As seleções nacionais representam muito mais do que um conjunto dos melhores jogadores de um país. As grandes seleções da história distinguem-se por apresentarem uma identidade de jogo reconhecível, independentemente da geração de atletas ou do treinador que ocupa o cargo, não querendo com isto desvalorizar o papel do treinador ou jogadores, o melhor treinador com os melhores jogadores ganha mais vezes. A identidade não surge por acaso nem pode ser construída apenas durante os poucos dias de estágio antes das competições. É o resultado de um projeto nacional onde deve envolver a federação, os clubes e toda a estrutura do futebol de formação.
A identidade de uma seleção é uma filosofia comum que define a forma como todas as equipas nacionais, desde os escalões jovens até à seleção principal, pretendem jogar. Não significa que todas utilizem o mesmo sistema tático, mas que partilhem os mesmos princípios de jogo, a mesma linguagem futebolística e a mesma cultura competitiva. Quando um jovem jogador passa por todas as fases de desenvolvimento e chega à seleção principal, não deveria aprender um futebol completamente diferente. Pelo contrário, deveria encontrar ideias semelhantes, apenas adaptadas ao seu nível competitivo.
O papel da entidade responsável, é definir: o perfil do jogador que pretende formar; os princípios orientadores de jogo; a metodologia de treino; a linguagem comum utilizada; os critérios de observação e recrutamento; a formação orientada e contínua dos treinadores. Sem uma liderança forte dificilmente existirá uma identidade nacional consistente.
Para se adquirir uma identidade nacional, os jogadores devem crescer dentro da mesma filosofia.
Na formação, mais importante do que ganhar campeonatos é desenvolver jogadores capazes de compreender o jogo, os nossos jovens devem aprender: a interpretar os diferentes momentos de jogo, a tomar decisões sob pressão, ocupar racionalmente os espaços, a perceber quando acelerar e quando controlar, a pressionar colectivamente, jogar em função dos colegas, etc.
A prioridade deve ser formar jogadores inteligentes e não apenas atletas fisicamente superiores.
Para se construir uma identidade nacional, é importante traçar um perfil do jogador nacional. Perante isto devemos refletir sobre o tipo de jogador que se pretende formar, sabendo que não existe um modelo universal, é importante respeitar a cultura do país, as características dos seus jogadores, a tradição futebolística, a evolução do futebol moderno, etc. Esta identidade não deve copiar outros países, mas adaptar-se à realidade nacional.
Construir a identidade de uma seleção nacional é um dos maiores desafios estratégicos de uma federação. Não depende apenas do talento dos jogadores nem da qualidade do selecionador principal. É um processo coletivo que começa na formação, envolve os clubes, exige uma metodologia comum e necessita de estabilidade.
Quando existe uma filosofia nacional clara, cada geração chega à seleção principal preparada para jogar segundo os mesmos princípios. Dessa forma, a seleção deixa de depender exclusivamente de uma geração excecional e passa a produzir, de forma consistente, equipas competitivas e reconhecidas pela sua forma de jogar.
No futebol moderno, a verdadeira identidade de uma seleção constrói-se muito antes de um Campeonato da Europa ou de um Campeonato do Mundo. Constrói-se diariamente nos campos de treino, nas academias, na formação dos treinadores e na visão estratégica da federação. É essa continuidade que transforma um conjunto de jogadores numa verdadeira escola de futebol.

