Reportagem Flashscore: Japão tentou ao máximo adiar a festa brasileira em Houston

Os adeptos do Brasil
Os adeptos do BrasilReuters/Maria Lysaker

Houston, temos um problema? E um problema gravíssimo. Ao contrário da confiança que o brasileiro sempre ostentou em duelos contra o Japão, o clima nesta segunda-feira de calor escaldante no Texas era inédito. Havia um misto de fé na mística da camisa cinco estrelas e de cautela em relação a um adversário que assustava.

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Carlo Ancelotti já tinha avisado na antevisão: era preciso ter coração forte para suportar a batalha no relvado. Ainda assim, o adepto brasileiro não estava preparado para viver, de forma tão agonizante, a primeira disputa dos 16 avos da história da canarinha. 

Do outro lado, os japoneses que caminhavam em direção ao colossal NRG Stadium traziam consigo o sentimento inverso: a certeza de que era possível derrubar o gigante postado no corner oposto - uma quase batalha saída de um mangá ou de um roteiro caricato de heróis da cultura pop nipónica. E o sentimento era legítimo.

O silêncio que ninguém esperava

Carregando sacos plásticos, prontos para a tradicional coleta de lixo após o apito final, os asiáticos transbordavam esperança. O otimismo virou festa quando Kaishu Sano acertou um remate rasteiro, no canto de Alisson, abrindo o marcador em Houston e silenciando a claque verde-amarela.

O nervosismo do campo logo se refletiu nas bancadas. Com cânticos desencontrados ecoando pelo estádio monumental, os brasileiros não encontravam a sintonia. O primeiro tempo seguiu sob essa tensão até o intervalo, deixando a preocupação nitidamente estampada no rosto de cada torcedor.

O Brasil precisava ser mais do que apenas o "sabor Brasil". A bancada só ganhou um novo fôlego quando Endrick saiu para o relvado para o aquecimento. Ele era o facto novo necessário para acender a faísca de reação, justamente em um dia em que peças individuais importantes não brilhavam. Era o caso de Casemiro.

Alvo de duras críticas dos adeptos - que aproveitavam a pausa para correr pelos corredores atrás de um snackou de uma cerveja antes do início dos 45 minutos finais de drama -, o médio parecia fadado ao escrutínio nacional. No entanto, caberia a ele trazer a esperança de volta aos pulmões da bancada.

Quando a bola viajou para a área, o movimento no estádio tornou-se um só: milhares de corpos cabecearam junto com o jogador do United. A explosão do golo de empate deu uma nova alma à partida.

Houston volta a acreditar

O Japão sentiu o golpe. Naquela batalha de heróis que sua cultura tanto celebra, o personagem japonês que antes parecia austero balançou. E os samurais estiveram muito perto de tombar em definitivo quando Vini Jr. desconcertou a cintura do marcador e, por um triz, não assinou o golo do Mundial.

Mas o relógio era impiedoso em Houston. O batuque da claque  verde-amarela concentrou-se no tradicional "Vai para cima deles, Brasil", embora o coro parecesse minguar a cada segundo diante da tensão sufocante que tomava conta do estádio texano. Não havia escolha: era preciso abraçar o medo ou transformá-lo em impulso.

Apesar da idolatria máxima a Neymar, que teve o nome gritado em uníssono por parte do estádio na etapa final, até mesmo o adepto mais fervoroso entendia que talvez ainda não fosse o momento de o camisola 10 estar em campo.

E rolou a festa

Tudo dentro daquela arena conspirava para a impaciência. O palco climatizado, de repente, pareceu gelado, mas o Brasil não arrefeceu. A Seleção martelou, concentrou-se, organizou-se e impôs o seu jogo. Nas bancadas, a claque, mesmo apreensiva, finalmente entendeu que a reviravolta era apenas uma questão de tempo.

E o tempo veio nos acréscimos. Martinelli fez o grito entalado saltar do peito de milhões, e o coro de "Brasil" ecoou forte por Houston. Os Samurais Azuis bem que tentaram resistir, mas o conjunto verde-amarelo tinha outros planos. 

Controlando os próprios ânimos e o nervosismo latente, o Brasil buscou a retomada com uma resiliência digna do próprio espírito oriental.

Com o apito final, a explosão catártica das arquibancadas encontrou, enfim, a sintonia perfeita com o relvado. A desilusão agonizante deu lugar ao alívio. No calor escaldante do Texas, o gigante cambaleou, sentiu o golpe, mas provou que continua de pé. Houston, não temos mais um problema. Temos uma festa. E rolou a festa.