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"Trago um pouco da garra transmontana para o meu futebol"
- Quais são as suas primeiras memórias relacionadas com o futebol?
Essa resposta é muito fácil! As minhas primeiras memórias são a jogar com o meu irmão no pátio de casa. Ele sempre foi muito ligado ao futebol e fez também a formação no Grupo Desportivo de Chaves, tal como eu. Em casa era sempre a bola, andávamos sempre os dois a jogar. Depois, isso passou também para a escola: nos intervalos, estávamos sempre no campo com a bola. O futebol sempre fez parte de forma muito natural da minha vida.
- É transmontana. Que importância têm essas raízes no seu percurso enquanto jogadora?
Fala-se muito da garra transmontana, da força, e eu acho que trago um pouco disso para o meu futebol. Considero-me uma jogadora agressiva, com garra, que dá tudo em campo. Acho que essas são características que vêm muito do ambiente onde cresci.

- Quando surgiu a primeira oportunidade de integrar um clube?
Fiz toda a minha formação no Grupo Desportivo de Chaves. Desde cedo dizia à minha mãe que queria jogar num clube, tal como o meu irmão. Fiz a formação toda com rapazes até aos 17 anos, até ao último ano de juvenis. Entretanto, surgiu a regra que limita a participação das jogadoras com rapazes, por questões físicas e de proteção, e foi aí que surgiu a oportunidade de ir para o SC Braga, a minha primeira equipa de futebol feminino.
Tive de sair de casa ainda menor e ir viver para Braga. Foi uma mudança exigente, até porque coincidiu com o último ano do secundário. Tive de deixar os meus amigos e criar novas amizades. A transição do futebol masculino para o feminino também trouxe algumas dificuldades, porque são realidades diferentes, mas acabou por ser uma experiência muito positiva. Foi o primeiro grande desafio fora de casa e muito importante para a minha carreira, até porque o SC Braga já era uma equipa competitiva e a lutar por títulos.

De Braga a Lisboa ao mestrado em Biotecnologia: "Foi exigente"
- A ida para o SC Braga foi o momento em que percebeu que poderia fazer carreira no futebol feminino?
Essa ideia já estava presente, mas esse passo acabou por reforçá-la. Ao tomar essa decisão, estava a abdicar de muita coisa e a mudar a minha vida, o que mostra que era algo sério. Foi um momento de compromisso com esse caminho.
- Depois surge a mudança para Lisboa (Benfica). Como foi essa adaptação?
Foi um pouco mais fácil, porque o ano em Braga já me tinha dado experiência de estar fora de casa. Claro que Lisboa está mais longe e isso pesa, sobretudo na distância até casa, mas já fui mais preparada. Além disso, fui com colegas que já conhecia e tinha amigas próximas, como a (Andreia) Faria, com quem já tinha partilhado balneário nas seleções distrital e nacional. Isso facilitou muito a adaptação. Foi também o ano em que entrei na faculdade, o que ajudou a criar uma nova rotina.
- Que curso tirou?
Licenciei-me em Biologia e depois fiz mestrado em Biotecnologia.
- Como foi conciliar os estudos com o futebol?
Foi exigente. As horas do dia são limitadas e há sempre essa gestão entre treinos, estudo e descanso. Mas sempre foi um objetivo pessoal e algo que me foi incutido. O futebol é a minha carreira, mas sempre ouvi falar da importância de ter um plano B. Hoje o futebol feminino já permite viver com melhores condições, mas continua a crescer e sabemos que a carreira é curta. Ter uma alternativa sempre foi importante para mim. Além disso, é uma área de que gosto muito, o que tornou tudo mais fácil. Agora que terminei, posso focar-me a cem por cento no futebol.

Gaia e Istambul: "Foram anos muito importantes"
- Seguimos viagem pelo seu percurso. Depois de SC Braga e Benfica, segue-se o Valadares. O que lhe deram os quatro anos em Gaia?
Deram-me muito. Foi onde realmente cresci enquanto jogadora. No SC Braga e no Benfica não tinha tantos minutos, e no Valadares ganhei espaço, confiança e continuidade. Tornei-me uma jogadora da casa e assumi responsabilidades, chegando a capitã. Foram anos muito importantes, com muitos jogos e muita evolução. Sinto que foi ali que me tornei a jogadora que sou hoje.
- Depois vai para a Turquia. A experiência no estrangeiro era um objetivo?
Sim, e continua a ser. Surgiu numa altura ideal, depois de terminar o mestrado. Foi um ano muito exigente a nível académico e, quando terminei a tese, que foi algo muito desgastante, senti que podia dedicar-me totalmente ao futebol. Apareceu a oportunidade na Turquia e decidi arriscar. Acho que fiz bem, pois foi uma experiência muito positiva.
- O que lhe trouxe essa experiência?
Sobretudo crescimento pessoal. Estar noutro país, com outra cultura, não foi fácil no início, mas ajudou-me muito a evoluir. Em termos profissionais, foi também importante, porque é um futebol mais físico e rápido, diferente da Liga portuguesa, que é mais tática.
- Viveu em Istambul...
Sim, sim. Istambul tem a mesma população de Portugal. Estava mesmo ao pé do rio, a cidade é linda, com muitos turistas e uma cultura muito bonita.

