A Austrália migrou para a Confederação Asiática (AFC) em 2006, à procura de um nível competitivo superior e a garantia de uma vaga direta para o Mundial, evitando a repescagem instável da Oceania. Essa mudança foi vital para o desenvolvimento técnico do país, proporcionando um calendário de jogos mais desafiador e maior visibilidade comercial no mercado asiático.
Quem é quem no Mundial: siga a série no Flashscore
A qualificação para o Mundial deste ano veio com a vice-liderança do Grupo C das Eliminatórias Asiáticas. Os australianos somaram 19 pontos, ficando atrás apenas do Japão, líder do grupo, com 23. Após um início negativo, que causou a saída de Graham Arnold, Tony Popovic assumiu o comando e ajustou a Austrália. Sob nova direção, a equipa superou a instabilidade inicial e garantiu a vaga no Mundial com quatro vitórias consecutivas, incluindo triunfos sobre rivais diretos como Japão e Arábia Saudita.
A vaga no Mundial foi confirmada com uma vitória, com direito a reviravolta, sobre os sauditas, por 1-2, em Jeddah, na casa do adversário. Foi a primeira vez que o país obteve a qualificação direta para o Mundial desde a campanha de 2014.
Na sua última participação na Taça da Ásia, disputada em 2024 no Catar, os Socceroos caíram nos quartos de final com a Coreia do Sul, após prolongamento. A Austrália venceu o torneio numa única ocasião: em 2015, quando o país foi a sede da competição continental.

Para conhecer melhor a seleção da Austrália, conversámos com o brasileiro Fábio Gomes, avançado que defendeu o Sydney FC por um ano e foi campeão da Taça da Austrália em 2023. O título foi o cartão de visita de Fábio Gomes no país: a final do torneio marcava apenas a sua segunda partida pelo clube. Nessa ocasião, saiu do banco de suplentes para empatar o jogo contra o Brisbane Roar e ainda marcar o golo que selou a vitória por 3-1, garantindo a taça.
Como joga a seleção australiana?
Na sua preparação para o Mundial, a Austrália disputou seis jogos particulares em 2025, somando três vitórias e três derrotas consecutivas. O triunfo mais expressivo ocorreu em outubro do ano passado: 0-1 sobre o Canadá. Já em 2026, os Socceroos sediaram o FIFA Series e mantiveram os 100% de aproveitamento, vencendo os dois jogos disputados, incluindo o triunfo por 1-0 sobre os Camarões.
Por não ter um destaque absoluto, a seleção australiana caracteriza-se pelo jogo coletivo e, sobretudo, pela força física — pontos que o avançado Fábio Gomes ressalta ao analisar a sua experiência no país.
"É um futebol de muita força e muito contacto, totalmente diferente do brasileiro. Nós somos mais da 'ousadia e alegria'. Lá, eles são mais rígidos taticamente e exigem esse futebol de disputa e de comprometimento. O que o técnico mandar, tens de executar", explica o jogador brasileiro.

Fábio Gomes destaca que a intensidade vai além das quatro linhas e começa na rotina dos atletas.
"Eles treinam como se fossem verdadeiros leões, com suplementação e tudo mais. Foi um choque para mim. Mas eles têm jogadores, como o Anthony Cáceres — meu amigo pessoal que joga no Macarthur FC e na seleção —, que são tecnicamente muito bons. Por ter família uruguaia e dupla nacionalidade, possui aquele talento sul-americano de pegar na bola e ir para cima", conta.
Para o brasileiro, essa mistura de vigor físico com disciplina tática pode surpreender no Mundial.
"A seleção deles é muito boa taticamente. Se assistirem aos jogos, perceberão o quanto são aplicados. Eu acho que vão dar trabalho neste Mundial. Não vou mentir", projeta Fábio Gomes.

Quem é a principal estrela?
Embora não conte com um astro de renome internacional, a Austrália possui jogadores espalhados por importantes ligas europeias. A principal esperança ofensiva recai sobre o avançado Martin Boyle, do Hibernian, da Escócia. Cotado para despontar como um dos protagonistas da equipa neste Mundial, Boyle une qualidade técnica e experiência, mas carrega, sobretudo, um desejo de superação: foi riscado do Mundial do Catar, em 2022, em vésperas da estreia, devido a uma grave lesão no joelho.

Outro pilar da seleção é o médio Jackson Irvine, que defende o St. Pauli, da Alemanha. No entanto, a condição física do capitão preocupa; Irvine convive com problemas médicos desde o ano passado, tendo passado por uma cirurgia ao pé esquerdo, em abril de 2025. Após regressar em outubro, sofreu novas complicações em janeiro deste ano, o que deixou os australianos em alerta.

