Mundial-2026: Xhaka, o líder absoluto da Suíça

Granit Xhaka em destaque na seleção da Suíça
Granit Xhaka em destaque na seleção da SuíçaReuters

Na terça-feira, às 21:00, no BC Place, em Vancouver, Granit Xhaka vai disputar os oitavos de final do Mundial frente à Colômbia, novamente com a braçadeira de capitão e a responsabilidade de assumir o papel de metrónomo da equipa. Aos 33 anos, o líder da Nati nunca pareceu tão indispensável nem tão dominante do ponto de vista estatístico.

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O número fala por si. Com 63 passes a quebrar linhas adversárias, Granit Xhaka partilha o primeiro lugar do ranking dos médios mais prolíficos do torneio neste aspeto, em igualdade com o espanhol Rodri. Um dado que resume, melhor do que qualquer discurso, aquilo que ele traz ao jogo suíço: a capacidade de ultrapassar uma linha de pressão com um só passe, de abrir o jogo para Ndoye, Vargas ou Manzambi no momento em que o adversário menos espera.

Este registo técnico vem agora acompanhado de um recorde que entrou para a história do futebol helvético. Ao ultrapassar a marca das 150 internacionalizações na vitória por 2-0 frente à Argélia nos 16 avos de final, Xhaka tornou-se o jogador mais internacional da seleção suíça, superando a referência Shaqiri. Pode ainda aumentar a diferença na terça-feira à noite, ao mesmo tempo que, com Ricardo Rodriguez, persegue o recorde de jogos disputados em Mundiais com a camisola suíça.

De estatuto contestado a braço direito de Yakin

Nem sempre foi evidente que o médio atingisse tal estatuto. Desde a estreia pela Nati, em junho de 2011, Xhaka dividiu frequentemente adeptos e imprensa pelo seu estilo direto, por vezes provocador. Mais de quinze anos depois, continua, ainda hoje, a ser um alvo privilegiado das críticas. Após o empate frustrante frente ao Catar no jogo de abertura deste Mundial (1-1), o tabloide Blick chegou a falar num clima tóxico instaurado pelo capitão no seio do grupo. O médio reconheceu que este tipo de artigos era também "um pouco provocado da minha parte". Ainda assim, considerou que se pode simplesmente "sentir orgulho" por um jogador que disputou tantos "jogos com esta camisola, por este país".

A resposta, como tantas vezes nele, foi dada dentro de campo. Na vitória por 4-1 frente à Bósnia-Herzegovina, celebrou o seu golo com um gesto provocador dirigido aos críticos. Depois, frente à Argélia nos dezasseis avos de final, tornou-se o primeiro jogador suíço a ultrapassar a marca das 150 internacionalizações, sob aplausos de todo o estádio. Para Xhaka, é um "privilégio" ter representado tantas vezes o país "onde cresci, onde nasci, que tanto deu a mim e à minha família".

Granit Xhaka celebra frente à Bósnia
Granit Xhaka celebra frente à BósniaREUTERS

Viver com a crítica continua, segundo o próprio, a ser uma prova que nunca o deixa totalmente indiferente. Xhaka admitiu que lidar constantemente com as críticas "nem sempre é fácil". "Mentiria se dissesse que entra por um ouvido e sai pelo outro. Dói, porque há coisas que não compreendo", confessou. Supôs que talvez precise "um pouco disso, dessas provocações, dessas opiniões exteriores", antes de concluir sublinhando que o mais importante é "que a equipa está do meu lado, que o treinador está do meu lado".

Murat Yakin já não esconde. O selecionador fez de Xhaka o seu interlocutor mais importante, aquele com quem pode abordar tudo, mesmo os temas mais desconfortáveis, num diálogo que considera sempre produtivo e construtivo. Após o empate frustrante frente à Austrália na preparação para o Mundial, onde Xhaka não poupou palavras sobre o nível de compromisso da sua equipa, o selecionador fez questão de defender e descrever o seu número 6: "Não foi fácil para o Granit. Ele é o capitão e assume as suas responsabilidades; foi o maestro em campo, exatamente como o conhecemos. É claro que houve uma avalanche de críticas após esse empate, mas é isso que torna ainda mais bonito e importante o facto de depois ter conduzido a equipa à vitória."

Uma forma, para Yakin, de lembrar que a função de Xhaka vai muito além de um simples médio recuperador: é o maestro, aquele que absorve a pressão e a transforma em resultados. O técnico resumiu, um pouco antes no torneio, o que representa o seu capitão com uma frase igualmente expressiva: "Nunca nos aborrecemos com o Granit: ele procura a perfeição e quer ganhar todos os jogos." Esta relação de confiança total refletiu-se em campo nos três primeiros jogos da fase de grupos, todos sem derrotas, e depois na eliminação da Argélia, onde Xhaka elogiou a maturidade coletiva da equipa e a solidez defensiva reencontrada após três jogos marcados por um golo sofrido em cada um.

