Opinião: Frans Hoek sobre a eliminação "pouco neerlandesa" e quem deve substituir Koeman

Os Países Baixos foram eliminados do Mundial por Marrocos
Os Países Baixos foram eliminados do Mundial por MarrocosDaniel Becerril / Reuters

Frans Hoek um verdadeiro especialista em Mundiais, depois de ter sido treinador adjunto especializado em guarda-redes (ele prefere o termo "jogador de baliza" – "defender é evitar que a bola entre e, além disso, construir o jogo") e em lances de bola parada pelos Países Baixos nas edições de 2014 e 2022, e pela Arábia Saudita na edição de 2018. Para o torneio deste ano, analisa os jogos do seu país numa coluna exclusiva para o Flashscore.

Recorde aqui as incidências do encontro

Marrocos está provavelmente no seu melhor período de sempre. Quando estive com a seleção neerlandesa num jogo amigável contra eles em 2017, vencemos por 2-1, mas passaram-se quase 10 anos e muitas coisas mudaram. É incrível ver a rapidez com que as coisas mudam no desporto. Agora, estão no top 10 mundial, surpreenderam o mundo no último Mundial e fizeram um excelente trabalho na última Taça das Nações Africanas.

Na fase de grupos, vimos uma exibição muito boa da parte deles contra o Brasil e, embora os outros jogos tenham sido um pouco menos fortes, deixaram uma excelente impressão.

Os Países Baixos também causaram uma boa impressão na fase de grupos, mesmo que as coisas tenham ficado um pouco tremidas no primeiro jogo contra o Japão. A vitória por 5-1 sobre a Suécia foi uma surpresa muito agradável e o triunfo contra a Tunísia foi tranquilo, apesar de termos visto alguns momentos nesse jogo em que a equipa teve dificuldades e contou com alguma sorte.

Novo sistema dá controlo a Marrocos

A estrutura 5-2-3 dos Países Baixos
A estrutura 5-2-3 dos Países BaixosOpta by StatsPerform/Eloisa Sanchez/Reuters

Parcialmente devido a esses momentos, Ronald Koeman decidiu mudar de um 1-4-3-3 (incluindo o jogador de baliza), que é a imagem de marca dos Países Baixos e que tinham praticado durante todo o Mundial, para um 1-5-2-3, ou 1-3-4-3. Foi uma mudança drástica.

Como resultado, o que vimos no jogo foi exatamente o oposto do que estamos habituados a ver na seleção neerlandesa. Foi muito estranho. Marrocos jogou basicamente da forma que os neerlandeses costumam querer jogar; eles foram os Países Baixos, e os Países Baixos pareceram Marrocos de há 10 anos.

Os neerlandeses defenderam num 1-5-4-1 e foram razoavelmente compactos. Marrocos teve muito tempo a bola, mas, inicialmente, foram muito cuidadosos na forma como a faziam circular. O jogo precisava mesmo de ganhar ritmo. Quando isso aconteceu, pôde ver-se que a equipa marroquina foi muito intensa, muito física, com muita força e velocidade. Nesse sentido, foi um jogo ao mais alto nível.

Marrocos defendeu de forma muito física, sempre no limite sobre se estavam a cometer faltas ou não. Creio que o árbitro esteve excelente, porque não favoreceu nenhuma das duas equipas e permitiu seguir jogo em várias situações. Foi futebol para homens. Penso que essa foi uma das razões pelas quais os neerlandeses não conseguiram manter a posse de bola; Marrocos foi muito físico e muito agressivo, nos momentos certos.

Quando os neerlandeses tinham a bola, o ritmo era muito baixo, tal como contra o Japão, e não criaram muitas oportunidades. Não conseguiram encontrar espaço nas costas da defesa e os marroquinos recuperaram a bola muito rapidamente. Fizeram um excelente trabalho nesse aspeto.

Estatísticas da partida
Estatísticas da partidaFlashscore

Durante a primeira parte, os neerlandeses tiveram apenas duas ocasiões, enquanto os marroquinos tiveram cerca de quatro; por isso, no geral, foram mais eficazes. Foram muito agressivos, pressionaram bem, criaram perigo e os neerlandeses não tiveram resposta para aquela forma de jogar.

Marrocos tinha um plano muito claro, que executou de forma excelente.

Uma abordagem pouco neerlandesa

Na segunda parte, os neerlandeses não jogaram realmente à maneira da Laranja Mecânica. Marrocos sim. Tiveram a bola, dominaram o jogo, tentaram criar ocasiões e os Países Baixos não pressionaram muito; deixaram-nos jogar.

Marrocos tinha mais jogadores no meio-campo e, por isso, conseguia fazer circular a bola tanto na retaguarda como no centro do terreno. Quando os neerlandeses tinham a bola, por outro lado, perdiam-na muito rapidamente porque estavam a ser pressionados de forma muito, muito eficaz. Marrocos podia fazer o que quisesse com a bola e, se a perdessem, recuperavam-na rapidamente.

