O ex-jogador e técnico brasileiro naturalizado austríaco, Thiago de Lima, conhece bem o país, a cultura e, principalmente, o futebol que o levou a fazer da Áustria a sua casa.
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Em entrevista ao Flashscore, Thiago, que hoje é empresário, revelou que acredita que a seleção pode surpreender sob o comando de Rangnick, contando com uma equipa que mescla experiência e juventude.
Grupo J: um desafio com o atual campeão do mundo
O caminho da Áustria pela fase de grupos coloca-a logo de caras contra a atual campeã do mundo, a Argentina. Segundo Thiago de Lima: “A Áustria vai complicar a vida de muitas seleções no Mundial. É uma equipa unida”.

No formato do Mundial-2026, com 48 seleções, 32 avançam para a fase a eliminar (os primeiros e segundos de cada um dos 12 grupos além dos 8 melhores terceiros). Com grande favoritismo da Argentina, as outras três seleções devem lutar pela segunda posição do grupo. “Eu acho que a Áustria vai passar juntamente com a Argentina. Creio que a Argentina em primeiro e a Áustria em segundo", projeta.
A Áustria apurou-se para o Mundial ao liderar o grupo H na qualificação europeia com 19 pontos. Porém, a decisão do grupo ficou para a última jornada, quando empatou com a Bósnia e Herzegovina. A campanha surgiu depois de uma boa participação no Euro-2024, quando chegou aos oitavos de final e foi eliminada pela Turquia, numa partida emocionante. Depois de garantir a vaga para o Mundial, a Áustria disputou particulares contra Coreia do Sul e Gana, e venceu ambas as partidas.

Olhar de quem esteve nos relvados
Desde a sua chegada ao país em 2001, a trajetória de Thiago de Lima Silva na Áustria é guiada pela sua história no futebol. O brasileiro, que tem nacionalidade austríaca, chegou ao país para atuar como jogador. Através de um amigo, após passar pela base do Santos e do Corinthians, iniciou a sua carreira europeia como jogador. A sua primeira passagem durou menos de um ano, quando uma lesão o fez regressar ao Brasil.
Em 2002, voltou em definitivo e até hoje mora na Áustria. Depois de encerrar a sua carreira como jogador, passou a ser treinador e, atualmente, ainda trabalha com o futebol, mas como intermediador entre mercados, aproximando clubes europeus com destaque para o cenário austríaco de talentos brasileiros.
“Na altura em que cheguei aqui, foi um choque cultural muito grande. Os brasileiros são mais quentes, mais recetivos. O austríaco é um povo mais fechado, é bem parecido com o alemão, mas mais amigo", conta.
Estilo de jogo
Em relação às características futebolísticas, Thiago ressalta que, na Áustria, o futebol era um desporto que enfrentava dificuldade em competições internacionais até à compra do Salzburgo pela Red Bull. Ele acredita que essa movimentação fez com que a equipa se desenvolvesse e impulsionasse os adversários a evoluírem também. O mercado mudou e talentos como Erling Haaland e Dominik Szoboszlai tiveram passagem pelo futebol austríaco.
“A cereja no topo do bolo foi quando Ralf Rangnick, que era do Manchester United, veio ser o técnico da seleção austríaca. Ele gosta de um futebol bem agressivo, é uma mistura de tática com um físico muito forte e mentalidade incrível", elogia.
Desde que o técnico chegou, a equipa construiu um aproveitamento que dá esperança. Nas últimas 20 partidas, obteve 12 vitórias, quatro empates e quatro derrotas.