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Acompanhe o relato em direto na app ou no siteFlashscore

Um quarto Mundial abordado com serenidade

Ainda antes do início do torneio, Xhaka concedeu uma entrevista à FIFA na qual falava, com a lucidez que o caracteriza, sobre o que representa para si esta quarta participação consecutiva num Mundial, depois do Brasil 2014, da Rússia 2018 e do Catar 2022. "Tive a sorte e o privilégio de jogar ao lado de futebolistas excecionais", confessou, acrescentando: "Representei um país que conseguiu muitas coisas no panorama internacional, nos últimos anos. Nem todos têm a oportunidade de se qualificar sempre para o Mundial."

O médio também recordou as suas memórias americanas de há dez anos, quando disputou os primeiros jogos com a camisola do Arsenal em São Francisco e Los Angeles, duas cidades que a Nati reencontrou precisamente neste Mundial. "Lembro-me muito bem. Foi uma experiência muito positiva para mim. A reputação de uma cidade como Los Angeles fala por si. Aqui, as pessoas são abertas, honestas e muito diretas", contou, divertido com este ciclo geográfico na sua carreira.

Questionado sobre as suas ambições para este torneio, Xhaka não escondeu o seu estado de espírito. Passar a fase de grupos continua, para ele, a ser um objetivo "inquestionável" para uma seleção como a Suíça, mas recusava já limitar-se a isso. "Gosto de sonhar, e sonho em grande. Não vou dizer-vos no que penso neste momento, mas podemos sonhar, temos esse direito e sabe bem", disse, deixando propositadamente no ar o verdadeiro alcance das suas ambições.

O gráfico de Xhaka no Mundial-2026
O gráfico de Xhaka no Mundial-2026Opta by Stats Perform

Uma reserva calculada que não impede ninguém, na Suíça, de saber o que esconde esse sonho. Numa visita ao campo base da seleção, em Vancouver, o presidente da Confederação, Guy Parmelin, falou ele próprio da perspetiva de uma final do Mundial, marcada para 19 de julho no Nova Jérsia, dizendo que tal intrusão nas suas férias seria a melhor das motivações. Xhaka, divertido, não precisou desse convite para se projetar tão longe: ainda antes do início do torneio, o capitão afirmou, com a sua habitual confiança, que queria "tornar-se campeão do mundo".

Quanto a uma eventual última dança com a camisola suíça, Xhaka afastou a ideia com a sua habitual franqueza. "Para ser franco, não penso que seja o caso. Enquanto tiver vontade de ganhar, motivação e, sobretudo, saúde, continuarei em campo", garantiu, antes de concluir: "Queremos realizar o nosso sonho, concretizando algo de enorme."

Um verão marcado por uma escolha forte

O estatuto de peça-chave inamovível de Xhaka também ganhou contornos muito concretos no mercado de transferências, mesmo antes do Mundial. Cobiçado pelo Chelsea, onde Xabi Alonso queria reencontrar o antigo maestro do Bayer Leverkusen com quem conquistou uma dobradinha Bundesliga-Taça da Alemanha invicta em 2024, Xhaka fez a escolha oposta à que se esperava. O Sunderland, sétimo classificado da Premier League e apurado para a Liga Europa pela primeira vez em cinquenta e três anos, rejeitou categoricamente as ofertas londrinas, consideradas demasiado baixas face ao papel do suíço nesta época de sucesso do recém-promovido. O jogador, por seu lado, optou por manter-se fiel ao projeto dos Black Cats em vez de reencontrar Alonso em Stamford Bridge, motivado pela ambição do clube e pela perspetiva de o conduzir ele próprio à Europa.

Durante todo o período de rumores, Xhaka manteve-se em silêncio sobre o tema, focado no Mundial, antes de confirmar o seu futuro no Sunderland assim que a qualificação para os oitavos de final foi garantida com a Suíça.

Um último obstáculo sul-americano

Frente à Colômbia, invicta desde o início do torneio e impulsionada por Luis Díaz, Xhaka deverá voltar a atuar ao lado de Remo Freuler para fechar o meio-campo, tal como nos jogos anteriores. Comentador da RTS, o antigo internacional suíço Raoul Savoy resumiu o desafio tático do jogo sem rodeios: para vencer a Nati, "é preciso cortar o raio de ação do Granit Xhaka e fechar as alas, impedindo que os Vargas, Ndoye ou até Manzambi se lancem por ali e ganhem velocidade."

Questionado após a qualificação frente à Argélia sobre uma eventual preferência entre o Gana e a Colômbia, Xhaka afastou a questão com uma frase muito sua: "O futebol não é um juke-box onde podes escolher! Se queremos ir longe neste Mundial, temos de ser capazes de vencer qualquer adversário." Uma forma de lembrar que a Suíça, agora, já não teme ninguém, nem sequer uma Colômbia entusiasmante mas que terá de lidar com um capitão suíço em estado de graça.

Resta que Xhaka prefere falar do presente em vez de estatísticas ou símbolos. "Não sou alguém que se interessa muito por estatísticas. Vamos avançando jogo a jogo", disse após a vitória frente à Argélia, antes de referir a palavra que, para si, melhor resumia a exibição da equipa nessa noite: "maturidade". Uma maturidade que será novamente necessária na terça-feira à noite em Vancouver, com o sonho do título mundial sempre no horizonte.

Mundial-2026

O Campeonato do Mundo de 2026 tem lugar de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México. O torneio conta com 48 seleções nacionais e é disputado em 16 estádios modernos.

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