Em entrevista exclusiva ao Flashscore, o internacional brasileiro falou sobre a transformação da equipa após a época desastrosa de 2024/25, os métodos do treinador italiano, o ambiente vivido no balneário perante as críticas exteriores e os momentos emocionalmente mais duros da temporada, marcados pelas perdas de Pinto da Costa, Diogo Jota e Jorge Costa.
Pepê recordou ainda a importância de Thiago Silva e Luis Díaz no seu crescimento, revelou a admiração por Neymar, a nova era do Brasil com Ancelotti, abordou o regresso do FC Porto à Liga dos Campeões e deixou uma mensagem especial aos adeptos portistas, depois de uma época em que, garante, o grupo conseguiu "voltar a dar orgulho" ao clube.

"Farioli gosta de extrair o melhor de cada jogador"
- No Flashscore temos o prazer de visitar, no Olival, um dos novos campeões nacionais de futebol. Na verdade, alguém que repete uma façanha que já viveu no passado. Pepê, como se sente?
É realmente um sentimento incrível. Muito bom estar novamente no “cogumelo” (n.d.r: espaço onde a equipa celebrou a conquista do título), com todos os nossos adeptos. É uma sensação única e fico muito feliz por poder repeti-la mais uma vez.
- Foi, com certeza, um ano duro para a equipa, depois de uma época que ficou bastante abaixo daquilo que o FC Porto desejava e daquilo que é normal no clube.
Foi uma época muito difícil. Sabíamos que, depois do campeonato da época passada, precisávamos de melhorar em muitas coisas, e foi isso que procurámos fazer ao longo desta temporada. Acho que o resultado fala por si: o trabalho foi muito bem feito e todos estivemos muito comprometidos com o objetivo final, que era sermos campeões. Graças a Deus, conseguimos conquistar esse título.

- Não quero entrar em comparações com o passado, mas quando Francesco Farioli chega e traz os seus métodos, como é que o plantel reage? Sabemos que ele é muito enérgico na forma como trabalha.
A reação foi muito boa. Sabemos da energia dele. O mister é alguém que gosta muito de trabalhar e de extrair o melhor de cada jogador. Acho que conseguimos perceber muito bem, com clareza, tudo aquilo que ele queria e aquilo que transmitia nos treinos. Isso foi fundamental para conseguirmos colocar as ideias em prática nos jogos e fazer exibições tão consistentes como fizemos.
- A equipa entrou muito forte. Entrava quase sempre a ganhar e, mais do que isso, muitas vezes parecia esmagar os adversários. Sentiram-se muito fortes naquele arranque de época?
Sim, sem dúvida. Isso é fruto de muito trabalho. Como disse, o mister gosta muito de trabalhar e nós percebemos muito bem aquilo que ele pretendia. Conseguimos transportar para os jogos o que fazíamos nos treinos e isso foi fundamental para alcançarmos os resultados e, acima de tudo, para entusiasmar os nossos adeptos.

