Geórgia com Rodrigo Ramos: "Sinto-me novamente feliz a jogar futebol"

Rodrigo Ramos em destaque no Dinamo Tbilisi
Rodrigo Ramos em destaque no Dinamo TbilisiDinamo Tbilisi, Flashscore

O Flash pelo Mundo é a nova rubrica mensal do Flashscore. Neste espaço, traremos entrevistas exclusivas com portugueses que elevam bem alto a bandeira nacional além-fronteiras. O nosso 17.º convidado é Rodrigo Ramos, avançado do Dinamo Tbilisi, da Geórgia.

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Depois de uma passagem frustrante pela Arménia, Rodrigo Ramos voltou a encontrar estabilidade e confiança na Geórgia, onde procura relançar uma carreira marcada por várias mudanças e desafios. Em entrevista ao Flashscore, o camisola 13 do Dinamo Tbilisi recorda a desilusão por não se afirmar no Estoril, as expectativas criadas após a passagem pelo Tondela e as dificuldades sentidas longe de Portugal.

Formado no Benfica e com passagens pelo Belenenses e pela B SAD, o jovem avançado fala ainda sobre a paixão que mantém intacta pelo jogo e os objetivos que continua a perseguir. Apesar de reconhecer que se afastou de "mercados mais competitivos", Rodrigo mantém viva a ambição de atingir o principal escalão do futebol português, jogar a Liga dos Campeões e chegar à seleção nacional.

Rodrigo Ramos brilhou na Liga Revelação
Rodrigo Ramos brilhou na Liga RevelaçãoEstoril-Praia, SAD

"Estava à espera de ser aposta no Estoril"

- Rodrigo, começo por lhe perguntar como surgiu a oportunidade de ir para a Geórgia. Não é propriamente um país de que se ouça falar muito em Portugal. Como apareceu essa possibilidade?

Antes da Geórgia ainda estive na Arménia. Depois da época no Tondela, estava à espera de ser aposta no Estoril, fiz a pré-época toda e, em vários jogos de preparação, apenas tive 45 minutos frente ao Sporting B. 

Depois surgiu a hipótese de ir para a Arménia através do diretor desportivo do Ararat. Falou comigo, com os meus pais e com o meu empresário, apresentando-me uma proposta bastante tentadora, que me podia dar mais alguma visibilidade - achei que podia ser um passo importante, mesmo sabendo que podia estar a afastar-me um pouco dos mercados mais fortes. Só que as coisas não correram como esperava. Fiquei frustrado. Achava que ia ser um passo importante para mim e que podia mostrar o meu verdadeiro valor. Em seis meses, treinei sempre no máximo, não faltei a um treino nem tive lesões, mas praticamente não joguei. São coisas internas que não controlo...

- Nunca tentou perceber o motivo?

Falava constantemente com o diretor desportivo para perceber o que se passava. Mais tarde, percebi que era difícil ter oportunidades numa equipa em que havia jogadores internacionais, que eram primeira opção. Fui contratado para extremo, entro bem no primeiro jogo, a equipa ganha e, na semana seguinte, mudam-me de posição. Disseram que não podia jogar a extremo. São coisas internas que um jogador não controla.

Depois, em janeiro, avisaram-me já muito tarde que não contavam comigo... Coisas do futebol. Felizmente surgiu esta oportunidade no Dinamo e agora as coisas estão a correr bem. Estou a jogar, a ter minutos e alguns números.

Os números de Rodrigo Ramos
Os números de Rodrigo RamosFlashscore

- Quando surgiu a hipótese da Geórgia, o que imaginou encontrar?

A verdade é que antes de ir para a Arménia, o Dinamo já me tinha contactado. Só que, na altura, o negócio não fazia sentido para mim porque o Estoril queria renovar comigo, e eu não via lógica nisso, tendo em conta que não fui aposta durante dois anos seguidos. Depois da época que fiz na Liga Revelação (29 golos em 33 jogos) e no Tondela, senti que merecia mais oportunidades.

Quando finalmente vim para a Geórgia, encontrei um futebol diferente. Há muitos jogadores de qualidade, mas é um futebol muito menos tático e muito mais físico. A partir da segunda parte os jogos partem-se muito e torna-se um jogo mais de transições, sempre de um lado para o outro. É bastante diferente de Portugal.

- Existem muitas diferenças entre as equipas?

Do que tenho visto, não acho que exista uma diferença muito grande. Claro que as equipas de topo têm mais qualidade, mas mesmo as equipas que estão mais abaixo são complicadas porque têm um padrão muito físico e intenso. São jogos difíceis.

- Lida diariamente com muitos jogadores georgianos. Como os caracteriza enquanto jogadores e pessoas?

