Ir para o conteúdo principal

Futebol Feminino: um fenómeno social e agregador

Rui Costa e André Villas-Boas acompanharam a partida ao lado de Pedro Proença
Rui Costa e André Villas-Boas acompanharam a partida ao lado de Pedro ProençaFPF

Gonçalo Alves, treinador português que lidera a equipa feminina do FC Metta, da Letónia, assina no Flashscore uma coluna de opinião publicada de três em três semanas. O técnico aborda sobretudo temas relacionados com o futebol feminino, sem deixar de analisar os assuntos mais relevantes da atualidade futebolística.

Recorde as incidências da partida

Há momentos no futebol que ultrapassam aquilo que acontece dentro das quatro linhas. A Supertaça feminina, disputada no Fontelo, em Viseu, entre FC Porto e Benfica, foi um desses momentos.

Mais do que a atribuição de um troféu, o jogo serviu para mostrar a força, a vitalidade e, sobretudo, o caminho que o futebol feminino está a percorrer em Portugal. Um caminho que já não se faz apenas de crescimento desportivo, mas também de afirmação social, institucional e profissional.

O futebol feminino é hoje um fenómeno social.

E é assim porque está cada vez mais integrado na nossa sociedade. Porque é cada vez mais visto, discutido e acompanhado. Porque deixou de ser uma realidade à margem do futebol para conquistar espaço nos estádios, nos meios de comunicação, nas estruturas dos clubes e, sobretudo, no imaginário de quem acompanha o desporto.

E foi precisamente no Fontelo que essa dimensão social ganhou uma imagem particularmente forte.

Na tribuna, estavam os presidentes de dois dos maiores clubes portugueses. Com eles, o presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Pedro Proença, e outros responsáveis da estrutura federativa. Diferentes clubes, diferentes interesses e diferentes responsabilidades, reunidos para assistir a um jogo de futebol feminino.

Pode parecer apenas um detalhe protocolar. Não é.

É um sinal.

O futebol tem uma enorme capacidade de aproximar pessoas. Mas, neste caso, há algo ainda mais significativo: reunir, no mesmo espaço e em torno do mesmo jogo, instituições cuja relação é tantas vezes marcada pela rivalidade. Benfica e FC Porto são adversários históricos, e essa oposição faz parte da identidade de ambos. Ainda assim, o futebol feminino consegue também criar pontes.

Adeptos marcaram presença no Fontelo
Adeptos marcaram presença no FonteloFPF

É aí que surge a palavra que melhor define este momento: agregador.

O futebol feminino agrega. Agrega clubes, federação, dirigentes, atletas, adeptos, comunicação social e uma sociedade que, progressivamente, reconhece nesta modalidade uma expressão importante do nosso desporto.

E essa capacidade de agregar é, talvez, uma das suas maiores forças.

Também a atenção dedicada a esta Supertaça pelos meios de comunicação social é reveladora dessa mudança. Os principais canais e órgãos de comunicação portugueses deram ao jogo espaço e visibilidade. A dimensão mediática atribuída ao encontro aproximou-se, em muitos momentos, daquela a que estamos habituados num grande jogo de futebol masculino.

E este é um passo particularmente importante.

Porque a evolução do futebol feminino não se faz apenas com o aumento do número de jogadoras, a profissionalização das equipas ou a criação de melhores condições de treino. Faz-se também quando um jogo desta dimensão passa a ser tratado pelos media como aquilo que é: um grande acontecimento desportivo.

Essa mudança de olhar tem um enorme impacto.

Leia também - Gira o disco e ganha o mesmo: Benfica bate FC Porto e conquista Supertaça feminina

Quanto maior for a exposição, maior será a possibilidade de criar referências para as jovens que começam agora a jogar futebol. Quanto maior for a visibilidade nos meios de comunicação, maior será a capacidade de atrair novos adeptos. E quanto mais natural se tornar a presença do futebol feminino no espaço mediático, menos será necessário justificar a sua importância.

A profissionalização é fundamental. Dá estabilidade às atletas, melhora as condições de trabalho, aumenta a exigência e eleva a qualidade competitiva. Mas o crescimento do futebol feminino não se mede apenas pelos contratos profissionais, investimentos ou troféus.

Mede-se também pela presença.

Pela presença das pessoas nos estádios; do futebol feminino na televisão e nos jornais; dos clubes, das federações, dos dirigentes e dos principais meios de comunicação; e de uma sociedade que começa a olhar para estas jogadoras simplesmente como aquilo que são: futebolistas.

Mas houve também um pormenor que merece ser olhado à luz dessa ideia de agregação.

O Benfica levantou a Supertaça
O Benfica levantou a SupertaçaFPF

Na entrega das medalhas, depois da vitória do Benfica por 5-1, a equipa encarnada fez guarda de honra ao FC Porto. O gesto não foi retribuído pela formação portista.

Não é um episódio que apague tudo aquilo que este dia representou. Nem deve ser transformado numa polémica maior do que aquilo que foi. Mas os símbolos contam.

Agregação não significa apagar a rivalidade. Significa competir, querer ganhar e defender uma identidade, sem que isso impeça o reconhecimento e o respeito pelo adversário.

Por isso mesmo, num dia em que o futebol feminino mostrou tantas imagens de aproximação, teria sido igualmente simbólico ver esse gesto partilhado pelas duas equipas.

Porque a cultura de uma modalidade também se constrói aí: nos grandes passos, mas também nos pequenos gestos.

A Supertaça do Fontelo foi, nesse sentido, mais do que um jogo entre FC Porto e Benfica.

Foi o retrato do momento que o futebol feminino português atravessa: de crescimento, de afirmação, de visibilidade e de união em torno de uma modalidade que conquistou, por mérito próprio, um lugar cada vez mais relevante no desporto nacional.

E talvez seja essa a verdadeira dimensão deste fenómeno: o futebol feminino já não pede apenas espaço.

Está a ocupar o seu espaço.

E, cada vez mais, fá-lo de forma agregadora.

Artigo de opinião da autoria de Gonçalo Alves
Artigo de opinião da autoria de Gonçalo AlvesFlashscore

Futebol