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Exclusivo com Joãozinho: "Portugal vai jogar muito melhor com Jorge Jesus"

Joãozinho teve passagem marcante pelo Estoril
Joãozinho teve passagem marcante pelo EstorilVALTER GOUVEIA / NURPHOTO / NURPHOTO VIA AFP

Ainda joga, mas já prepara o futuro como treinador. Joãozinho, antigo jogador do SC Braga, assume o Estoril Praia como clube do coração e admite o desejo de regressar um dia para trabalhar no emblema da Linha. Nesta entrevista a João Paulo Ribeiro, do Flashscore, fala também da Seleção Nacional, agora orientada por Jorge Jesus, a quem reconhece grande qualidade.

"Acredito que o Oriental poderá chegar a outro patamar"

- Joãozinho, bem-vindo ao Flashscore. Obrigado por esta entrevista. Começava pelo seu projeto atual. Como é que foi descer aos distritais com o Oriental e como está a ser esta nova vida do clube?

Fui para os distritais por iniciativa própria. Queria ter mais tempo para mim e já estava um pouco cansado dos estágios e de andar constantemente a fazer viagens.

Depois da saída do Estoril, já tinha em mente não continuar durante muito mais tempo no futebol profissional. Tendo um clube de que gosto, ao lado de casa e no bairro onde vivo há muitos anos, a minha preferência passou por ajudar o Oriental a atingir outro patamar e a tornar-se um clube mais profissional.

Queria transmitir algumas das minhas vivências, experiências e conhecimentos, porque estamos a falar de uma estrutura amadora, onde ainda existe muito por fazer. Sabia que poderia dar esse contributo.

Hoje, o clube está muito melhor do que quando cheguei. Ainda falta bastante ao nível da organização, mas estamos a evoluir passo a passo. Agora, com a chegada do mister Costinha, que também é uma pessoa do futebol e tem muito conhecimento da área, acredito que o clube poderá chegar a outro patamar.

Finalmente, existe também um projeto desportivo. Foi sobretudo por iniciativa própria e pela vontade de ter mais tempo para a família que tomei esta decisão. Não encaro propriamente como descer patamares. Já tinha também concluído o curso de treinador e queria começar a preparar-me, com mais tempo, para o pós-carreira.

- Falou do curso de treinador. É isso que se vê a fazer depois de terminar a carreira de futebolista?

Sim, poderá passar por aí. Quis tirar já o curso para que, se surgir essa oportunidade, não tenha de estar simultaneamente numa equipa técnica e a fazer a formação. Com o curso concluído, caso integre uma equipa técnica, posso concentrar-me totalmente naquilo que tenho para fazer.

Já fui abordado uma ou outra vez para integrar equipas técnicas, mas não senti que fosse o momento certo. Ainda desfruto muito de jogar futebol. Continuo a ter prazer em levantar-me e ir treinar. No dia em que isso deixar de acontecer, vou parar, porque não gosto de enganar ninguém nem de fazer algo contra aquilo que a minha cabeça e o meu coração me dizem.

Enquanto continuar a sentir esta paixão e esta ambição, faz sentido jogar. Cuido bastante de mim, faço ginásio frequentemente e continuo a sentir-me muito bem fisicamente.

É verdade que a velocidade já não é a mesma de outros anos (risos), mas continuo perfeitamente capaz de aguentar um jogo de futebol e a sua intensidade. É por isso que ainda jogo.

Do "amor" ao Estoril ao "ponto baixo" no Sporting: "Muito desorganizado"

- Somou 223 jogos na Liga. Se tivesse de fazer um balanço do percurso até agora, quais escolheria como os pontos mais altos e mais baixos da carreira?

Como pontos altos, começaria pela estreia na Liga, pelo Beira-Mar, no Estádio dos Barreiros. Nunca mais me vou esquecer. É um estádio que ficará para sempre marcado na minha vida.

Outro momento foi disputar o play-off da Liga dos Campeões pelo APOEL, frente ao Ajax. Era aquele Ajax que, na temporada anterior, tinha chegado às meias-finais da Champions, recheado de grandes jogadores. Jogar naquele estádio foi fantástico.

Depois, naturalmente, ser campeão pelo Estoril. É um clube pelo qual tenho um carinho enorme e até posso dizer um grande amor. É claramente a minha casa.