Há muitos jogadores com qualidade técnica. Tu olhas para eles e percebes que têm talento. Mas acho que lhes falta formação tática e estrutural que nós temos em Portugal. Enquanto pessoas, aqui são muito sociáveis. Na Arménia sentia muito mais separação entre os estrangeiros e os jogadores locais. Aqui é tudo mais natural e aberto.

- Como encontra o clube a nível de estruturas e condições?

Aqui na Geórgia estamos muito próximos daquilo que existe em Portugal. Temos academia, instalações próprias, boas condições e pessoas preocupadas connosco. Não falta nada. Na Arménia era um bocado diferente. Estamos a falar de um clube fundado há pouco tempo, ainda em crescimento. Mas já passou...

- A língua também foi um choque?

Muito. Vou ser sincero: nem tento aprender georgiano porque é extremamente difícil (risos). Falamos todos em inglês, mesmo que seja um inglês mais básico. Mas a linguagem do futebol acaba sempre por aproximar as pessoas.

Rodrigo Ramos, ao lado de Bracalli, começou a temporada na Arménia
Rodrigo Ramos, ao lado de Bracalli, começou a temporada na ArméniaArarat-Armenia

"Sabia que podia estar a afastar-me de mercados mais competitivos"

- E como é que a população vive o futebol na Geórgia?

Estou no maior clube da Geórgia e, pelo que me dizem, o futebol já foi vivido de forma ainda mais intensa em Tbilisi. Agora, com o novo treinador, que é uma figura histórica do clube, os adeptos estão novamente a aproximar-se. Nos jogos fora nota-se bastante apoio, porque os estádios são mais pequenos e ficam compostos. O nosso estádio é enorme e às vezes nem temos noção das pessoas que lá estão. No último jogo em casa estavam sete ou oito mil adeptos e eu nem tinha percebido.

- A nível individual, teve de adaptar alguma coisa no seu jogo?

Claro. Em todos os países temos de nos adaptar ao estilo do treinador e do campeonato. Felizmente acho que consigo adaptar-me relativamente bem a diferentes contextos. Aqui também ajuda termos jogadores com qualidade, porque isso facilita muito a integração.

- E fora de campo? Como tem sido viver em Tbilisi?

Estou a gostar mais de viver aqui. Tenho um português, um brasileiro e também o Osei, que passou pelo Paços de Ferreira e fala português, por isso vamos convivendo. Em relação à alimentação, o clube fornece almoço e eu normalmente levo comida para casa para o jantar. Nos dias de folga cozinho eu mesmo. Vou-me safando (risos).

- Como descreve Tbilisi a alguém que nunca esteve aí, comparando com Lisboa e Tondela, cidades que conhece bem?

Não se compara a Lisboa, claro, mas é uma cidade bonita. Tem mais um ar europeu do que Yerevan, na Arménia. Dá para passear e viver tranquilo. Tondela é completamente diferente. É uma realidade mais pequena, mais familiar, muito próxima das pessoas. Acho que percebes o que quero dizer.

- Depois de uma primeira experiência tão frustrante na Arménia, o que espera retirar desta época?

Foi muito frustrante porque saí de Portugal com muitas ambições e, durante aqueles seis meses, nada aconteceu da forma como eu esperava. Em janeiro também foi difícil encontrar solução, porque o mercado é complicado. Felizmente apareceu esta oportunidade e agora estou novamente a jogar. Mesmo assim, sou muito exigente comigo próprio e acho que ainda posso fazer mais. Tenho contrato até junho e ainda não sei o que vai acontecer, mas espero continuar a jogar e encontrar um contexto que me permita crescer.

- Sente que ir para a Arménia e agora para a Geórgia o afastou um pouco dos mercados onde gostava de chegar?

Claro que sinto isso. Antes de ir para a Arménia falei muito sobre isso com os meus pais e empresários. Sabia que podia estar a desvalorizar-me e a afastar-me de mercados mais competitivos. Mas também são aprendizagens. Espero conseguir voltar a entrar nesses mercados no futuro.

Rodrigo Ramos vive nova fase no Dinamo Tbilisi
Rodrigo Ramos vive nova fase no Dinamo TbilisiArquivo Pessoal

Entre Arménia e Geórgia: "Tive momentos muito frustrantes..."

- Ainda alimenta o desejo de voltar a Portugal e afirmar-se cá?

A minha primeira escolha sempre foi Portugal. Mas, sinceramente, depois das épocas que fiz, não percebi porque é que não apareceram mais oportunidades. Tive o Tondela. No Estoril não jogava e eu precisava de jogar. Em Portugal também não surgiu nada de concreto e achei que o estrangeiro podia ser uma forma de me mostrar. O objetivo era jogar. Quem vê de fora acha que eu fui para a Arménia e que não me consegui adaptar, mas não foi esse o caso. A questão é que não tive oportunidade. Não é uma desculpa.