Presente no Damaiense: "Vamos em busca da nossa felicidade"
- O que a levou a regressar a Portugal e a aceitar o projeto do Damaiense?
Havia alguma indefinição e também estava a aguardar decisões no estrangeiro. Quando o Damaiense confirmou que iria competir na Liga portuguesa e me apresentou o projeto, decidi aceitar. É uma liga que conheço bem e fez sentido regressar. Temos a sorte de ter muito boas condições e viver no Algarve é espetacular.
- No entanto, em termos desportivos não têm corrido da melhor forma. Como tem sido lidar com as dificuldades da época?
Tem sido um processo muito exigente. Tivemos um início atípico, com poucos treinos e sem uma verdadeira pré-época. O plantel era curto e surgiram várias dificuldades, incluindo lesões. Apesar disso, temos evoluído e nota-se melhoria de jogo para jogo. Sabemos que estamos numa posição complicada, no último lugar, que dá a despromoção direta, mas enquanto for matematicamente possível, vamos lutar até ao fim.

- O que é que este contexto lhe tem ensinado?
Sobretudo resiliência. Nem sempre as coisas correm como esperamos, mas temos de continuar a trabalhar com consistência. Acredito muito no processo e no trabalho diário. Esta equipa merece ser feliz, pois teve muitos desafios e obstáculos... Vamos em busca da nossa felicidade.
- Para quem não conhece o projeto do Damaiense, como se apresenta esta equipa que joga atualmente no Algarve?
É um projeto muito interessante, que oferece excelentes condições. Viver no Algarve e jogar no Estádio do Algarve, que é fantástico, é uma mais-valia enorme. É muito positivo ver uma infraestrutura destas ao serviço do futebol feminino.
O Damaiense já está há algum tempo na Liga e dispõe de boas condições, embora não tenha conseguido organizar-se da melhor forma esta época, devido ao atraso da decisão da Federação. Foi um ano de mudança e o facto de tudo ter acontecido tão tarde acabou por dificultar a estruturação ao longo da temporada.
Ainda assim, é um projeto que aposta claramente no crescimento do futebol feminino e tem uma visão de futuro bem definida, com a ambição de continuar a desenvolver-se, tanto ao nível da equipa principal como das camadas jovens.
- Ainda assim, o que espera que esta época lhe dê?
Esta época trouxe desafios diferentes. É a primeira vez que estou numa situação de possível descida, mas temos uma equipa jovem e isso obriga-nos a dar ainda mais. Sendo uma das mais experientes, assumo essa responsabilidade. É uma pressão positiva: temos três finais pela frente e vamos lutar até ao fim.

O sonho seleção: "Se surgir a oportunidade, vou agarrá-la com orgulho"
- Outro capítulo da sua história: a seleção. Que memórias guarda?
Guardo boas memórias e um grande sentimento de orgulho. Fiz toda a formação até às sub-23 e realizei muitos jogos. Essa experiência internacional trouxe-me maior competitividade, agressividade e a oportunidade de jogar com atletas de outros países. Tudo isso contribuiu para o meu crescimento enquanto jogadora.
- Ainda sonha com a seleção A?
Claro que sim. Seria hipócrita dizer que não. Qualquer jogadora quer chegar ao mais alto nível e a seleção está nesse patamar. Mas neste momento estou focada em ajudar o clube. Se continuar a crescer, acredito que a oportunidade pode surgir. E se surgir, vou agarrá-la com muito orgulho. Mas também sei que temos jogadoras muito experientes e competentes, por isso tenho os pés bem assentes na terra.

- Noutro âmbito, como vê a evolução do futebol feminino em Portugal?
O crescimento tem sido muito evidente nos últimos anos. Nota-se nas competições, na seleção, na presença de adeptos e na visibilidade. A Liga portuguesa está muito competitiva, tanto no topo como na luta pela manutenção. Vai ser até ao fim. Ainda não estamos ao nível de outros países, como Espanha, mas estamos a dar passos firmes nesse sentido.
- Em relação ao próprio futuro, como é que o imagina?
Fui ponderada na fase dos estudos, mas agora estou mais aberta a voltar a competir no estrangeiro ou a continuar em Portugal. Quero crescer, estar em projetos desafiantes, que me ponham à prova e me façam evoluir. Fiz 26 anos, mas ainda tenho um longo caminho pela frente e sinto que ainda posso dar muito ao futebol. É uma estrada longa. Para já, não tenho nada decidido para a próxima época, mas vou continuar a jogar.

"O futebol faz parte da minha essência"
- Quem é a Inês fora dos relvados?
Sou uma pessoa mais calma e ponderada. Dentro de campo sou mais agressiva e competitiva, mas fora dele sou tranquila e equilibrada.
- O que é que a Biologia e a Biotecnologia lhe dão em relação ao futebol?
São áreas completamente diferentes, mas dão-me equilíbrio. Gosto desse contraste. A minha tese foi em Biotecnologia marinha, nada a ver... É uma forma de desligar do futebol e encontrar outro tipo de foco e tranquilidade.
- Se tivesse a oportunidade de encontrar o futebol na rua, o que lhe diria?
Vamos jogar? O futebol faz parte da minha essência. Estou sempre pronta para dar uns toques.

- E se pudesse falar com a Inês que cresceu em Chaves, o que lhe diria?
Diria para aproveitar o momento e desfrutar do jogo. O futebol é algo muito bonito e deve ser vivido com prazer. E, acima de tudo, para nunca desistir. Independentemente de onde se começa, se acreditarmos e formos consistentes, as oportunidades acabam por surgir.
- Por fim, quando terminar a carreira, como gostaria de ser lembrada?
Espero que seja ainda daqui a algum tempo (risos). Mas nessa fase gostaria de ser lembrada como uma jogadora que deu sempre tudo em campo. Com garra, entrega e compromisso com a equipa. É isso que quero deixar como marca.
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