Recorde as incidências da partida
Um empate 0-0 frente a uma seleção do Gana que está 60 lugares abaixo no ranking. Nenhum remate enquadrado de qualquer das equipas até à hora de jogo. Jude Bellingham a cumprir a sua 50.ª internacionalização por Inglaterra, tornando-se o jogador mais jovem de sempre a atingir esse marco pelo seu país, e a passar grande parte do jogo com ar de quem queria descarregar a frustração numa parede.
E depois, já nos instantes finais, Kane apareceu a oito metros da baliza após um ressalto de cabeça de O'Reilly, com a baliza escancarada, e conseguiu atirar por cima.
Quatro pontos em dois jogos. Ainda no topo do Grupo L. Panamá pela frente. Matematicamente, tudo bem. Mas estar bem não é o mesmo que estar a jogar bem.

Os números contam uma história feia
O Gana fez dois remates em 90 minutos, nenhum deles enquadrado. Isso bastou para manter a baliza inviolada, e está entre os jogos do Mundial em que Inglaterra sofreu menos remates nos últimos 60 anos de registos.
Inglaterra teve 78 por cento de posse de bola e, mesmo assim, fez quase nada com ela. Tentou 19 remates, três deles enquadrados, sendo o primeiro apenas ao minuto 57 – tornando este o primeiro jogo de todo o torneio a passar a primeira parte sem um único remate enquadrado de qualquer das equipas.
O valor de expected goals de 1,28 até parece respeitável, mas se o cruzarmos com o que se passou em campo, percebe-se que Inglaterra só criou verdadeiro perigo numa correria final, mais por desespero do que por qualquer plano à Thomas Tuchel.
Marc Guehi completou 125 passes, o maior registo de sempre de um jogador inglês num jogo do Mundial. Isoladamente, é um dado impressionante, mas também revelador: mostra exatamente como Inglaterra circulava a bola – para trás e para os lados, através do central, em vez de procurar soluções com intenção. Dominar a posse sem criar perigo não é controlar o jogo; é procrastinação, e infelizmente já é um velho hábito.
O mesmo velho segundo jogo
Inglaterra empatou o segundo jogo do grupo com a Escócia no Euro-2020, com os EUA no Mundial-2022, e com a Dinamarca no Euro-2024. Agora, podemos juntar o Gana a essa lista: quatro torneios consecutivos, quatro empates consecutivos no segundo jogo.
Os mais otimistas lembrarão que Inglaterra chegou a duas finais europeias seguidas depois de exibições igualmente cinzentas no segundo jogo. Mas há diferença entre ter dificuldades contra um adversário realmente competitivo e ser tão inofensivo contra uma equipa que só rematou duas vezes em todo o jogo.
O Gana não veio para surpreender, embora por vezes até parecesse que podia. Em vez disso, apresentou-se bem organizado e determinado a não perder. Durante mais de 80 minutos, Inglaterra não encontrou resposta para isso.
Este empate acrescenta ainda mais um registo indesejado: Inglaterra soma agora 13 empates sem golos em Mundiais, mais do que qualquer outra seleção na história da competição. Brasil está em segundo, a quatro de distância, mas com muito mais presenças no torneio e estrelas ao peito.
Kane apagado
O falhanço de Kane vai ser o destaque. Foi aquele tipo de oportunidade – cabeceamento de O'Reilly ao ferro, a bola sobra para Kane a oito metros da baliza, Saka a iniciar toda a jogada – que os avançados raramente podem culpar outro jogador. E, mesmo assim, falhou.
Mas o seu isolamento na primeira parte não foi culpa própria. Não pode inventar oportunidades do nada, e durante largos períodos a construção de Inglaterra foi tão lenta que fazer-lhe chegar a bola em zonas perigosas parecia um pormenor esquecido.

Kane terminou o jogo com 19 toques, o menor registo de sempre por Inglaterra numa grande competição em que jogou pelo menos 80 minutos.
Para contextualizar, ao intervalo tinha apenas nove toques, dois deles ganhos pelo ar, com o Gana a fechar os corredores centrais e a deixá-lo a lutar por sobras. Inglaterra, como equipa, teve apenas 14 toques na área do Gana durante os 90 minutos, por isso o problema de abastecimento era estrutural e não culpa de Kane.
Compare-se com a sua influência frente à Croácia – dois golos, sempre envolvido – e começa-se a questionar o que lhe foi pedido para fazer em Boston.
Só com a entrada dos suplentes é que Inglaterra passou a criar verdadeiro perigo. Saka, Rogers e Eze são todos mais diretos do que quem substituíram. O'Reilly ainda cabeceou à barra momentos antes do falhanço de Kane. O banco volta a parecer a arma mais eficaz de Inglaterra, o que levanta uma questão desconfortável sobre o que se passa no onze inicial.
O elefante na sala não está na sala
Tuchel deixou Palmer e Foden de fora antes do torneio, considerando que as más épocas nos clubes pesavam mais do que a sua qualidade a nível internacional. Essa decisão pareceu ousada em Dallas. Em Boston, pareceu o início de uma dúvida que só vai crescer.
O problema que Inglaterra teve frente ao Gana – desbloquear uma defesa baixa e disciplinada com inteligência e movimentação – é precisamente o tipo de obstáculo que um jogador como Palmer costuma resolver.
Contra o Panamá, Tuchel provavelmente vai passar incólume pela ausência, e espera-se que Inglaterra queira dar uma resposta forte. Contra adversários mais organizados nos oitavos, a margem para esse tipo de fé seletiva reduz-se bastante.
Manter a calma e seguir em frente
Depois da vitória apertada da Croácia por 1-0 frente ao Panamá, Inglaterra está apurada, ou praticamente. Muito provavelmente vai terminar no topo do grupo no sábado, salvo uma catástrofe. Mas Boston confirmou algo que a vitória sobre a Croácia sempre iria disfarçar: Inglaterra tem um problema real em desbloquear equipas defensivas quando o sistema não funciona.
Quando Rice não consegue encontrar espaços, quando Kane está isolado, quando os extremos são anulados por um lateral-direito de quem ninguém ouvira falar há três semanas – qual é a solução?
Thomas Tuchel teve carta branca para essa questão em Dallas. Os oitavos estão a chegar, e as equipas que lá esperam estarão melhor trabalhadas e muito menos dispostas a oferecer 78 por cento de posse em troca de dois remates que nunca ameaçaram o golo.
Um empate aborrecido a zero com o Gana pode, nessa altura, parecer apenas um pequeno percalço – ou o momento em que todos os adeptos dos Três Leões deviam ter baixado (e muito) as suas expectativas.
Mundial-2026
O Campeonato do Mundo de 2026 tem lugar de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México. O torneio conta com 48 seleções nacionais e é disputado em 16 estádios modernos.
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