Mundial-2026: Portugal caiu duas vezes nas meias e bateu no fundo outras tantas

Cristiano Ronaldo no Mundial-2014
Cristiano Ronaldo no Mundial-2014GABRIEL BOUYS / AFP

Portugal só esteve duas vezes perto da glória em Mundiais, mas também bateu bem fundo em outras tantas ocasiões, em oito escassas presenças que, no seu todo, não fazem jus a tantas promessas, a tanto talento.

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As meias de 1966 e de 2006 são como que anuladas pelas poucas vergonhas de 1986 e 2002 e, de resto, sobram uma eliminação nos quartos, em 2022, duas nos oitavos, em 2010 e 2018, e mais uma na fase de grupos, em 2014, além de 14 ausências.

Para um país que produziu três Bolas de Ouro, casos de Eusébio, Luís Figo e Cristiano Ronaldo, mais uma série incontável de craques, de Fernando Peyroteo a Vitinha, passando por Fernando Chalana, Paulo Futre, Rui Costa, João Vieira Pinto, Bruno Fernandes ou Bernardo Silva, o registo é curto.

Na competição que consagrou, entre muitos outros, Pelé, Maradona e Messi, Portugal só brilhou a espaços, nunca cumprindo o seu destino, antes pela falta de competência fora das quatro linhas, ao nível organizativo, e agora pela incapacidade dentro delas, de jogadores e treinadores.

Omnipresente em grandes competições no século XXI, Portugal conquistou um Europeu, em 2016 - que não mereceu, de todo, nessa edição, mas fez justiça a todo o seu percurso na história da prova -, mas, em Mundiais, nem uma final, que 10 seleções europeias já alcançaram, metade das quais para vencer o troféu.

A seleção das quinas até teve uma estreia brilhante, em 1966, graças sobretudo ao rei Eusébio, que conduziu a equipa ao terceiro lugar, mas, depois disso, só se destacou mais uma vez, 40 anos depois, em 2006, ao voltar às meias, para acabar em quarto, liderada por Figo, o sobrevivente da geração de ouro, os campeões mundiais de juniores de 1989 e 1991.

Pelo meio, Portugal corou de vergonha com as participações de 1986 e 2002, a segunda e a terceira, pautadas por confusões internas, fora do campo, e casos graves de indisciplina, que penalizaram fortemente duas gerações de enormes talentos, que caíram logo na fase de grupos.

De resto, e apesar de estar agora sempre presente – cumpre em 2026 a sétima consecutiva, depois de apenas duas nas primeiras 16 edições -, a seleção lusa, que não falha uma fase final desde o Mundial de 1998, tem deixado sempre a desejar.

Nas quatro últimas participações, Portugal até teve ao leme Cristiano Ronaldo, a segunda maior figura das duas últimas décadas do futebol, na sombra de Lionel Messi, mas o 7 nunca conseguiu ser o 13 de 1966 e o resultado foram uma queda nos quartos, duas nos oitavos e uma eliminação na fase de grupos.

Em termos globais, a seleção lusa conta um terceiro lugar, um quarto, uma eliminação nos quartos de final, duas nos oitavos de final e três na fase de grupos, para um total de 17 vitórias, seis empates e 12 derrotas, com 61 golos marcados e 41 sofridos.

Em termos individuais, o nome de Portugal nos Mundiais confunde-se com o do rei Eusébio, o único que, até agora, conseguiu entrar na ‘lenda’ da prova: só precisou de uma fase final, que acabou como melhor marcador.

Com o 13 nas costas, o Pantera Negra apontou um golo à Bulgária e dois ao Brasil, de Pelé, na fase de grupos, quatro à Coreia do Norte, para virar o jogo de 0-3 para 4-3, nos quartos, um à Inglaterra, nas meias-finais, e um à União Soviética, no jogo que valeu aos Magriços o último lugar do pódio. Um rei.

Em Inglaterra, na primeira presença em Mundiais, o onze de Manuel da Luz Afonso começou imparável, ao bater sucessivamente Hungria (3-1), Bulgária (3-0) e o bicampeão mundial em título Brasil (3-1), o que lhe valeu a vitória no Grupo 3.

Nos quartos de final, o sonho parecia terminado ao fim de 25 minutos, com a Coreia do Norte a vencer por 3-0, mas Eusébio tinha outras ideias e respondeu com quatro golos, dois de penálti, antes de José Augusto rematar a incrível reviravolta (5-3).

Depois, e num jogo que os ingleses trocaram, à última hora, de Liverpool para Wembley, Eusébio voltou a marcar, mas um bis de Bobby Charlton deixou o rei em lágrimas. Ainda recuperou o ânimo e contribuiu com novo tento para o 2-1 à União Soviética, no jogo de consolação, decidido por José Torres.

Após estreia tão prometedora, Portugal só voltou ao Mundial 20 anos depois, e o melhor teria sido ficar em casa, algo que também se aplica à terceira participação.

