Recorde as incidências da partida
Há momentos no futebol que ultrapassam aquilo que acontece dentro das quatro linhas. A Supertaça feminina, disputada no Fontelo, em Viseu, entre FC Porto e Benfica, foi um desses momentos.
Mais do que a atribuição de um troféu, o jogo serviu para mostrar a força, a vitalidade e, sobretudo, o caminho que o futebol feminino está a percorrer em Portugal. Um caminho que já não se faz apenas de crescimento desportivo, mas também de afirmação social, institucional e profissional.
O futebol feminino é hoje um fenómeno social.
E é assim porque está cada vez mais integrado na nossa sociedade. Porque é cada vez mais visto, discutido e acompanhado. Porque deixou de ser uma realidade à margem do futebol para conquistar espaço nos estádios, nos meios de comunicação, nas estruturas dos clubes e, sobretudo, no imaginário de quem acompanha o desporto.
E foi precisamente no Fontelo que essa dimensão social ganhou uma imagem particularmente forte.
Na tribuna, estavam os presidentes de dois dos maiores clubes portugueses. Com eles, o presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Pedro Proença, e outros responsáveis da estrutura federativa. Diferentes clubes, diferentes interesses e diferentes responsabilidades, reunidos para assistir a um jogo de futebol feminino.
Pode parecer apenas um detalhe protocolar. Não é.
É um sinal.
O futebol tem uma enorme capacidade de aproximar pessoas. Mas, neste caso, há algo ainda mais significativo: reunir, no mesmo espaço e em torno do mesmo jogo, instituições cuja relação é tantas vezes marcada pela rivalidade. Benfica e FC Porto são adversários históricos, e essa oposição faz parte da identidade de ambos. Ainda assim, o futebol feminino consegue também criar pontes.

É aí que surge a palavra que melhor define este momento: agregador.
O futebol feminino agrega. Agrega clubes, federação, dirigentes, atletas, adeptos, comunicação social e uma sociedade que, progressivamente, reconhece nesta modalidade uma expressão importante do nosso desporto.
E essa capacidade de agregar é, talvez, uma das suas maiores forças.
Também a atenção dedicada a esta Supertaça pelos meios de comunicação social é reveladora dessa mudança. Os principais canais e órgãos de comunicação portugueses deram ao jogo espaço e visibilidade. A dimensão mediática atribuída ao encontro aproximou-se, em muitos momentos, daquela a que estamos habituados num grande jogo de futebol masculino.
E este é um passo particularmente importante.
Porque a evolução do futebol feminino não se faz apenas com o aumento do número de jogadoras, a profissionalização das equipas ou a criação de melhores condições de treino. Faz-se também quando um jogo desta dimensão passa a ser tratado pelos media como aquilo que é: um grande acontecimento desportivo.
Essa mudança de olhar tem um enorme impacto.
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Quanto maior for a exposição, maior será a possibilidade de criar referências para as jovens que começam agora a jogar futebol. Quanto maior for a visibilidade nos meios de comunicação, maior será a capacidade de atrair novos adeptos. E quanto mais natural se tornar a presença do futebol feminino no espaço mediático, menos será necessário justificar a sua importância.
A profissionalização é fundamental. Dá estabilidade às atletas, melhora as condições de trabalho, aumenta a exigência e eleva a qualidade competitiva. Mas o crescimento do futebol feminino não se mede apenas pelos contratos profissionais, investimentos ou troféus.
Mede-se também pela presença.
Pela presença das pessoas nos estádios; do futebol feminino na televisão e nos jornais; dos clubes, das federações, dos dirigentes e dos principais meios de comunicação; e de uma sociedade que começa a olhar para estas jogadoras simplesmente como aquilo que são: futebolistas.
Mas houve também um pormenor que merece ser olhado à luz dessa ideia de agregação.

Na entrega das medalhas, depois da vitória do Benfica por 5-1, a equipa encarnada fez guarda de honra ao FC Porto. O gesto não foi retribuído pela formação portista.
Não é um episódio que apague tudo aquilo que este dia representou. Nem deve ser transformado numa polémica maior do que aquilo que foi. Mas os símbolos contam.
Agregação não significa apagar a rivalidade. Significa competir, querer ganhar e defender uma identidade, sem que isso impeça o reconhecimento e o respeito pelo adversário.
Por isso mesmo, num dia em que o futebol feminino mostrou tantas imagens de aproximação, teria sido igualmente simbólico ver esse gesto partilhado pelas duas equipas.
Porque a cultura de uma modalidade também se constrói aí: nos grandes passos, mas também nos pequenos gestos.
A Supertaça do Fontelo foi, nesse sentido, mais do que um jogo entre FC Porto e Benfica.
Foi o retrato do momento que o futebol feminino português atravessa: de crescimento, de afirmação, de visibilidade e de união em torno de uma modalidade que conquistou, por mérito próprio, um lugar cada vez mais relevante no desporto nacional.
E talvez seja essa a verdadeira dimensão deste fenómeno: o futebol feminino já não pede apenas espaço.
Está a ocupar o seu espaço.
E, cada vez mais, fá-lo de forma agregadora.

