Reportagem: Moisés Caicedo, o menino que jogava descalço e que se tornou o jogador mais caro do Equador

Moisés Caicedo, médio do Chelsea e do Equador
Moisés Caicedo, médio do Chelsea e do EquadorReuters

Foi entre as pequenas casas apertadas de um bairro popular equatoriano que Moisés Caicedo ergueu os seus primeiros troféus, taças de plástico dourado emprestadas por um vizinho para dar o sabor da vitória a um grupo de crianças.

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Dessa época resta uma fotografia cuidadosamente guardada por Jeremy Cedeño, amigo de infância do médio defensivo do Chelsea, que disputa aos 24 anos o seu segundo Mundial. Nela vê-se Caicedo ajoelhado, rodeado por cinco outros jovens colegas de equipa, com um enorme sorriso, as mãos a segurar a pequena taça dos vencedores desse torneio do bairro popular de Mujer Trabajadora, na província de Santo Domingo de los Tsachilas (centro).

"Nem sequer havia árbitro... Ai, ai, como se davam pancadas", recorda à AFP Jeremy Cedeño. Esse mesmo sorriso, Caicedo exibia-o no seu rosto radiante ao levantar a taça do Mundial de Clubes conquistada com os Blues nos Estados Unidos, em julho de 2025.

À volta da cintura, tinha enrolada a bandeira equatoriana. "Estamos muito orgulhosos" dele, "porque ele é daqui, do bairro, onde jogava descalço", diz o Jeremy Cedeño, socorrista de 24 anos.

Dez irmãos

A transferência de Caicedo do Brighton para o Chelsea, por um valor de 116 milhões de euros, constituiu em 2023 um recorde para o futebol inglês. Acabou de renovar por mais sete anos com os Blues, dos quais é peça fundamental, com 31 jogos disputados esta época, 3 golos e 1 assistência.

Caicedo, o mais novo de uma família de dez irmãos que vendia flores num cemitério para ajudar a família, tornou-se o jogador mais caro da seleção equatoriana, pela qual se estreou com apenas 18 anos e já soma 60 internacionalizações (3 golos).

Na sua cidade natal de Santo Domingo, o rosto de Caicedo aparece em murais, camisolas e até nas caneleiras das crianças que sonham seguir-lhe as pegadas, como Julian Hidalgo, de nove anos. O pequeno rapaz, que diz admirar a inteligência e a velocidade de Caicedo, é treinado pelo mesmo educador, Ivan Guerra.

"Recorda-se que foi nesta escola de futebol que Caicedo começou, que o campo era de lama, pedras, areia e por vezes até cacos de vidro (...) Ensina-se aos miúdos que têm de trabalhar muito se querem realizar os seus sonhos", diz à AFP Ivan Guerra, de 58 anos.

Lembra-se de ter visto Caicedo pela primeira vez a jogar na rua com os amigos, das dificuldades financeiras para organizar jogos e de como Caicedo o ajudava a guardar carros no bairro festivo da cidade para ganhar algumas moedas para o clube.

"Humilde"

Darwin Castillo treinou Caicedo na adolescência no clube Jaipadida. Recorda-se desse rapaz tímido, na altura "um miúdo entre tantos outros", mas que já se destacava pela vontade inabalável e por uma condição física especial.

"A disciplina do Moisés vem da educação em casa (...) uma família muito pobre que rezava antes de comer", conta.

"Desde pequeno, sempre quis ser futebolista profissional", mantendo-se "o mesmo rapaz humilde que não esquece de onde veio", declarou Caicedo no ano passado ao receber uma distinção da Assembleia Nacional. E, segundo Castillo, cumpriu o que prometeu.

Tem "o sentido de pertença e ainda está a colmatar ou a fazer coisas que não pôde fazer durante a infância", por falta de dinheiro, explica.

As suas férias, Caicedo passa-as no Equador, vai à praia, anda na roda gigante, joga à bola com os antigos treinadores e amigos, para voltar, por um instante, a ser aquele menino que erguia troféus de plástico.

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