de Cabo Verde durante quatro anos, em dois períodos distintos: o primeiro entre 2014 e 2016, e depois entre 2018 e 2020. Nos 26 jogos em que esteve ao comando, lançou as bases essenciais, construindo o alicerce da equipa que, anos mais tarde, alcançaria o feito incrível de chegar ao Mundial e o milagre que hoje estamos a testemunhar.

- Um jogador da seleção cabo-erdiana disse que a qualificação para o Mundial é o acontecimento mais importante da história de Cabo Verde desde a independência. Concorda?

- Tenho a certeza de que esta qualificação histórica foi o maior e mais feliz acontecimento desde a independência, também porque foi a primeira vez. O povo cabo-verdiano adora futebol, é mesmo verdade, e em especial a sua seleção nacional.

- Conhece Cabo Verde como poucos: pode contar-nos como começou a sua relação com este pequeno país africano?

- A minha ligação ao país é, na verdade, profundamente pessoal. A minha esposa nasceu em Cabo Verde, por isso os meus laços com o arquipélago vão muito além do futebol. Por essa razão, tenho raízes profundas, muitas ligações próximas e família alargada a viver lá, o que faz deste um lugar verdadeiramente especial para mim.

- Orientou a seleção durante quatro anos: que período foi esse? Foi o alicerce da equipa que acabou por chegar ao Mundial?

- Naturalmente, o mérito máximo por este feito incrível pertence à atual estrutura federativa, à equipa técnica e aos jogadores que estão agora a competir. Mas o caminho até este nível foi longo e exigente. Foi um processo gradual de crescimento, e muitas pessoas diferentes contribuíram nos bastidores ao longo dos anos para construir a base sólida que permitiu a Cabo Verde brilhar hoje no palco mundial.

- Como se consegue a qualificação para o Mundial? Planeamento, trabalho federativo? Era um objetivo ou aconteceu por acaso?

- O objetivo, claro, sempre foi chegar ao Mundial. Embora a qualificação nunca seja verdadeiramente fácil, o caminho tornou-se, sem dúvida, mais acessível agora. Fizeram um trabalho fantástico ao vencerem o seu grupo de qualificação de forma direta, o que significou que não tiveram de depender de outros resultados: mereceram inteiramente o seu bilhete para o torneio. A grande diferença hoje é que a equipa beneficia de condições muito melhores, apoio mais forte e um nível de organização global significativamente superior em relação ao meu tempo. Essa evolução é absolutamente crucial.

Rui Águas a orientar a seleção nacional de Cabo Verde em 2015
Rui Águas a orientar a seleção nacional de Cabo Verde em 2015SEYLLOU / AFP / AFP / Profimedia

- Como é o ambiente no balneário de Cabo Verde no Mundial? E entre os adeptos?

- A equipa de Cabo Verde é uma verdadeira família. A forma única como este grupo vive o futebol está profundamente ligada aos adeptos, cujo apoio é verdadeiramente extraordinário. Nunca vi nada assim; os adeptos são uma parte absolutamente vital desta caminhada. Vivem cada momento ao lado dos jogadores, sentem a intensidade do jogo da equipa e o seu apoio incondicional faz uma diferença enorme.

- No início, era uma bela história, um sonho. Agora, depois do 0-0 frente à Espanha e do 2-2 diante do Uruguai, há hipóteses concretas de passar à próxima ronda. O que pensa?

- No início, ninguém acreditava que fosse possível empatar com a Espanha, uma das maiores equipas do mundo. Agora vamos ver o que acontece. Cabo Verde é muito forte como equipa e tem de continuar assim para alcançar ainda mais.

- O mundo do futebol inteiro emocionou-se com a história do guarda-redes Vozinha. Como o orientou e conhece pessoalmente, o que nos pode dizer sobre ele?

- O que posso dizer sobre o Vozinha? Não é apenas um grande guarda-redes, mas acima de tudo, é um homem genuinamente bom. Merece plenamente tudo de positivo que lhe está a acontecer neste momento. A sua exibição foi absolutamente crucial para garantir o empate frente à Espanha e veremos o que conseguirá na próxima partida. Desejo-lhe sinceramente o melhor.

- Que tipo de jogo espera frente à Arábia Saudita, que, aliás, tem tido dificuldades até agora?

- Agora tudo é possível. No início, pensávamos que a Arábia Saudita era o nosso principal rival, e agora confirma-se. É um jogo muito importante para passar. Os sauditas querem o mesmo que nós e também empataram com o Uruguai, por isso é preciso respeitá-los e tentar ser a melhor equipa. O próximo duelo frente à Arábia Saudita não será apenas uma questão de tática, esquemas ou resistência física. Será, mais uma vez, a prova de como o futebol pode servir de pretexto perfeito para contar histórias de emancipação, pertença e coragem.