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“Para mim, (a seleção de) 1974 era melhor, mas as condições também não são iguais. Nesse tempo, os jogadores não ficaram contentes, pois havia problemas de dinheiro e nunca tinham boas condições para competir. Esta equipa tem quase tudo em termos financeiros, mas talvez nunca tenhamos uma seleção congolesa como a de 1974”, avaliou à agência Lusa o antigo médio, de 59 anos, que se destacou pelo Vitória SC, entre 1986 e 1996, e acumulou 16 internacionalizações e dois golos pelos leopardos.
A República Democrática do Congo volta ao principal torneio internacional de seleções 52 anos depois da única presença como Zaire, que se tornou a terceira nação africana, e a primeira da África Subsaariana, em fases finais.
Na então Alemanha Ocidental (RFA), os leopardos foram eliminados logo na primeira fase de grupos, com derrotas na poule 2 perante a Escócia (2-0), a já dissolvida Jugoslávia (9-0) e o Brasil (3-0), recordista de títulos de campeão do mundo, com cinco, e único totalista de participações, com 23.
Esse desempenho levou mesmo o regime ditatorial de Mobutu Sese Seko a ameaçar que os futebolistas seriam impedidos de regressar a casa e as suas famílias poderiam sofrer represálias, caso os campeões africanos em 1968 e 1974 perdessem por mais de três golos na despedida com o Brasil.
No último quarto de hora, quando a canarinha ganhava por 2-0 e Roberto Rivellino dispunha de um livre frontal à entrada da área do Zaire, o defesa central Mwepu Ilunga saiu da barreira e chutou a bola para longe, numa tentativa de gastar tempo, que lhe valeu cartão amarelo e aconteceu pouco antes do terceiro golo da partida, eternizando-se na história dos Mundiais.

De regresso ao Zaire, os jogadores não auferiram prémios de participação e foram proibidos de sair do país - só um representaria clubes europeus -, enquanto Mobutu Sese Seko cortou o financiamento à seleção e deixou de utilizá-la ativamente como ferramenta política para promover o seu regime.
“Em 1974, a organização não era quase nada, mas hoje a preparação é de um nível muito alto e eles estão prontos para qualquer coisa. Isso teria feito a diferença. Sempre tivemos boas equipas para ir aos Mundiais, mas não houve sorte e a mudança na forma como se convoca ajudou muito”, disse N’Dinga, que chegou aos quartos de final da Taça das Nações Africanas (CAN) em 1992, 1994 e 1996 pelo Zaire, designação em vigor até 1997.
Volvido mais de meio século, a República Democrática do Congo tem 24 dos 26 convocados para o Mundial-2026 a atuar na Europa e 20 nascidos no estrangeiro - 11 em França, cinco na Bélgica, país do qual os africanos se tornaram independentes em 1960, dois em Inglaterra e dois na Suíça.
“Há muitos jovens a alinhar na Europa e talvez possamos ser mais fortes. Eles tiveram a oportunidade de levantar a seleção. O trabalho é feito mais a partir de fora, mas o país tem de evoluir com outra força para voltar a ser o que foi no futebol. Está atrás e perdeu muito”, reconheceu recordista de partidas ao serviço do Vitória SC no escalão principal luso (285).
Depois de terminar o Grupo B da primeira fase de qualificação africana a dois pontos do Senegal, a equipa treinada pelo francês Sébastien Desabre rumou ao play-off como um dos quatro melhores segundos classificados e precisou de três duelos adicionais para aceder ao Campeonato do Mundo.
Os leopardos afastaram Camarões (1-0) e Nigéria (4-3 nos penáltis, após 1-1 nos 120 minutos) na repescagem africana, em novembro de 2025, em Rabat, em Marrocos, seguindo-se um triunfo no prolongamento sobre a Jamaica na final do primeiro caminho do play-off intercontinental (1-0), em março, em Zapopan, no México, no ocaso de um percurso com 13 partidas.

“Nem imagina (as celebrações). Os congoleses são mesmo malucos pela bola. Foi uma festa grande e um alívio para uma população com problemas económicos. Deu-lhes muita alegria”, pontuou N’Dinga, convicto do baixo risco de contágio por Ébola no Mundial-2026, apesar de a epidemia se ter propagado a partir do quarto país mais populoso de África, e segundo em área, onde vivem mais de 110 milhões de habitantes e houve 139 mortes.
A comitiva da República Democrática do Congo teve de cumprir isolamento durante, pelo menos, 21 dias no estágio realizado na Europa antes de ser autorizada a entrar nos Estados Unidos na quinta-feira, a seis dias do jogo de estreia diante de Portugal, detentor da Liga das Nações, em Houston.
Cerca de 10.000 pessoas da diáspora congolesa residem na cidade mais populosa do Texas, mas não estão sujeitas às restrições sanitárias impostas pelo vírus do Ébola, que dificulta viagens internacionais a partir de Kinshasa, em função da inexistência de vacina ou tratamento aprovado.
“Só uma parte do país é que tem Ébola. Há pessoas a morrer, mas é num pequeno espaço (nas províncias) do Kivu. Muita gente de lá com quem falo nem sabe e ouve (as notícias) como nós”, partilhou N’Dinga, a viver em Toronto, uma das duas cidades-sede do coanfitrião Canadá no Campeonato do Mundo.
Mundial-2026
O Campeonato do Mundo de 2026 tem lugar de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México. O torneio conta com 48 seleções nacionais e é disputado em 16 estádios modernos.
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