Sempre que vou ao Estoril adoro estar lá e sinto que as pessoas também gostam de me rever. É um clube onde me imagino novamente a trabalhar no futuro, porque é realmente muito especial na minha vida.

Ganhar um título pelo Estoril, colocar novamente o clube na Liga e depois fazer grandes temporadas foi fantástico. Tivemos, por exemplo, uma época em que terminámos em oitavo e, até março, ainda andávamos na luta pelas competições europeias com o mister Bruno Pinheiro.

Quanto aos pontos baixos, felizmente nunca tive grandes problemas com lesões. Talvez destaque a passagem pelo Sporting. Cheguei muito novo, sem qualquer experiência, e encontrei também um Sporting que atravessava um período muito complicado.

Joãozinho passou pelo Sporting
Joãozinho passou pelo SportingMIGUEL RIOPA / AFP

- Foi uma época muito instável no clube.

Sim, era um Sporting muito desorganizado e com muitos problemas internos. Eu cheguei sem conhecer a realidade de um grande clube e não consegui corresponder àquilo que pretendia nem mostrar o meu melhor futebol.

Também senti muita pressão porque o Sporting não vivia bons dias. Quando não estamos bem e a nossa cabeça também não está bem, torna-se muito mais difícil render dentro de campo.

Eu era um miúdo que, apenas um ano e meio antes, ainda jogava na antiga II Divisão B. Passar praticamente de repente para um grande clube representa um enorme choque de realidade, sobretudo quando encontramos esse grande clube nas condições em que o Sporting estava naquela altura.

- Não ter chegado à seleção nacional é uma mágoa que fica ou é uma situação que já ultrapassou?

Não fica mágoa nenhuma. Na altura em que estava no SC Braga, fiz uma grande temporada e cheguei a ser pré-convocado. Pensei que poderia ter uma oportunidade de ser chamado, pelo menos, para um particular com a Holanda, no Algarve, mas acabou por não acontecer.

A minha grande preocupação foi sempre melhorar aquilo que tinha de melhorar. Ofensivamente, era um jogador que já se destacava, nomeadamente pela capacidade de cruzamento. Era rápido e tinha facilidade em chegar à frente, mas, naquela altura, pensava que o futebol era só para atacar e que, para trás, tinham de vir os outros.

Defensivamente, tinha muitas lacunas. Depois encontrei treinadores que me deram bases importantes e me ajudaram a evoluir nesse aspeto.

Quando regressei do estrangeiro para o Estoril, já tinha adquirido essas valências defensivas. A maturidade também me permitiu aliar a capacidade ofensiva que sempre tive a uma vertente defensiva muito mais forte.

Tive de mudar o meu mindset. Era um lateral que só pensava em atacar, defendia mal e não controlava bem a profundidade porque estava demasiado focado na bola.

Hoje, até por já ter feito o curso de treinador, percebo a importância de determinados pormenores aos quais um defesa tem de estar atento. Há 13 ou 14 anos, provavelmente olhava para algumas dessas coisas e pensava: 'Para que é que tenho de estar atento a isto? É apenas um pormenor.'

Hoje percebo que são precisamente esses pormenores que fazem toda a diferença para sermos melhores jogadores.

O gráfico-radar de Maxi Araújo na Liga 2025/26
O gráfico-radar de Maxi Araújo na Liga 2025/26Opta by Stats Perform

"Não acho que o Sporting precise de ir ao mercado por um lateral-esquerdo"

- Vamos continuar a falar do Sporting, mas olhando agora para o presente. Foi lateral-esquerdo e as últimas notícias apontam para a procura de uma alternativa a Maxi Araújo. Concorda que o Sporting deva ir ao mercado ou existem soluções internas para a posição?

Não acho que o Sporting precise de ir ao mercado. Para mim, tem o melhor lateral-esquerdo do campeonato, que é o Maxi Araújo. De longe. Depois, tem um miúdo na equipa B que ainda agora, frente ao Estrela da Amadora, deu garantias.

Caso seja necessário, e já aconteceu na temporada passada, o Fresneda também pode jogar como lateral-esquerdo e o Vagiannidis como lateral-direito. Não acredito que o Sporting fique mais fraco por recorrer a essas soluções.