Apesar da apreensão, o médio recuperou o ritmo e tem jogado regularmente desde fevereiro — um contraste com a fase do seu clube, que luta contra a despromoção na Bundesliga. Líder do plantel, Irvine soma 14 golos em 80 partidas pelos Socceroos. A sua trajetória com a camisola amarela é marcada pela longevidade: estreou-se na seleção em 2013 e já trazia no currículo a experiência de ter integrado o grupo no Mundial de 2018.
Para fechar, poucos jogadores podem dizer que disputaram três Mundiais, mas o guarda-redes australiano Matthew Ryan, do Levante, é um deles. Capitão dos Socceroos, é uma das grandes referências do plantel.

Quem pode surpreender?
Aos 21 anos, Hayden Matthews é apontado como uma das joias do futebol australiano. O defesa foi revelado pelo Sydney FC e transferiu-se para o Portsmouth, onde procura afirmar-se no competitivo Championship, a segunda divisão inglesa. Foi chamado pelo técnico Tony Popovic para o primeiro grupo de treinos pré-Mundial e pode integrar a lista final para a competição.

Como é vivido o futebol na Austrália?
Embora o futebol não seja a modalidade número um da Austrália — que tem o futebol australiano, o râguebi, o críquete e as corridas de cavalo no topo das preferências —, a liga local tem vindo a consolidar-se. A A-League conta atualmente com 12 clubes, tendo como seu maior vencedor justamente o ex-clube de Fábio Gomes, o Sydney FC, dono de cinco títulos (o último conquistado em 2020).
Na sua passagem pelo clube, Fábio Gomes acumulou números expressivos: foram 13 golos e quatro assistências em 30 jogos. O avançado brasileiro detalha que o sucesso em campo foi fruto de uma superação fora dele, especialmente pela barreira do idioma e o timing da contratação.
"Não foi fácil. Tive de me adaptar ao estilo deles, ainda mais chegando com a temporada já em andamento. Eu não falava o inglês da Austrália, que é diferente do dos Estados Unidos, mas o meu jeito 'cara de pau' ajudou", conta Fábio Gomes.

"Aquele espírito brasileiro de ser alegre com toda a gente e perguntar sempre que tinha dúvidas, mesmo sem saber falar direito, facilitou muito. Com o tempo, o futebol fluiu naturalmente; os companheiros passaram a entender como eu gostava de me posicionar e de receber a bola", acrescenta o avançado brasileiro.
Apesar do crescimento da liga, a relação do público com o futebol ainda guarda particularidades culturais. Fábio Gomes observa que, embora o apoio exista em momentos decisivos, o comportamento do adepto australiano é mais contido se comparado ao fervor sul-americano.
"Eles não são tão fanáticos pelo futebol masculino; preferem o râguebi e também o futebol feminino, já que a seleção australiana é muito boa. Mas o Sydney FC, por ser um clube grande da maior cidade do país, consegue atrair público. Não é aquela atmosfera que vemos no Brasil; é algo mais 'delicado'. Eles não costumam esgotar o estádio em dias comuns", explica o avançado.

O brasileiro relembra que o auge dessa conexão ocorreu justamente na conquista do seu título.
"A final da Taça da Austrália foi um momento muito especial e o estádio estava cheio por ser um jogo decisivo, com cerca de 35 mil pessoas. Mas, no geral, eles não são de lotar sempre; não são fanáticos", conclui.

A distância entre o futebol feminino e o masculino
A perceção de Fábio Gomes sobre a força do futebol feminino reflete a realidade do país. Desde que sediou a o Mundial Feminino em 2023, a Austrália vive uma verdadeira 'Matildamania'. As Matildas detêm recordes de audiência na TV e costumam lotar estádios com mais frequência que a seleção masculina, impulsionadas pelo carisma de estrelas globais como Sam Kerr. Uma realidade bem diferente dos Socceroos.
Durante o Mundial Feminino de 2023, a Austrália colocou mais de 75 mil pessoas no Estádio Olímpico de Sydney em múltiplos jogos, algo raríssimo para o futebol local fora das grandes finais. Ao contrário do masculino, que luta para romper a barreira dos oitavos de final, a seleção feminina é presença constante nas fases finais de Mundiais e Jogos Olímpicos, tendo chegado à meia-final do último Campeonato do Mundo.

Agenda da Austrália no Mundial
14/6 (domingo)
05:00 - Austrália x Turquia (BC Place - Vancouver)
19/6 (sexta-feira)
20:00 - Estados Unidos x Austrália (Lumen Field - Seattle)
26/6 (sexta-feira)
03:00 - Paraguai x Austrália (Levi's Stadium - Santa Clara)