Foi algo verdadeiramente pouco neerlandês. Foi muito estranho para mim ver isto, porque não me recordo de ter visto algo assim antes. Normalmente, os Países Baixos têm mais posse, posse igual ou apenas um pouco menos, mas, mesmo assim - quero dizer, também jogaram desta forma por vezes, mas quando tinham a bola, conseguiam fazê-la circular, encontrar jogadores e criar oportunidades.

Senti que os Países Baixos simplesmente não jogaram o seu próprio jogo. Foi Marrocos que praticou o nosso futebol. Dominaram e fizeram o que quiseram, mesmo que não tenham criado tantas oportunidades assim.

Mas, do nada, aos 72 minutos, os neerlandeses marcaram um grande golo. Mais uma vez neste torneio, marcaram no momento certo, tal como tinha acontecido na fase de grupos. Se conseguissem controlar o jogo, passariam, mas isso não aconteceu. Voltaram a entregar a iniciativa. Os marroquinos ditaram o ritmo do jogo ainda mais.

Os Países Baixos defenderam razoavelmente, sem conceder grandes ocasiões, mas depois surgiu um grande cruzamento e um excelente cabeceamento aos 90 minutos, e de repente o jogo segue para prolongamento.

Marrocos mereceu de facto. Houve momentos em que a posse de bola era de 20% para os neerlandeses e 80% para os marroquinos, e o guarda-redes marroquino Bono quase não teve trabalho durante o jogo todo, enquanto Verbruggen teve de fazer várias defesas e foi o melhor em campo - nunca é um bom sinal se um jogador de baliza tem tanto trabalho.

No início do prolongamento, pensei que os Países Baixos iriam pressionar um pouco mais e ter mais a bola, e que os marroquinos poderiam começar a ter dificuldades físicas, mas não foi nada disso que aconteceu.

Eles tiveram uma oportunidade fantástica aos seis minutos, isolados frente a Verbruggen, mas ele fez uma defesa incrível. É o tipo de defesa que pode ganhar um jogo, o que me deu uma sensação muito boa, porque voltei a pensar que a sorte estava do nosso lado.

Marrocos tinha assumido completamente o jogo nesta fase. Na primeira parte do prolongamento, os neerlandeses tiveram apenas 18% de posse de bola, o que é um número espantoso se soubermos o que o futebol neerlandês deve ser. Via-se que apenas uma equipa estava realmente a jogar e a tentar chegar ao golo da vitória.

Se analisarmos o jogo como um todo, Marrocos teve cinco boas ocasiões e marcou uma, enquanto os neerlandeses tiveram duas, no máximo, e marcaram uma; Marrocos fez 11 remates contra seis dos Países Baixos; Bono fez uma defesa e Verbruggen cinco; Marrocos fez 800 passes e os Países Baixos 293; Marrocos teve 70% de posse de bola ao longo de todo o jogo.

Estes números são uma loucura, e isto é exatamente o oposto do que queremos nos Países Baixos.

Mais sofrimento nos penáltis

Antes do desempate por grandes penalidades, achei interessante ver que a equipa marroquina se preparou e depois foram rezar juntos. Essa pode ser uma excelente preparação para focar a equipa.

Se olharmos para os pontapés de penálti em si, foi interessante ver que os guarda-redes não tentaram influenciar os marcadores; Bono um pouco, especialmente no último penálti, mas nada de óbvio. Digo sempre que com o Tim Krul contra a Costa Rica em 2014, exagerámos, mas ele tentou mesmo intimidar os marcadores. Existem dois tipos de marcadores: os que dependem do guarda-redes e os que não dependem. O primeiro tipo espera para ver o que o guarda-redes faz antes de rematar, enquanto o segundo apenas escolhe um lado e coloca a bola lá, independentemente do guarda-redes.

Teun Koopmeiners não depende do guarda-redes, e o seu penálti — o primeiro — foi perfeito, realmente fantástico; Bono escolheu o lado certo, mas o remate teve boa velocidade e foi colocado junto ao poste. Wout Weghorst também não depende do guarda-redes e marcou, mesmo com o Bono a escolher o lado certo, porque a bola foi demasiado alta.

Justin Kluivert dependia do guarda-redes e esperou, mas, embora o Bono tenha ido para o lado errado, a bola bateu no poste. Timber esperou e Bono voltou a ir para o lado errado, mas a bola saiu ao lado. Summerville esperou, mas teve de tomar a sua própria decisão depois de o Bono não se mexer, e o seu remate foi defendido. Na baliza neerlandesa, Verbruggen escolheu o lado errado no primeiro penálti, mas a bola bateu nos ferros. Acho sempre piada que os guarda-redes festejem quando isso acontece.

O segundo penálti de Marrocos foi apenas azar para Verbruggen, e essa foi a parte decisiva do desempate. Ele defendeu, e se não tivesse pontapeado a bola para dentro com o calcanhar por acidente, os Países Baixos teriam ficado com dois golos de vantagem. Se olharmos para as estatísticas dos guarda-redes, Bono escolheu o lado certo três vezes e defendeu um penálti, enquanto Verbruggen escolheu o lado certo duas vezes e não defendeu nenhum.