Em 1986, Carlos Manuel logrou o milagre da qualificação em Estugarda (1-0) e abriu a fase final com novo golo marcante (1-0 à Inglaterra), mas tudo o resto foi muito triste, traduzindo-se no caso Saltillo, um confronto entre jogadores e Federação Portuguesa de Futebol (FPF) devido a insanáveis divergências de todo o âmbito.

Desportivamente, o onze de José Torres, também azarado devido à lesão sofrida pelo guarda-redes Bento, perdeu, depois, com a Polónia (0-1) e foi humilhado por Marrocos (1-3), acabando no quarto posto do Grupo F, que qualificou os três primeiros.

Em 2002, e após uma sensacional fase de qualificação, em que eliminou os Países Baixos, a seleção lusa, com Figo, então o melhor do mundo, limitado fisicamente, começou de forma desastrosa (2-3 com os Estados Unidos) e pagou caro o facilitismo.

O onze de António Oliveira, com a base da geração de ouro, ainda goleou a Polónia (4-0, com três de Pauleta), mas caiu perante a anfitriã Coreia do Sul (0-1), num jogo em que Beto e João Vieira Pinto acabaram expulsos. E o avançado ainda atacou o árbitro, sofrendo uma pesada sanção, para não mais envergar a camisola das quinas.

Foi, assim, preciso esperar até 2006 para ver Portugal voltar a brilhar num Mundial: na Alemanha, a equipa do brasileiro Luiz Felipe Scolari não teve tanto encanto, mas foi capaz de vencer duas batalhas épicas, para a história.

A fase inicial foi um passeio, com as primeiras duas vitórias, sobre Angola (1-0) e Irão (2-0), a garantir desde logo um prematuro apuramento para os oitavos e uma terceira, com poupanças, face ao México (2-1), a selar o triunfo no Grupo D.

O grupo de Portugal no Mundial-2026
O grupo de Portugal no Mundial-2026Flashscore

O Mundial começou, verdadeiramente, na denominada batalha de Nuremberga, frente aos Países Baixos, um jogo com 16 cartões amarelos e quatro vermelhos, que Maniche resolveu (1-0), com Portugal muito tempo em inferioridade numérica (10 contra 11 e nove contra 10) e quase sempre sem bola (38%, contra 62%).

As grandes emoções prosseguiram nos quartos, com Portugal a desperdiçar quase uma hora em vantagem numérica (expulsão de Wayne Rooney), mas a acabar por vencer a Inglaterra na lotaria das grandes penalidades, com Ricardo (três defesas) como herói, a exemplo do Euro-2004, e Cristiano Ronaldo a selar o apuramento.

A equipa lusa estava entre os quatro melhores do mundo - todas europeias -, mas caiu nas meias, perante a França, como nos Europeus de 1984 e 2000, vergada a uma grande penalidade de Zinedine Zidane (0-1) e, já sem alma, deixou o ‘bronze’ para uns anfitriões bem mais fortes (1-3).

Quatro anos depois, na África do Sul, o onze de Carlos Queiroz só sofreu um golo, mas também só conseguiu marcar à Coreia do Norte, brindada com uma goleada histórica (7-0), tendo somado nulos com Costa do Marfim e Brasil, no Grupo G.

Apurado no segundo posto, atrás dos canarinhos, Portugal teve pela frente a Espanha e foi eliminado com um desaire por 1-0, por um tento de David Villa. Os espanhóis viriam a conquistar o seu primeiro título.

Quatro anos depois, em 2014, no Brasil, Portugal fez bem pior, pois, como em 1986 e 2002, não conseguiu, sequer, ultrapassar a fase de grupos, numa participação que começou a ficar comprometida logo a abrir, com um pesado 0-4 com a Alemanha.

No jogo seguinte, Portugal esteve quase a ficar pelo caminho, num duelo com os Estados Unidos que acabou por empatar (2-2) sobre o final, com um tento de Silvestre Varela. Ficou, porém, a ser preciso golear o Gana, o que esteve longe de acontecer (2-1).

Em 2018, na Rússia, Cristiano Ronaldo, no seu quarto Mundial, começou em grande, com um hat-trick à Espanha (3-3), incluindo um livre direto aos 88 minutos, e, depois, com novo golo face a Marrocos (1-0), mas, entretanto, desapareceu.

Portugal fechou o Grupo B no segundo lugar, ao deixar-se empatar nos descontos pelo Irão (1-1), e, no primeiro encontro a eliminar, caiu por 2-1 perante o Uruguai, vencedor graças a um bis de Edinson Cavani.

Quatro anos volvidos, no Catar, Portugal selou um prematuro apuramento com triunfos face a Gana (3-2) e Uruguai (1-2), antes de tombar diante da Coreia do Sul (1-2), de Paulo Bento, num jogo em que Ronaldo entrou em confronto com Fernando Santos.

Com Gonçalo Ramos no onze, em vez de Ronaldo, relegado para o banco, Portugal goleou a Suíça por 6-1, com hat-trick do novo avançado, mas, nos quartos, caiu perante o pragmatismo de Marrocos (0-1), que já havia afastado a Espanha.