"É estranho ouvir certas coisas sobre nós"
- O Pepê é um dos jogadores mais antigos do plantel. Está cá há cinco anos, vai para seis. Foi campeão há quatro anos e voltou agora a repetir esse feito. Imagino que jogadores como o Pepê ou o Diogo (Costa) tenham sido fundamentais para ajudar o grupo a dar a volta depois da época passada.
Foi uma época muito difícil e ninguém estava habituado ao que aconteceu no ano passado. Sabíamos que não podia repetir-se e que precisávamos de fazer as coisas de forma diferente. Procurámos ajudar principalmente os jogadores que chegaram agora, acolhê-los da melhor forma possível para que se sentissem em casa. Foi isso que aconteceu e isso permitiu-lhes mostrar aquilo que sabem fazer dentro de campo. Acho que isso foi fundamental para darmos a volta por cima e fazermos uma época incrível.
- Chegou muita gente nova. O Gabri (Veiga) já vinha do Mundial de Clubes, mas depois chegaram jogadores que acabaram por ser fundamentais. Pareceu, visto de fora, que se adaptaram muito rapidamente. Como foi esse processo de integração?
Foi um processo fácil porque, com a qualidade que eles têm, tudo se torna mais simples. Procurámos fazer com que se sentissem em casa, com tranquilidade e confiança para continuarem a fazer aquilo que já faziam antes. E a qualidade deles ficou bem evidente. São jogadores com um potencial enorme, sobretudo os mais novos. Ficamos muito felizes por termos contribuído para que a adaptação deles corresse bem.
- Duas jornadas antes do fim chegou a consagração do título. Houve quem dissesse que os festejos tiveram alguns exageros, algo que o próprio presidente (André Villas-Boas) admitiu. Foi uma forma de libertar a pressão acumulada durante a época?
A época foi muito desgastante. Depois de tanto tempo sem ganhar, sabíamos que precisávamos de dar uma resposta, sobretudo dentro de campo. Foi isso que procurámos fazer durante toda a temporada. Conseguimos voltar a trazer o título para os nossos adeptos e para o clube. E claro, depois de uma época tão intensa, acabámos por festejar da melhor forma possível.
- Os responsáveis do futebol falam muito em “blindar” o balneário. Visto de fora, o plantel parecia muito unido, mas houve sempre ruído exterior. Por exemplo, algumas declarações vindas do Sporting. Isso mexeu convosco?
Não interfere muito no nosso trabalho. Somos muito blindados em relação a isso. Sabemos que o importante é demonstrar dentro de campo. Procuramos focar-nos no nosso trabalho e em melhorar aquilo que precisamos de melhorar. O ruído exterior não entra aqui dentro.
- Mas quando dizem que 'o FC Porto não joga nada', isso não toca um bocadinho?
É estranho ouvir certas coisas. Depois houve algumas brincadeiras entre os jogadores, mas isso nunca nos definiu nem mexeu com a nossa cabeça. Sabemos bem aquilo que temos de fazer dentro de campo.
Dos elogios de Farioli à perda de Jorge Costa: "Mexeu muito connosco"
- Falando do Sporting, lembro-me da meia-final da Taça, quando o Francesco Farioli usou o Pepê como exemplo do espírito deste grupo, naquela jogada final em que fez um sprint enorme para evitar o 2-0. É isso que significa deixar tudo em campo?
Sem dúvida. Ainda mais no FC Porto. A mentalidade do clube é essa. Seja no primeiro ou no último minuto, temos de dar o máximo. Sentimos essa paixão dos adeptos em cada lance e tentamos corresponder dentro de campo. Esse é o espírito do FC Porto e é fundamental para estarmos mais unidos com os adeptos.
- Sente-se um exemplo para os mais novos ao ser citado dessa forma pelo treinador?
Fico muito feliz. É o reconhecimento do trabalho que tenho vindo a fazer. Ter esse reconhecimento do mister e do grupo motiva-me ainda mais a continuar a evoluir.
- O que custou mais perder: Liga Europa ou Taça de Portugal?
As duas. Queríamos conquistar todos os troféus possíveis. Custaram-nos bastante essas eliminações, mas sabíamos que não podíamos deixar-nos abalar porque ainda tínhamos o campeonato pela frente. O grupo soube lidar bem com isso.
- Em termos emocionais, a época começou com a perda de Pinto da Costa, depois veio a morte de Diogo Jota e também a perda de Jorge Costa. Não deve ter sido fácil lidar com tudo isso.
Não foi nada fácil. Estávamos muito motivados na pré-época e essas notícias tiveram um impacto enorme em todos nós. Mas também serviram como motivação para continuarmos o caminho que eles gostariam que seguíssemos. Mexeu muito connosco, mas conseguimos lidar da melhor forma possível.
- Foram buscar força também à tristeza?
Sim. Sabemos que depois da tempestade vem sempre a bonança. Foi algo muito duro, mas tivemos de encontrar forças para continuar e dar alegria às pessoas.

A "referência" Neymar e o "irmão mais velho" Thiago Silva
- Falando mais de si: como foi receber um jogador como Thiago Silva?
Foi incrível. Eu e o William (Gomes) até brincávamos porque nem sabíamos como chegar perto dele. Sempre o vimos na televisão, um jogador de topo mundial, campeão de praticamente tudo. Quando chegou, parecia que éramos nós os novos no clube. É alguém que nos ajuda muito a evoluir.
- E não é só o jogador, é também a pessoa humana.
Exatamente. É como um irmão mais velho. Tem uma experiência enorme e ajuda-nos muito no crescimento.
- Enquanto jogador, em quem é que se revê mais?
No Neymar. Sempre foi a minha maior referência. Pela alegria, pela ousadia, pelo futebol brasileiro. Acho que inspirou grande parte da minha geração.
- Qual foi o adversário mais difícil que enfrentou?
O Declan Rice foi muito difícil. Parece que está em todo o lado. E, entre os centrais, o Gabriel Magalhães, do Arsenal, também foi muito complicado.

