Como um dos anfitriões, os EUA garantiram a vaga automática, poupando-se das sempre imprevisíveis qualificações da CONCACAF. O alívio é compreensível: vale lembrar que a seleção local ficou de fora do Mundial-2018, regressando apenas no Catar em 2022, quando se despediu da competição nos oitavos.
Quem é quem no Mundial: siga a série
O otimismo para brilhar em casa vem de uma série de jogadores consolidada na Europa e da experiência de Mauricio Pochettino, estratega argentino que traz na bagagem a vivência de ter comandado clubes do primeiro escalão mundial.
Mas será que essa mistura terá o tempo necessário para funcionar com o Mundial a bater à porta? O Flashscore conversou com o ex-jogador brasileiro João Paulo, ídolo do Seattle Sounders — equipa bicampeã da MLS que redimensionou a cultura do futebol numa cidade multidesportiva, mas que abraçou a modalidade e se tornou um case study no país.
Confira a tabela do Mundial-2026
Para o ex-médio, o momento da seleção norte-americana é de ajuste sob o comando de Pochettino. João Paulo acredita que a equipa ainda procura uma identidade clara. O treinador argentino assumiu a seleção nacional em setembro de 2024 como resposta direta aos fracassos de Gregg Berhalter, seu antecessor, na Gold Cup 2023 e na Copa América de 2024.
"Como acontece no Brasil, a troca de treinador precisa de tempo para acertar o estilo de jogo e a formação. Vejo os Estados Unidos ainda neste processo", analisa.

Mesmo com o Mundial a aproximar-se, o ídolo do Sounders nota que o "11 ideal" ainda é uma incógnita. Mas o impasse pode tornar-se um trunfo estratégico do técnico argentino. "O Pochettino é um treinador que pode mudar a formação até dentro do Mundial, dependendo do adversário, sendo mais ofensivo ou investindo nos contra-ataques".

Como joga a seleção dos Estados Unidos?
Embora veja uma evolução na posse de bola, João Paulo aposta numa postura mais reativa da seleção dos Estados Unidos: "Creio que, para este Mundial, será uma equipa que vai jogar mais no contra-ataque".
O ex-jogador crê ainda que Pochettino tentará explorar ao máximo a qualidade das peças ofensivas do plantel, que podem ser bastante letais nos duelos diretos.

"Com o Gregg Berhalter (ex-técnico da seleção), os Estados Unidos eram uma equipa que jogava muito no detalhe, porque ele era um treinador que gostava disso. Com o Pochettino, eu imagino que será uma equipa que vai explorar os jogadores da frente, que possuem um bom um contra um e são rápidos", projeta o ex-médio.
O fim da era Berhalter deu-se na Copa América de 2024, torneio que os norte-americanos sediaram e participaram como convidados. A jogar em casa, a expectativa era de uma campanha histórica para consolidar a equipa.
No entanto, os EUA foram eliminados ainda na fase de grupos, após derrotas frente ao Panamá e Uruguai. Esse fracasso custou o cargo de Berhalter e abriu caminho para Pochettino, um técnico de elite mundial.
O argentino chegou com a missão de dar um ADN europeu ao plantel e resolver a inconsistência tática da equipa. Já sob a sua liderança, o vice-campeonato da Gold Cup, no ano passado, serviu como teste para o Mundial. O torneio teve um formato especial e foi disputado ao mesmo tempo do Mundial de Clubes da FIFA, também sediado no país.
Por esse motivo, estrelas como Weston McKennie e Tim Weah não estiveram presentes, já que defendiam os seus clubes na competição internacional. A principal baixa, no entanto, foi Christian Pulisic, que alegou desgaste físico para desfalcar a seleção. Mesmo com essas baixas, os EUA chegaram à final, mas a derrota frente ao rival México aumentou o debate sobre o real nível de preparação dos EUA para o Mundial.
Ao contrário de ciclos anteriores, a agenda de 2025 e o início de 2026 foram marcados por confrontos contra seleções europeias e sul-americanas de elite (como os amigáveis contra Portugal e Bélgica), que procuraram tirar o grupo da "zona de conforto" da CONCACAF. Contudo, os deslizes recentes diante desses adversários mostram que os Estados Unidos ainda procuram o ajuste ideal.
Quem é a principal estrela?
É de conhecimento geral que os brasileiros adoram um meme e Pulisic tornou-se um no país do futebol. Em dezembro de 2021, um programa norte-americano promoveu essa pérola ao apresentar um participante, fã de futebol, que tentava vender uma camisa do Chelsea autografada por Pulisic. Foi nesse momento que o apresentador do programa se referiu a Pulisic como o "LeBron James do futebol".

