Mundial-2026: De la Fuente quer Espanha "como uma família"

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Luis de la Fuente, num treino89598522222222225489299REUTERS / Kacper Pempel

O selecionador nacional, Luis de la Fuente, parece um homem que fez as pazes com o caos do futebol. Lidera uma das melhores gerações de futebolistas da história do país e sonha com a segunda estrela.

Afável, próximo, sorridente e com a serenidade de quem dedicou mais de uma década a construir a sua equipa peça a peça, enfrenta o Mundial com um grupo que muitos consideram o adversário a bater.

De la Fuente, que falou com a Reuters antes de viajar para a América do Norte, explicou que o segredo da ascensão dos campeões da Europa vai além de uma ideia tática clara, de um discurso motivador ou do génio de uma só pessoa; é algo mais simples e caloroso.

"Há algum tempo começámos a dar importância a uma palavra que nos trouxe muita segurança, confiança e força: família. Queremos que a seleção espanhola seja uma família", afirmou: “Desde o primeiro jogador até ao último, todos trabalhamos com essa ideia em mente e isso faz-me sentir muito tranquilo, muito sereno. Permite-me trabalhar sabendo que estou em boa companhia e isso dá-me imensa confiança.

Essa palavra tornou-se a espinha dorsal do seu conjunto de Espanha: um grupo unido não só pelo talento, mas também por anos partilhados em balneários, torneios de formação, desilusões, títulos e confiança mútua.

O longo e atípico percurso de De la Fuente até ao topo

O percurso de De la Fuente até ao topo foi longo e pouco convencional. Foi um lateral trabalhador que se deu a conhecer no Athletic Bilbao e depois esteve quatro anos no Sevilha. O riojano construiu a sua carreira como treinador, em grande parte, longe dos holofotes do futebol de clubes, passando uma década nos escalões jovens da seleção espanhola, onde conquistou um Europeu sub-19, outro Europeu sub-19, um ouro nos Jogos do Mediterrâneo e uma prata nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020.

Quando foi nomeado selecionador há mais de três anos, um setor da imprensa troçou com o comentário "Luis de la quem?". Muitos viam-no como um homem discreto da federação, organizado e trabalhador, mas sem o glamour que normalmente se exige para esse cargo.

A sua resposta foi contundente: campeão da Liga das Nações em 2023, campeão do Euro-2024 na Alemanha – o que lhe valeu a alcunha de "Luis da Quarta" – e vice-campeão da Liga das Nações em 2025. Espanha chega ao Mundial com a confiança de uma equipa que sabe perfeitamente quem é e como uma das grandes candidatas ao título.

Católico praticante que procura viver segundo a sua fé, De la Fuente garante que não lhe interessa ajustar contas com o passado.

"O tempo dá-te razão e tira-ta. O tempo coloca cada um no seu lugar. Eu sabia o que tinha de fazer. Não sou rancoroso e acho que todos deviam refletir sobre o que disseram ou fizeram e valorizá-lo. Não mudei nada desde então. Continuo a ser a mesma pessoa, acredita... A minha vida não mudou", afirmou: "Continuo a fazer exatamente o mesmo que fazia há três anos e meio. Vou aos mesmos sítios, aos mesmos restaurantes, às mesmas cafetarias, passeio na rua com calma a fazer exatamente o mesmo".

A maior vantagem de De la Fuente

Se outros precisavam de ser convencidos, os seus jogadores não. A maior vantagem de De la Fuente foi considerada, na altura, uma fraqueza: subiu passo a passo e trouxe consigo grande parte desta geração. Conhece a maioria dos jogadores há vários anos.

Mikel Merino esteve sob as suas ordens em duas finais europeias sub-21 consecutivas contra a Alemanha, perdendo em 2017 mas vencendo dois anos depois. Mikel Oyarzábal, Dani Olmo e Fabián Ruiz também fizeram parte desse sucesso em 2019 e depois sagraram-se campeões da Europa com a seleção principal.

O primeiro título internacional de Merino com De la Fuente chegou ainda antes, em 2015, quando jogou ao lado de Rodri e Unai Simón no triunfo da Espanha por 2-0 frente à Rússia na final do Europeu sub-19 na Grécia.

Desde esses veteranos até Pedri, Martin Zubimendi e Marc Cucurella, que participaram na campanha olímpica da prata em Tóquio, De la Fuente conta com um grupo que muitas vezes parece compreendê-lo antes de terminar a frase.

"A nossa relação vai além do puramente profissional", garantiu: "Com o Rodri em particular, conhecemo-nos há mais de 10 anos; desde 2015 passámos por muito juntos. Por isso, tenho a certeza de que na sua vida, e na de muitos dos jogadores que estão hoje comigo, não houve nenhum treinador que lhes tenha transmitido as coisas como eu o fiz. Garanto."

Para De la Fuente, essa proximidade não é apenas sentimental, mas também lhes dá alguma vantagem. "Sabem que o que lhes digo nasce da honestidade, da integridade e sempre a pensar no seu bem, porque me conhecem", acrescentou: "Quando alguém fala a partir da confiança, dessa convicção, sabendo que vai chegar, tocar o coração e convencer, acho que já ganhámos muito. Depois, em campo, coloca todo o teu talento ao serviço dessa ideia. E ao serviço dos teus colegas: esse é o teu trabalho."

O seu trabalho será superar primeiro os estreantes Cabo Verde, e depois Arábia Saudita e Uruguai no Grupo H, na tentativa de conquistar o segundo título mundial para o país após o triunfo da Espanha em 2010.