Quem é quem no Mundial: conheça a seleção da Turquia

Turquia pode lutar pela liderança do Grupo D do Mundial-2026
Turquia pode lutar pela liderança do Grupo D do Mundial-2026ALEX NICODIM / NURPHOTO / NURPHOTO VIA AFP

A Turquia regressa a um Campeonato do Mundo após 24 anos. Na mente de toda uma geração, estão ainda presentes os feitos do esquadrão de 2002, que surpreendeu o planeta com o 3.º lugar na sua segunda participação em Mundiais. Chegou a hora de escrever a Parte III desta jornada, desta vez em solo norte-americano.

Com uma avassaladora Espanha como adversária, a Turquia terminou as Eliminatórias Europeias na 2.ª posição do Grupo E, com 13 pontos, 3 atrás da La Roja.

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Os turcos precisaram de atravessar a tensa repescagem para garantir a vaga no Mundial. Dois resultados apertados de 1-0 — sobre Roménia e Kosovo (fora) — foram suficientes para que a equipa comandada pelo técnico Vincenzo Montella carimbasse o passaporte para o Mundial-2026.

O herói da qualificação foi Kerem Aktürkoglu. O extremo ex-Benfica mostrou oportunismo para encerrar a espera histórica e quebrar a sina de uma seleção turca sempre muito técnica e perigosa, mas que vinha falhando nas Eliminatórias. Pode não ter sido o jogo mais vistoso, mas todas as deceções que cercavam a Turquia ficaram para trás com aquele único golo.

O apito final foi a confirmação de um novo tempo, liderado pela experiência de Hakan Çalhanoglu e pelo talento de jovens como Kenan Yildiz e Arda Güler. Aliado à paixão imensurável dos adeptos, a Turquia é uma seleção que merece toda a atenção na América do Norte. 

O desempenho da Turquia em Mundiais
O desempenho da Turquia em MundiaisFlashscore

Além disso, pode ser um bom presságio para a seleção brasileira. Afinal, na última e surpreendente aparição turca em Mundiais, o pentacampeonato foi celebrado. A Turquia cruzou o caminho verde-amarelo em duas oportunidades no Mundial-2002, incluindo uma apertada meia-final decidida com um golo de Ronaldo, logo no início do segundo tempo.

Para conhecer mais sobre a seleção da Turquia e a experiência de atuar no futebol local, o Flashscore conversou com o ex-defesa Edu Dracena, que defendeu as cores do Fenerbahçe, de 2006 a 2009. Foram exatamente 100 jogos pelo clube turco, com cinco golos marcados e dois títulos conquistados: a Süper Liga de 2006/07 e a Supertaça da Turquia em 2007.

Como joga a seleção da Turquia? 

A Turquia chega em plena forma, após disputar jogos decisivos entre as Eliminatórias e a repescagem europeia desde setembro de 2025. Neste intervalo, as Estrelas Crescentes entraram em campo oito vezes e sofreram apenas uma derrota.

Embora esse revés tenha sido doloroso — um 0-6 diante da Espanha —, a equipa mostrou resiliência ao embalar uma sequência de seis jogos de invencibilidade, com cinco vitórias e um empate. No caminho, os turcos ainda golearam a Bulgária por 1-6, dando uma resposta imediata logo após o tropeço frente à La Roja.

Antes, a seleção turca chegou aos quartos de final do Euro-2024, sendo eliminada pelos Países Baixos, e garantiu o regresso à primeira divisão da Liga das Nações ao derrotar a Hungria pelo resultado agregado de 6-1

Sob o comando de Vincenzo Montella, a equipa consolidou um estilo de jogo que equilibra a tradicional combatividade do futebol turco e uma transição agressiva. A Turquia é uma equipa que se sente confortável em ceder a posse de bola para atrair o adversário e feri-lo nos contragolpes. É uma equipa que não apenas compete, mas que aprendeu a reagir às adversidades.

O desempenho da Turquia desde a Liga das Nações
O desempenho da Turquia desde a Liga das NaçõesFlashscore

Quem conhece bem os alicerces desse estilo é o ex-central Edu Dracena, que viveu o auge do futebol local no Fenerbahçe. Para o brasileiro, o regresso da seleção turca ao cenário mundial resgata a essência competitiva do país.

"O futebol turco é muito competitivo e baseado na força física. Após a campanha de 2002, quando terminaram entre os quatro melhores, criou-se uma expectativa enorme no país. Infelizmente, as coisas não aconteceram como imaginaram e faltou sequência em Mundiais", analisa.