Naturalmente, se não jogar aquele que considero o melhor lateral-esquerdo do campeonato, o Sporting ficará um pouco mais fragilizado naquele corredor. Mas não considero que isso obrigue o clube a ir ao mercado, porque as outras opções conseguem dar conta do recado.

- A seleção nacional vai entrar numa nova era com Jorge Jesus, um treinador cujo trabalho conheces e tens acompanhado. Como perspetivas o futuro próximo de Portugal, ainda com Cristiano Ronaldo, ao que tudo indica, nos próximos tempos?

Vejo um futuro muito melhor. Aliás, se dependesse de mim, Jorge Jesus teria assumido a seleção ainda antes do Mundial. Acho que é um treinador diferenciado e fantástico, dos melhores que vi e cujo trabalho continuo a acompanhar, inclusivamente pelo sucesso que teve no estrangeiro.

É um treinador muito forte nos detalhes e os jogadores sabem que têm de ir ao limite com ele, porque, se não forem, não jogam. Acho que a nossa seleção precisa disso. Temos uma seleção recheada de grandes jogadores e grandes egos, e não vejo ninguém melhor do que Jorge Jesus para controlar esse balneário.

Acredito que Portugal vai jogar muito melhor e que conseguiremos tirar maior partido do enorme talento que temos. Ofensivamente, espero uma equipa diferente e não apenas melhor: muito melhor.

Naturalmente, Jorge Jesus também terá de se preparar para uma realidade diferente, porque treinar uma seleção não é igual a trabalhar num clube. Num clube, temos os jogadores diariamente. Na seleção, podemos estar um mês ou até três meses sem trabalhar com eles.

A Liga das Nações pode ser importante nesse processo. Das três grandes competições, é a menos importante, apesar de Portugal ser o atual detentor do troféu. Estes quatro jogos em dez dias podem permitir-lhe trabalhar muitas coisas.

E existe uma grande vantagem, que o próprio Jorge Jesus referiu na apresentação: muitos dos jogadores já trabalharam com ele e conhecem bastante bem as ideias que pretende implementar na seleção.

Os próximos jogos de Portugal
Os próximos jogos de PortugalFlashscore

O papel de comentador e o futuro nos relvados: "Penso ano a ano"

- Começámos pelo passado e vamos terminar com o futuro. Ainda se vês a jogar mais um ano? Paralelamente, tens também desenvolvido uma carreira como comentador. O que podemos esperar dos próximos tempos do Joãozinho?

Gosto muito de ser comentador e de falar daquilo de que gosto, que é futebol. Tento fazê-lo sem entrar em polémicas e sendo sempre coerente naquilo que digo. É um trabalho de que tenho gostado muito.

Quanto a jogar, penso ano a ano. Chego ao final de cada época e tento perceber se o corpo ainda permite continuar e se mentalmente continuo com o chip positivo para encarar mais uma temporada. Acima de tudo, procuro perceber se ainda existe a mesma paixão e ambição.

Se tudo isso continuar presente, porque não jogar? Há muitos jogadores que jogam até mais tarde e continuam a fazê-lo a um bom nível. O importante é cuidarmos de nós. Se deixarmos de o fazer, aí já não vale a pena continuar.

Pela forma como cuido de mim, como me alimento, como descanso e pelo trabalho de ginásio que faço todos os dias, sinto que continuo bem. As próprias pessoas à minha volta dizem-me que estou muito bem fisicamente para a idade que tenho e que, muitas vezes, nem parece que tenho esta idade. Isso também me dá motivação para continuar.

Quando deixar de sentir aquela ambição e aquela paixão de que falava, então será o momento de arrumar as botas e dar o lugar a outros.

Nessa altura, quero também poder contribuir para ajudar jogadores mais jovens a não cometerem alguns dos erros que eu próprio cometi. Seja por não descansar da melhor forma ou, por exemplo, por não ter procurado aprender mais cedo determinados aspetos defensivos.

Hoje tento transmitir esses pormenores aos mais novos. São coisas às quais talvez não deem grande importância nesta fase, tal como eu também não dava, mas quero ajudá-los a absorvê-las mais cedo para que possam tornar-se jogadores mais fortes no futuro.