O futebol moderno de Ralf Rangnick
O termo pode não agradar muitos adeptos do futebol, mas a reunião de algumas características como alta intensidade física, organização tática com e sem a bola, e estratégias orientadas por dados, por exemplo, são alguns pontos de destaque.
Desde que assumiu o comando da Áustria em 2022, o técnico tem vindo a promover mudanças significativas na equipa. A seleção atual tem identidade, modelo de jogo definido e baseado num alto desempenho com intensidade física. Apesar de desenvolver a seleção, o começo do técnico também passou por adaptações e uma descida na Liga das Nações no seu primeiro ano no comando.
Atualmente, a seleção austríaca é reconhecida por um modelo de jogo que inclui o “gegenpressing”, também conhecido como pressão alta. A equipa costuma tentar recuperar a bola no meio-campo ofensivo, reduzindo o tempo de reação do adversário e aumentando as possibilidades de criar lances ofensivos. Tal estilo é muito positivo quando funciona, mas também pode gerar perigo se falhar, como ressalta Thiago de Lima.
“Eles são mentalmente muito fortes, mas também falham por sempre jogar para a frente. Então, também geram espaço atrás. Vai ser bem interessante de ver", pontua.
A equipa também aposta em transições rápidas e muita intensidade física. Com linhas mais próximas, a Áustria procura compactar o jogo com todos a atacar e a defender de forma coordenada, procurando uma movimentação sem bola que também possibilita a ocupação eficiente de espaços, dificultando a vida do adversário. Com uma tática bem orquestrada, o conjunto de Rangnick tem a sua assinatura e já surpreendeu equipas consideradas mais fortes.
Segundo Thiago de Lima, a Áustria, atualmente, faz frente até mesmo à seleção pentacampeã do mundo. “Eu acompanhei os dois amigáveis da seleção brasileira contra França e Croácia. E, taticamente, hoje, eu vejo a seleção da Áustria até mais preparada do que a própria seleção brasileira".
Equipa unida que mescla experiência e juventude
Um dos principais nomes da seleção austríaca, senão o principal, é David Alaba. O defesa do Real Madrid é a referência da equipa, leva a braçadeira de capitão quando está no relvado, mas tem vindo a sofrer muitas lesões desde 2023. Por este motivo, vai deixar o clube merengue ao fim do contrato em junho de 2026. Participar no Mundial pode ser um impulso para novos contratos.
Apesar do período instável devido às lesões, Alaba foi peça presente na equipa desde que Rangnick assumiu a seleção e é um nome importante no setor defensivo, tendo atuado mais pela seleção austríaca do que pelo seu clube em 2026.

Quem pode surpreender
Entre os nomes de destaque e experiência do plantel também estão Marcel Sabitzer, médio do Borussia Dortmund; Konrad Laimer, lateral do Bayern de Munique; o veterano e goleador Marko Arnautovic, avançado do Estrela Vermelha; e Michael Gregoritsch, avançado do Augsburgo e autor do golo do apuramento para o Mundial.

Mas a Áustria não vive só de experiência. Jovens talentos são fundamentais para a equipa de Rangnick. Entre eles estão Nicolas Seiwald, médio de grande destaque no RB Leipzig e Patrick Wimmer, jogador ofensivo do Wolfsburgo. Mas dois nomes destacam-se entre os jovens da seleção, pois escolheram vestir a camisola da Áustria mesmo já tendo vestido a camisola de outras seleções jovens. Paul Wanner, camisola 10 do PSV, foi formado no Bayern de Munique e já disputou jogos pelas seleções jovens da Alemanha, mas optou por defender a equipa austríaca e deve ser uma das opções de Rangnick.

Outro reforço importante para a equipa que também escolheu vestir a camisa austríaca é Carney Chukwuemeka, médio do Borussia Dortmund que pode jogar como extremo esquerdo. Formado no Aston Villa, teve passagem pelo Chelsea e, atualmente, disputa a Bundesliga. Chukwuemeka nasceu na Áustria, tem ascendência nigeriana e vestiu a camisola da Inglaterra nas seleções jovens, mas optou por representar o seu país de nascimento no Mundial.
Calendário da Áustria no Mundial-2026:
17/6 (quarta-feira)
05:00 - Áustria - Jordânia (Levi's Stadium, Santa Clara, EUA)
22/6 (segunda-feira)
18:00 - Argentina - Áustria (AT&T Stadium, Arlington, EUA)
28/6 (sábado)
03:00 - Argélia - Áustria (Arrowhead Stadium, Kansas City, EUA)
