O Haiti apurou-se diretamente para o torneio após terminar em primeiro no grupo que tinha, além dele, Honduras, Costa Rica e Nicarágua, na qualificação da CONCACAF para o Mundial.
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Agora, de volta à competição, a expectativa é enorme para escrever uma nova história. Trata-se de um país que atravessa uma grave crise humanitária e política: cerca de 80% da população vive na pobreza.
Gangues criminosos têm um controlo territorial significativo, impedem o funcionamento do governo e bloqueiam estradas, agravando ainda mais a instabilidade. O país não realiza eleições desde 2016.
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Diante desse cenário, o futebol surge como uma ferramenta de esperança, inclusão social e orgulho nacional, funcionando como um refúgio no meio do caos. A participação haitiana no Mundial surge para promover a união no país.

Para entender melhor esse contexto e conhecer mais sobre a seleção — que será a segunda adversária do Brasil no torneio —, o Flashscore conversou com Badio Stanley Nosier, jogador haitiano que joga no Pérolas Negras, do Rio de Janeiro. Criado pela ONG Viva Rio no Haiti, em 2009, o projeto social utiliza o futebol para educar jovens no país e profissionalizar atletas de destaque no Brasil.
Como joga a seleção do Haiti
O Haiti é comandado por Sebastien Migné, francês com experiência nas outras seleções, como Congo, Quénia e Guiné Equatorial. Assumiu o comando técnico em 2024, na vaga do espanhol Gabriel Pellegrino. De acordo com Badio, essa mudança também teve impacto no estilo de jogo da equipa.
“Há dois anos, antes da troca de treinador, víamos uma seleção que procurava adaptar-se a um estilo de jogo com muita posse de bola e troca de passes. Agora, com o novo treinador, vemos o Haiti como uma equipa mais fechada, com mais força física e marcação. E acredito que isso pode ser uma boa surpresa para as seleções que vamos enfrentar".
Isso não significa que a equipa abdique de atacar. O Haiti teve o quinto melhor ataque da qualificação da CONCACAF, com 20 golos marcados em 10 jogos — média de dois por jogo.

Quem é a grande estrela?
Antes de apresentar os destaques da seleção do Haiti, é importante ressaltar que nenhum jogador da seleção atua no próprio país. Badio explicou o motivo:
“O nosso futebol no Haiti não é um futebol de oportunidade, atualizado. A maioria dos jogadores, quando começa no Haiti, tende a sair do país para procurar o melhor para si. (...) Ficar no Haiti faz-nos ficar naquele futebol mais preso. Então é bom sair. Por isso, a maioria — para não dizer todos — joga fora".

O grande destaque da seleção é Duckens Nazon, melhor marcador da história do país, com 44 golos em 80 jogos.
“Nazon é alguém muito respeitado por toda a população do Haiti. Fez o seu nome lá, pela seleção, com vários golos que já marcou”, afirmou Badio.
Nazon defendia o Esteghlal Tehran, do Irão. Com a guerra no país, precisou de sair à pressa no meio dos bombardeios de Estados Unidos da América e Israel e agora vive um momento de incerteza sobre o futuro no clube. Acumula passagens por Wolverhampton, Coventry City, St. Mirren e CSKA Sofia.
O médio do Pérolas Negras também destacou outro jogador: Jean-Ricner Bellegarde.

“É alguém mais jovem. Ele está a jogar em Inglaterra. São dois jogadores que jogam fora do país e têm um bom ritmo para enfrentar essas seleções".
Bellegarde joga há três temporadas pelo Wolves e soma uma passagem de cinco anos pelo Estrasburgo. O médio é considerado o principal cérebro da equipa haitiana.
Candidato a surpresa
Como possível surpresa, Badio aponta para alguém que já deu passos semelhantes aos dele no passado:
“É um menino, um médio, contra quem eu já joguei. O nome dele é Danley Jean Jacques. Ele passou pelo Pérolas Negras, o clube onde jogo agora, e é um jogador muito bom. Pode surpreender".

Danley joga atualmente no Philadelphia Union, da MLS. Teve sete participações em golos no ano passado, em 37 partidas, e já marcou duas vezes na atual temporada. Pela seleção, soma seis golos e três assistências em 29 jogos. É presença constante nas convocatórias de Migné desde que o treinador francês assumiu, iniciando todos os jogos desde junho de 2024.
Como é vivido o futebol no Haiti
Conforme explicado no início da reportagem, o futebol possui um papel social fundamental no Haiti.
“É um país muito apaixonado por futebol. Não à toa, é o desporto mais praticado no Haiti. Desde 1974 que não participamos no Mundial. Desta vez, há esperança. Há muita coisa a ser falada. A guerra, que está muito intensa no Haiti, para quando há jogo. O futebol representa muita coisa”, explicou Badio.

Além disso, segundo o médio, existe uma ligação muito forte com o Brasil. A própria iniciativa do Pérolas Negras já demonstra isso, mas outras ações — como a do Exército Brasileiro no Haiti, a liderar a Missão de Paz da ONU entre 2004 e 2017, e a oferta de visto humanitário e oportunidades para haitianos após o terramoto de 2010 — contribuíram para estreitar essa relação.
“Quando o Haiti não participa no Mundial, a nossa seleção é o Brasil. Quando o Brasil está a jogar, o governo coloca televisões nas ruas. As pessoas que vão trabalhar têm um tempo para voltar para casa e assistir ao jogo”, revelou.
Diante disso, o confronto entre Brasil e Haiti, reeditando o histórico “Jogo da Paz” — promovido pela ONU e pelo Governo Brasileiro em 2004 e que parou o país caribenho —, será especial para os haitianos.

“Para mim foi uma alegria imensa. Porque, queira ou não, nós que somos haitianos gostaríamos de passar a fase de grupos. Mas, quando vemos Haiti, depois Brasil, depois Marrocos... dá aquele medo, mas ao mesmo tempo é uma alegria enorme, porque o Haiti tem o Brasil como segunda seleção. Ao mesmo tempo que deu medo, deu aquela alegria. O Haiti vai enfrentar o Brasil. Por quem é que eu vou torcer?”, afirmou Badio.
Agenda do Haiti no Mundial-2026
14/6 (sábado)
02:00 - Haiti x Escócia (Gilette Stadium – Boston)
20/6 (sexta-feira)
01:30 – Brasil x Haiti (Lincoln Financial Field – Filadélfia)
24/6 (quarta-feira)
23:00 - Marrocos x Haiti (Mercedes-Benz Stadium - Atlanta)
