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Reportagem: Como a vida e a popularidade de Cabo Verde mudaram após o Mundial-2026

Mural representando um tubarão, símbolo da seleção de Cabo Verde
Mural representando um tubarão, símbolo da seleção de Cabo VerdeREUTERS

Os adeptos e os futebolistas cabo-verdianos que acompanharam o jogo decisivo do Mundial-2026 sentiram uma enorme satisfação ao constatarem que, no tempo regulamentar, não foram derrotados por nenhum dos dois finalistas: Espanha e Argentina. O sucesso de Cabo Verde, que se estreava na competição, está a dar frutos após o evento, e não apenas no plano desportivo.

A seleção do arquipélago africano foi eliminada nos 16 avos de final do torneio organizado nos Estados Unidos, México e Canadá pela Argentina (2-3), mas apenas após prolongamento. Até ao fim, falou-se dos Tubarões Azuis como a maior surpresa do Mundial, deixando uma excelente impressão.

O jornal cabo-verdiano Expresso das Ilhas, citando especialistas em marketing e estatísticas do motor de busca de voos Skyscanner, destacou que, após o primeiro bom jogo da equipa no grupo H - o nulo frente à Espanha -, o mundo inteiro virou atenções para esta antiga colónia portuguesa.

O diário, editado na Praia, capital de Cabo Verde, relatou que em junho, quando a equipa de Cabo Verde realizou uma excelente prestação na fase de grupos do Mundial, o motor de busca Skyscanner registou um aumento de 70% no interesse por voos para o país. Um dos três maiores "saltos" foi registado na Polónia, com um crescimento de 150%.

"A tendência de crescimento da popularidade de Cabo Verde vai manter-se num futuro próximo. Vai afetar sobretudo o turismo e o futebol. O Mundial valorizou este país pouco conhecido, mas bem representado na Europa pelos imigrantes cabo-verdianos. Entre eles, há muitos futebolistas", afirmou à PAP o economista Miguel Monteiro.

Esta opinião é partilhada pelo responsável pelas estruturas regionais da Associação de Futebol de Bragança, António Ramos, que salientou que no plantel de Cabo Verde para o Mundial havia até sete jogadores provenientes das duas principais divisões portuguesas.

"O caso do guarda-redes cabo-verdiano, Vozinha, que não só jogou nos últimos anos na segunda divisão portuguesa, mas cujo clube, o Chaves, se separou dele antes do Mundial, prova que muitos futebolistas deste arquipélago têm grande potencial, mesmo atuando em clubes modestos", acrescentou.

Precisamente, Vozinha tornou-se um dos grandes vencedores do torneio, apesar da eliminação da sua equipa nos 16 avos de final. O guarda-redes, de 40 anos, chegou ao Mundial sem clube e foi eleito na terça-feira pelos adeptos de todo o mundo para o onze ideal do torneio, tendo depois encontrado novo clube: vai jogar no Colo Colo, em Santiago, no Chile.

As excelentes exibições do cabo-verdiano frente à Espanha e à Argentina também se traduziram numa explosão do número de seguidores nas redes sociais, passando de 50 mil para quase 30 milhões, bem como na assinatura de contratos publicitários lucrativos.

O adepto Amancio Montrond, natural de Cabo Verde, recordou à PAP que, em Portugal, o crescente interesse pelo arquipélago se manifestou, nomeadamente, na loja de recordações desportivas situada na Fan Zone do Mundial, na Praça do Comércio, em Lisboa.

"As camisolas, cachecóis e outros artigos de Cabo Verde que estavam à venda naquele local após o primeiro jogo dos pupilos de Bubista esgotaram rapidamente, tanto entre os meus compatriotas, como entre portugueses e turistas estrangeiros", contou Montrond.

Um sinal da crescente popularidade da República de Cabo Verde é o facto de estrelas do futebol, desde portugueses ainda em atividade como Cristiano Ronaldo, Nani, Nelson Semedo ou Nuno Mendes, até ao sueco já retirado e antigo jogador do Barcelona Henrik Larsson, reconhecerem as suas raízes cabo-verdianas.

Durante o Mundial, foi também o caso, entre outros, do antigo jogador da seleção francesa e do Manchester United Patrick Evra, que falou sobre os seus laços com os imigrantes cabo-verdianos da família Evora.

No passado, outro internacional francês, Patrick Vieira, vencedor do Mundial de 1998 com os bleus, também já tinha falado dos seus antepassados cabo-verdianos.