"Estar de regresso acrescenta muito à visibilidade da liga local, provando que o campeonato turco é difícil. Agora, a seleção não chega ao Mundial como favorita, mas acredito que pode surpreender seleções importantes com um futebol convincente e jovens de potencial. O Mundial é um 'tiro curto'; as equipas preparam-se muito bem, todos se estudam e conhecem as deficiências e pontos fortes umas das outras. Acredito que a Turquia possa chegar o mais longe possível", acrescenta o ex-central e hoje comentador. 

Com essa mescla de vigor físico, jovens talentos e uma estratégia de jogo clara, os turcos deixam de ser apenas figurantes para se tornarem um adversário indigesto. 

Quem é a principal estrela da seleção da Turquia? 

É impossível falar da atual ascensão turca sem citar o talento de Arda Güler. Aos 21 anos, o médio vive a sua temporada de afirmação definitiva no Real Madrid, acumulando 50 jogos — 40 deles como titular —, com seis golos e 14 assistências. 

Esse desempenho de elite reflete-se diretamente nas Estrelas Crescentes: durante as Eliminatórias, Güler foi o regente do setor ofensivo em sete partidas, contribuindo com um golo e quatro assistências fundamentais para a qualificação.

O desempenho de Arda Güler na atual edição da LaLiga
O desempenho de Arda Güler na atual edição da LaLigaOpta by Stats Perform

Para Edu Dracena, o sucesso de Güler num dos maiores clubes do mundo é o que baliza a confiança no desempenho da seleção turca

"Sabemos que esses jogadores, quando chegam a grandes clubes europeus, chegam porque têm qualidade. Vês o talento do Arda, um atleta jovem, de meio-campo, que finaliza muito bem e, com certeza, é o rosto desta Turquia", destaca.

Segundo Dracena, a presença de talentos que atuam nos grandes centros da Europa é o diferencial que eleva o teto competitivo da equipa de Vincenzo Montella.

Taticamente, Güler é o elo que transforma a "força física" e a "combatividade" citadas por Dracena em perigo real de golo. Numa seleção que aposta em transições agressivas e contra-ataques, o jovem madridista funciona como a mente criativa capaz de dar o passe final sob pressão.

"É uma seleção jovem, de atletas que chamam a atenção, e isso vai refletir-se bastante no desempenho", analisa.

Arda Güler possui uma eficiência de 91% nos passes durante a atual temporada de LaLiga
Arda Güler possui uma eficiência de 91% nos passes durante a atual temporada de LaLigaOpta by Stats Perform

Quem pode surpreender? 

Outro jovem talento que chega com potencial para estourar no Mundial é Kenan Yildiz. Aos 21 anos, o camisola 10 da Juventus vive uma fase de afirmação estatística rara: vem de duas temporadas consecutivas com duplos dígitos em golos (12 e 11, respectivamente) e demonstrou uma evolução notável no papel de assistente, elevando a sua marca de sete para nove assistências no último ano. 

Esse faro ofensivo foi transportado para as Eliminatórias, onde consolidou-se como o principal artilheiro da Turquia, com três golos. Para Edu Dracena, o sucesso de nomes como Yildiz e Güler em gigantes europeus é o sintoma de uma mudança de patamar competitivo.

"São jogadores jovens, mas que ao mesmo tempo acumulam experiência por atuarem em grandes ligas. Jogadores que jogam Champions League e estão sempre a jogar contra os melhores. Isso é uma evolução do futebol turco", observa o ex-defesa.

Os números de Yildiz na atual temporada da Serie A italiana
Os números de Yildiz na atual temporada da Serie A italianaOpta by Stats Perform

No entanto, Dracena ressalta que o brilho do camisola 10 da Juventus só atinge o seu ápice porque encontra respaldo num sistema organizado.

"Eu vejo o conjunto da seleção turca como mais forte que o individual. É claro que o individual acaba por sobressair, mas se não tiveres um conjunto, esse talento acaba por não influenciar", pontua Dracena.

Sob essa ótica, o sucesso de Yildiz é o reflexo de um grupo que parece ter deixado o ego de lado em prol do objetivo comum.

"Vejo que o coletivo está bem consistente. No futebol tudo pode acontecer; se a seleção se une, sem vaidade, as coisas fluem dentro de campo", conclui o ex-jogador.

O xG de Yildiz na Serie A 2025/26
O xG de Yildiz na Serie A 2025/26Opta by Stats Perform

Hakan Çalhanoglu: a liderança turca

Se de um lado brilha a juventude de Güler, do outro impõe-se a experiência de Hakan Çalhanoglu. O médio do Inter de Milão é a grande referência técnica e a voz do balneário da seleção turca, somando 104 jogos e 22 golos pelas Estrelas Crescentes.

No futebol italiano desde a temporada 2017/18, quando chegou ao AC Milan, Çalhanoglu protagonizou uma das transferências mais marcantes do país ao "pular o muro" em 2021/22 para defender o Inter de Milão.