Uma discussão interessante é o que os jogadores fazem quando recebem a bola e se marcam ou não. Algumas pessoas pensam que os jogadores têm mais hipóteses de falhar se conduzirem a bola até à marca ou fizerem truques em vez de apenas segurá-la, e creio que têm razão; já vi várias vezes jogadores fazerem isso e falharem.

Novo treinador deve abraçar a forma neerlandesa de jogar

Essa derrota no desempate por penáltis encerrou a campanha dos Países Baixos no Mundial e o tempo de Ronald Koeman no comando. Tenho simpatia pelo Ronald. Ele não praticou o estilo neerlandês no final, mas talvez seja porque sentiu que não tinha os jogadores adequados para o fazer. Afinal, ele foi aluno de Johan Cruyff. Trabalharam juntos durante muito tempo e eram muito próximos.

Encorajaria o sucessor de Ronald a olhar para a história. Os neerlandeses têm desenvolvido uma forma de jogar desde o início da década de 1970, um estilo construído por Rinus Michels e Cruyff, destinado a exibir a beleza do jogo e simplesmente marcar mais golos do que o adversário.

Toda a gente conhece a seleção dos Países Baixos de 1974. Chegámos à final do Mundial, não vencemos, mas o mundo inteiro ainda fala dessa equipa hoje. Essa era a visão de Michels e Cruyff: assegurar que se espanta o mundo com a forma de jogar.

Como? Controlar a bola, pressionar sempre para criar mais ocasiões do que o adversário e tornar o jogo atrativo. Claro que é preciso defender bem, mas Cruyff dizia sempre que a melhor defesa é ter a bola, porque assim o adversário não pode fazer nada. Não temos visto muito disso nos últimos tempos. Talvez seja porque não temos os jogadores certos para jogar dessa forma, mas não tenho a certeza, porque eles vêm todos, basicamente, das escolas neerlandesas, por isso sabem o que é necessário para jogar à maneira neerlandesa.

Esse estilo neerlandês pode ser visto no Manchester City. Por vezes têm de se adaptar, mas Pep Guardiola tenta sempre seguir os ensinamentos de Cruyff, o seu antigo mentor, e fá-lo de forma excelente. Mikel Arteta foi ensinado por Guardiola, e é também um bom exemplo, porque toda a gente nos Países Baixos quer ver o estilo neerlandês, mas por vezes é necessário adaptar e ser inteligente na forma como se faz.

Em 2014, o país inteiro perdeu a cabeça quando Louis (van Gaal) disse que iríamos jogar num 1-5-3-2, mas depois ele explicou e mostrou que isso não conduz automaticamente a um futebol defensivo. Estávamos apenas a construir um pouco mais de segurança na defesa devido ao tipo de jogadores que tínhamos. Precisávamos de nos adaptar para sermos tão bem-sucedidos quanto possível, o que é muito, muito importante para o estilo neerlandês de jogar.

É crucial que o próximo treinador tenha tudo isto em conta, porque o Ajax está a ter dificuldades, o Feyenoord está a ter dificuldades e até o campeão neerlandês PSV foi eliminado da Liga dos Campeões logo na primeira ronda, por isso a seleção nacional tem de ser o orgulho do país. Lendas de todo o mundo adoram o estilo neerlandês e ficam desapontadas quando não o veem.

Apostar em Guardiola

Quanto a quem deve ser esse novo treinador, penso que todos concordarão que, se for possível contratar Pep Guardiola, não há dúvida de que se deve contratá-lo. Dúvida nenhuma.

Ele pode não ser neerlandês, mas é um treinador neerlandês. Foi educado por Cruyff e Van Gaal e construiu o seu trabalho de forma incrível. O caminho dele é o estilo neerlandês, apenas com alguns dos seus próprios ingredientes, e só podemos aplaudir e admirar isso, e desejar que o tivéssemos feito nós próprios. Se for possível ter Guardiola, então não há discussão. É uma decisão óbvia.

Se não for possível, então penso que também existem treinadores neerlandeses de topo que poderiam fazer um bom trabalho. Acredito que Arne Slot, Peter Bosz e Erik ten Hag poderiam fazê-lo.

Bosz fez do PSV a equipa número um absoluta nos Países Baixos. Deu-lhes a estabilidade que gostaria que os outros grandes clubes neerlandeses tivessem e joga à maneira neerlandesa. Estou muito convencido de que ele poderia ter sucesso.

Sinto o mesmo sobre Slot e Ten Hag. Slot fez milagres no Feyenoord e no seu primeiro ano no Liverpool, mesmo que a segunda época tenha sido difícil, enquanto Ten Hag fez milagres no Ajax e conquistou troféus no Manchester United.

São todos treinadores muito interessantes e muito especiais. Mas se Pep Guardiola for uma possibilidade, é preciso contratá-lo.

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