Champions e Ancelotti no Brasil: "Acredito que vai ser uma era muito vitoriosa"
- A Liga dos Campeões é um dos grandes atrativos da próxima época.
Sem dúvida. É uma competição diferente, com os melhores clubes do mundo. O FC Porto merece estar lá e nós estamos muito felizes por termos colocado o clube novamente na Champions. É algo que o clube merece. Temos de aproveitar as férias, descansar bem, porque a próxima época vai ser ainda mais desgastante.
- Finalmente vai ter férias a sério…
(Risos) Sim. Depois de dois anos, finalmente vou conseguir descansar de verdade.
- E vai ver o Mundial descansado em casa?
Sim, com a minha família, os meus amigos, o meu filho e a minha mulher. Aproveitar para descansar e voltar renovado.

- Como vê esta nova era Carlo Ancelotti no Brasil?
É novidade para nós, mas acredito que vai ser uma era muito vitoriosa. Quero muito voltar a ver o Brasil campeão do mundo. É a maior seleção do mundo.
- A melhor final seria Brasil-Portugal?
Não era má ideia… mas Brasil-Argentina também seria muito boa. (risos) É uma rivalidade histórica, muito boa, em que tem choque de culturas. É um jogo muito especial.
- Cinco anos depois, sente-se quase um brasileiro português?
Já sou quase português (risos). Amo estar aqui, a minha família ama estar aqui. O clube acolheu-me de forma incrível desde o primeiro dia. Fico muito feliz por tudo aquilo que o clube faz por mim.
"Luis Díaz foi fundamental para a minha adaptação ao FC Porto"
- Como foi chegar ao FC Porto e ter de lidar com a concorrência de Luis Díaz?
Quando o Luis chegou aqui, praticamente não tive hipótese. É um jogador incrível, que me inspirava muito. Para mim, foi muito importante tê-lo ao meu lado. Ajudou-me bastante no crescimento e na adaptação. Foi fundamental para perceber melhor o futebol europeu e também o que representa o FC Porto.
- Tem contrato por mais dois anos e continua a ser um jogador muito cobiçado. Como olha para o futuro?
Não penso muito nisso. Estou muito feliz no FC Porto. Conseguimos conquistar o título depois de uma época desgastante e, agora, o mais importante é aproveitar para descansar.
- Onde é que o Pepê se sente mais jogador?
Gosto muito de jogar entre linhas, nas costas do avançado, mas também me sinto confortável como extremo. Nessas posições consigo estar à vontade e fazer o meu futebol.
- Ao longo do tempo vimos um Pepê talvez menos exuberante no plano individual, mas mais importante para a equipa e para os equilíbrios. Sente-se bem nesse papel?
Com o passar do tempo fui adquirindo essas características. Antes procurava muito mais o um para um, mas fui percebendo melhor aquilo que o jogo pede. Ainda assim, isso continua dentro de mim. Gosto de ir para cima do adversário, procurar jogadas individuais e arriscar no um para um.

"Conseguimos voltar a dar orgulho aos adeptos"
- Pepê, para terminar: que mensagem deixa aos adeptos portistas?
Quero agradecer-lhes por esta época incrível e por todo o apoio. Sabemos que a época passada foi muito difícil, muito desgastante, em que não era o FC Porto, e reconhecemos isso. Conseguimos dar a volta por cima e dar-lhes motivos de orgulho. E na próxima época vamos continuar a trabalhar para corresponder às expectativas deles.
- Agora sim, última pergunta: esta entrevista também vai passar no Brasil. Que mensagem deixa aos seus compatriotas?
Que continuem a acompanhar-nos. O apoio e as mensagens deles são muito importantes para nós e para o crescimento do nosso futebol. Espero que continuem connosco nessa caminhada.