A comparação foi totalmente surreal, é claro. Mas, para além do meme, Pulisic é a grande referência técnica dos Estados Unidos. Nascido na Pensilvânia, foi formado no Borussia Dortmund, atingiu a equipa principal da formação alemã, passou pelo Chelsea e hoje é um dos grandes nomes do Milan. Não é por acaso que Pulisic é tratado até como "Capitão América".
"O Pulisic é o grande nome; acho que depende muito dele. Se fizermos um comparativo, ele seria o Vinícius Júnior dos Estados Unidos. A equipa depende muito de uma jogada individual dele, de um lampejo ofensivo para conseguir um golo. Então, eu acho que passa tudo por esse jogador, que vai carregar a responsabilidade de conseguir resultados para a seleção americana", destaca João Paulo.

Quem pode surpreender?
Mas Pulisic não está sozinho nesta missão de ser o ponto diferenciador da seleção norte-americana. Outro jogador que pode chamar a atenção é Weston McKennie. Aos 27 anos, o jogador está na Juventus desde a temporada 2020/21 e tornou-se, especialmente na atual época, um dos pilares da equipa comandada por Luciano Spaletti.
Para se ter uma ideia, esta é a temporada com mais participações em golos na carreira do norte-americano — 15 no total, sendo nove golos e seis assistências.

A confiança em McKennie é tão grande que a direção decidiu renovar o contrato do médio até 2030. Numa equipa pragmática como a da Juventus, o norte-americano ganhou notoriedade pela consistência e obediência tática. Ele é, sem dúvida, uma grande aposta para que os Estados Unidos ganhem o equilíbrio necessário para subir de patamar coletivamente.
"Acho que o McKennie é o outro grande nome. Ele já está há alguns anos na Europa, tem vindo a crescer temporada após temporada. Eu acho que ele seria o segundo jogador com mais peso. Não sei se teria algum outro atleta mais jovem que possa surpreender, mas creio que o McKennie e o Pulisic são os que possuem mais experiência, jogam em Itália há algum tempo, são jogadores de nível europeu e muito da responsabilidade estará em cima deles", indicou o ex-jogador do Seattle Sounders.

Como é vivido o futebol nos Estados Unidos?
Num país com múltiplas opções desportivas, o futebol encontra uma concorrência pesada frente a modalidades que atraem muito mais a atenção dos norte-americanos. Mas a cultura do soccer, ano após ano, ganha mais adeptos, especialmente entre os mais jovens.
Além das quatro linhas, João Paulo testemunha uma transformação cultural sem precedentes desde que chegou a Seattle, em 2020.
"O crescimento é absurdo. Vejo isso dentro do clube e nos parques; o futebol cresceu e tende a evoluir ainda mais. Antigamente, a modalidade não estava nem entre as quatro favoritas das crianças, que têm muitas opções de desportos por aqui. Hoje, o futebol já luta para entrar nesse Top 3 ou Top 4 dos Estados Unidos", conta o ex-jogador.

Essa evolução não se restringe apenas ao interesse do público, mas reflete uma mudança profunda na mentalidade de mercado da MLS.
"Hoje, os Estados Unidos também viraram um mercado para contratações de atletas, há grandes jogadores, incluindo jovens, porque ouvíamos muito que era uma liga de reformados, jogadores em fim de carreira, e não é isso que temos visto".
"Hoje, se virmos a média de idade dos clubes, do plantel de cada equipa, dá para ver que é uma idade baixa, de 23, 24, 25 anos, jogadores que ainda vão chegar no ápice da carreira, então isso mostra como a liga evoluiu", analisa João Paulo.

Para o brasileiro, o pilar que sustenta essa nova fase é o investimento no que acontece antes do apito inicial: a formação de talentos.
"Outro fator importante, hoje as equipas estão a olhar para a formação, estão a formar jogadores, porque antigamente isso não existia, procuravam sempre jogadores noutros mercados e hoje vemos jogadores a ser vendidos até mesmo para a Europa a sair das formações dos clubes. Isso é outro indicativo de que o futebol está a crescer bastante".
Com esse cenário de renovação e profissionalismo, os Estados Unidos chegam ao Mundial-2026 não apenas como anfitriões, mas como um território que finalmente aprendeu a fabricar — e exportar — o seu próprio espetáculo.
Agenda dos Estados Unidos no Mundial-2026:
13/6 (sábado)
02:00 - Estados Unidos - Paraguai
19/6 (sexta-feira)
20:00 - Estados Unidos - Austrália
26/6 (sexta-feira)
03:00 - Turquia - Estados Unidos