Os números de Hakan Çalhanoglu
Os números de Hakan ÇalhanogluFlashscore

Pelos nerazzurri, Çalhanoğlu atingiu o ápice da sua maturidade, acumulando mais de 200 jogos, 50 golos e 38 assistências. Sob o comando de Simone Inzaghi, reinventou-se como um médio de construção e tornou-se o pilar de uma equipa que já conquistou sete troféus, incluindo o recente e dominante título da Serie A italiana.

A sua importância para a Turquia em 2026 vai além dos números. Enquanto os jovens talentos garantem a verticalidade, Çalhanoglu é quem dita o ritmo, organiza a saída de bola e oferece a precisão cirúrgica nas bolas paradas — uma arma letal em torneios curtos, como destacou Edu Dracena.

Além disso, oferece o controlo mental necessário em partidas tão tensas, como as de um Mundial.

Hakan Çalhanoglu é um médio clássico, tendo a sua área de atuação bem estabelecida em campo
Hakan Çalhanoglu é um médio clássico, tendo a sua área de atuação bem estabelecida em campoOpta by Stats Perform

Como é vivido o futebol na Turquia? 

Entre os companheiros de equipa, Dracena teve o privilégio de atuar ao lado de ícones geracionais como Roberto Carlos, Alex, Diego Lugano, Maldonado e Deivid. Além deles, contou com Rüstü Reçber — guarda-redes que defendeu a baliza da Turquia no Mundial-2002 — e o brasileiro naturalizado Mehmet Aurélio, que adotou este nome ao obter a cidadania e vestiu a camisola da seleção turca em 37 oportunidades.

Dracena ao lado de Alex, Mehmet Aurélio e Lugano
Dracena ao lado de Alex, Mehmet Aurélio e LuganoJulio Munoz / EPA / Profimedia

Na temporada 2007/08, o Fenerbahçe alcançou os quartos de final da Liga dos Campeões, sendo eliminado pelo Chelsea — esta é, até hoje, a melhor campanha da equipa na história do torneio continental.

Dracena formava a dupla de centrais ao lado de Lugano, sob o comando de Zico — o maior ídolo da história do Flamengo e uma das maiores lendas do futebol mundial.

Essa era de ouro serviu para o ex-defesa medir a temperatura do futebol no país.

"Foi um privilégio muito grande. Quando eu cheguei, fui recebido com o carinho dos adeptos logo no aeroporto. Ali já deu para sentir o tamanho que é jogar em grandes clubes turcos", recorda Dracena.

"É uma experiência única, só quem viveu sabe como é jogar nos estádios de lá, principalmente na grandeza de clássicos contra Galatasaray, Besiktas e Trabzonspor. O adepto turco é fanático pelo futebol e pelos brasileiros. É um povo totalmente carinhoso e recetivo", acrescenta.

Edu Dracena (Fenerbahçe) e Jô (CSKA) em duelo na fase de grupos da Champions League 2007/08
Edu Dracena (Fenerbahçe) e Jô (CSKA) em duelo na fase de grupos da Champions League 2007/08YURI KADOBNOV / AFP

No entanto, se a paixão nas bancadas nunca esfriou, o planeamento em campo enfrentou obstáculos que explicam os 24 anos de ausência em Mundiais. Para Dracena, o excesso de contratações estrangeiras, em detrimento da formação de atletas, criou um vácuo de talentos.

"Acho que faltou o trabalho de base. Muitos clubes contratam fora e acabam por não dar oportunidades para os jovens. Teve esse gap de 2002 para cá em que a Turquia patinou, não revelando jogadores para sustentar a seleção principal", analisa.

O cenário para 2026, contudo, é de retoma. A seleção que chega à América do Norte é o fruto de uma correção de rota: a aposta em jovens que, mesmo formados em outros centros europeus, trazem o frescor técnico que a base local negligenciou.

"Agora eles estão a retomar, com jogadores que são destaques em outros centros", conclui o ex-defesa.

Se o fanatismo das bancadas de Istambul encontrar eco no talento da sua nova geração, a Turquia tem tudo para, enfim, reencontrar o protagonismo que o mundo conheceu em 2002.

Dracena marca Joe Cole no confronto entre Fenerbahçe e Chelsea
Dracena marca Joe Cole no confronto entre Fenerbahçe e ChelseaČTK / AP / ALASTAIR GRANT

Agenda da Turquia no Mundial-2026

14/6 (domingo)

05:00 - Austrália x Turquia (BC Place - Vancouver) 

20/6 (sábado) 

04:00 - Turquia x Paraguai (Levi's Stadium - Santa Clara) 

26/6 (sexta-feira) 

03:00 - Turquia x Estados Unidos (SoFi Stadium - Los Angeles)

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