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Enquanto Lionel Messi oferecia um hat-trick à Argentina na sua estreia no torneio, Cristiano Ronaldo somava três remates sem acertar na baliza frente à RD Congo. O contraste não podia ser mais cruel para o número 7 português, que disputava esta quarta-feira à noite em Houston o jogo mais simbólico da sua carreira: a estreia no seu sexto Mundial. Aos 41 anos, aquele que ainda sonha levantar o único troféu que lhe falta apresentou-se irreconhecível, apagado, desligado do jogo coletivo.
Criticar Ronaldo é um exercício proibido
João Neves foi o primeiro a sentir as consequências. Autor do golo português e um dos poucos a sair de cabeça erguida, respondeu na zona mista a uma pergunta sobre o papel de Ronaldo neste grupo: "Sabemos o que o Cristiano fez pela nossa seleção e pelo futebol. Mas neste momento, sinto que tanto da parte dele como da nossa, ele é um dos nossos, é mais um jogador para ajudar a equipa, não é diferente dos outros. Está aqui para contribuir, como todos." Estas palavras, ainda que ponderadas, desencadearam uma onda de ódio nas redes sociais. A sua companheira também foi alvo de ataques. Portugal descobre-se dividido entre dois campos.

Francisco Conceição, presente na conferência de imprensa na véspera do jogo com o Uzbequistão, não se esquivou. "Não é obrigatório passar-lhe a bola. Passo a bola a quem, na minha opinião, está melhor colocado e desmarcado", afirmou, acrescentando que Ronaldo é visto como "mais um jogador da seleção". E acrescentou: "O Cristiano é um exemplo pela carreira e pela vontade que continua a demonstrar aos 41 anos. Um exemplo de liderança e pelos golos que marca. Não há ninguém como ele quando se trata de marcar golos." Também ele foi imediatamente alvo de insultos.
Rúben Dias tentou apaziguar: "Estou completamente indiferente a todas as questões que rodeiam este tema, a todas as especulações que se fazem à volta dele, porque para mim e para todos nós, nem sequer é tema. Estamos todos juntos, à procura de um sonho, e é nas dificuldades que veremos do que realmente somos feitos." Um discurso conciliador que nada revela sobre as verdadeiras tensões que existem no balneário.
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A questão desportiva mantém-se. Ronaldo soma dez jogos consecutivos sem marcar em grandes competições. O seu último golo de bola corrida num grande torneio foi no Euro 2020, frente à França em junho de 2021, ou seja, quase cinco anos antes do jogo com o Uzbequistão. Motivo suficiente para questionar se faz sentido vê-lo continuar a ser titular nesta Mundial-2026, quando o Portugal dispõe de uma geração dourada que pode legitimamente sonhar com um título na América.

Gonçalo Ramos é a solução natural
O nome impõe-se de imediato. Em 2022, Fernando Santos teve a coragem de o lançar como titular em detrimento de Ronaldo nos oitavos de final frente à Suíça. Ramos respondeu com um hat-trick e uma assistência numa vitória por 6-1. Desde então, é oficialmente o sucessor designado, em teoria. Roberto Martinez recolocou Ronaldo no centro do sistema, relegando o avançado do PSG para um papel de suplente de luxo. Em três épocas em Paris, Ramos marcou 14 golos em 2023/24, 19 em 2024/25 e 12 na última temporada. Esta época, foi titular apenas em 15 dos 44 jogos disputados, o que relativiza os números sem pôr em causa o seu potencial. Avançado nato, móvel, capaz de jogar de costas para a baliza ou em profundidade, preenche todos os requisitos do nove moderno, quase no oposto do que poderá ser o Ronaldo de 2026.

João Félix, o talento à espera da sua vez
Segundo a imprensa portuguesa, quase ninguém percebeu porque razão João Félix não foi titular frente à RD Congo, depois de ter impressionado nos jogos de preparação. O antigo prodígio do Benfica e do Atlético de Madrid, agora em destaque no Al-Nassr, representa uma opção diferente: mais técnico, mais combinativo, capaz de atuar como falso nove ou no apoio ao ponta de lança. Ricardo Quaresma, ícone da seleção, dirigiu-lhe mesmo um apelo público na televisão após o jogo: "Félix, és um bom avançado. Tens de pedir ao treinador para te dar mais tempo de jogo. Tem de mudar, senão não conseguiremos nada."
Rafael Leão e Francisco Conceição, os extremos que fazem a diferença
Não são verdadeiros números nove, mas no sistema de Roberto Martinez, são os elementos mais desequilibradores. Rafael Leão, extremo do AC Milan, e Francisco Conceição, revelação da época na Juventus, mostraram frente à RD Congo que conseguem desbloquear as situações mais fechadas, onde Ronaldo esbarrava num muro. Num sistema ajustado com um nove a explorar a profundidade, um ou outro pode libertar-se de tarefas defensivas e ter ainda mais impacto nas defesas adversárias.
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A decisão cabe a Martinez e é aí que tudo se complica
Se Martinez continua a apostar em Ronaldo, é também porque Portugal carece de avançados-centro experientes na seleção, sendo Ramos o único outro nove puro do plantel. Para lá das polémicas e das sondagens, Cristiano Ronaldo tem o passado a seu favor e é uma lenda inquestionável. Gonçalo Ramos é o mais legítimo, Félix o mais criativo, mas nenhum deles tem ainda "peso" suficiente para reclamar abertamente o lugar de Ronaldo, que está cada vez mais em risco.
É, aliás, revelador que a exibição mais convincente de Portugal nas qualificações tenha sido a vitória por 9-1 frente à Arménia, com Ramos na frente, num jogo em que Ronaldo esteve ausente por suspensão. A transição entre os dois números 9 deveria ter começado após o Mundial-2022. Fernando Santos esboçou-a frente à Suíça, antes de Ronaldo lhe guardar ressentimento durante um ano, ao ponto de conseguir a sua saída. Quatro anos depois, Portugal volta a colocar exatamente a mesma questão, com o acréscimo da sombra de um Mundial que pode muito bem ser a última oportunidade de toda uma geração.
Mundial-2026
O Campeonato do Mundo de 2026 tem lugar de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México. O torneio conta com 48 seleções nacionais e é disputado em 16 estádios modernos.
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