- Não apareceu nada que fizesse sentido em Portugal, é isso?

Nem é isso. Não apareceu nada em concreto. 

- O que mudou em si nestes meses fora?

Mudou muito a minha independência e a forma como lido com as coisas. Na Arménia tive momentos muito frustrantes. Muitas vezes dizia aos meus pais que, se fosse para não jogar, preferia estar em Portugal. Mas com a ajuda deles e do meu empresário consegui ultrapassar isso. Agora sinto-me novamente feliz a jogar futebol.

- Como é que se reinventa mentalmente depois de tudo isso?

É frustrante porque sentes que fizeste tudo certo. Fiz uma grande época na Liga Revelação, depois uma boa temporada no Tondela, subi de divisão e, mesmo assim, as oportunidades não apareceram. E é frustrante perceber que fazes o teu trabalho e nada aparece. Depois vais para fora com a ambição de mostrar que aquilo não foi acaso e acabas por não jogar. Há momentos em que pensas: “Se eu não jogo aqui, então vou jogar onde?” Mas felizmente agora estou novamente a ter oportunidades.

Rodrigo Ramos tem vindo a ganhar espaço em Tbilisi
Rodrigo Ramos tem vindo a ganhar espaço em TbilisiArquivo Pessoal

"Quero jogar a Liga dos Campeões e chegar à seleção"

- Como resumiria as suas passagens pelo Benfica, Belenenses e Estoril?

No Benfica tive condições extraordinárias e sinto-me privilegiado por ter feito lá formação. Quando saí fiquei triste, mas depois fui para o Belenenses e consegui mostrar que talvez não devesse ter saído. As coisas correram muito bem, comecei rapidamente a jogar em escalões acima e fui crescendo. Depois seguiu-se a passagem pela B SAD. 

Na altura, o meu sonho era ser jogador profissional e tinha um acordo com a minha mãe. Eu dizia-lhe que não queria continuar a estudar e ela respondeu-me: “Acabas o 12.º ano e, quando assinares um contrato profissional, acaba-se essa discussão.” E foi exatamente isso que aconteceu. Tinha 16 anos quando assinei o meu primeiro contrato profissional.

- Depois veio o Estoril, onde esperava ter a tal oportunidade na equipa principal...

Mesmo na B SAD esperava ter alguma oportunidade. Fiz várias pré-épocas que correram bem, mas nunca tive a oportunidade de me estrear pela equipa principal. No Estoril achei que podia ser diferente, mas acabou por não acontecer. Hoje vejo isso como passado.

Os próximos jogos do Dinamo Tbilisi
Os próximos jogos do Dinamo TbilisiFlashscore

- E o Tondela, como foi ser campeão?

Em Tondela, as coisas aconteceram de forma muito natural. Felizmente, no meu primeiro ano numa liga profissional, tive a sorte de apanhar um grupo excelente. Dávamo-nos todos muito bem e, como eu era dos mais novos, eles estavam sempre a brincar comigo (risos).

Essas ligações são muito importantes e acho que o grupo que tínhamos foi fundamental para a conquista do campeonato e para a subida de divisão.

- Ao longo deste percurso, que pessoas mais o marcaram?

É muito difícil escolher, porque foram muitos treinadores e jogadores importantes. Mas talvez as pessoas que mais me marcaram tenham sido os colegas que tive no Tondela. Praticamente todo o grupo me ajudou muito na adaptação à Liga 2. No fundo, todas as pessoas que passaram pela minha carreira foram importantes, mesmo aquelas que me deram menos oportunidades.

- Se o futebol fosse uma pessoa e estivesse aqui à sua frente, o que lhe diria?

Fazes parte da minha vida! O meu pai jogou, o meu primo também, e eu cresci a jogar na rua com miúdos mais velhos. Recordo os tempos em que ia com o meu bisavô para o ringue jogar à bola. É uma paixão que nasce connosco. Depois aprendemos a lidar com tudo o que o futebol envolve, porque é um meio complicado. Mas a paixão de jogar nunca desaparece.

- O que espera construir até ao final da sua carreira?

Quero jogar ao mais alto nível e ser reconhecido pelo que faço dentro de campo. Quero chegar à seleção, jogar a Liga dos Campeões e atingir muitos objetivos. Sei que neste momento posso estar um pouco mais longe disso, mas acredito muito no meu trabalho e na minha mentalidade. Acho que um dia vou conseguir chegar lá.

- E continua a existir a ambição de jogar na Liga portuguesa?

Sempre. O meu objetivo sempre foi jogar na Liga. Infelizmente ainda não tive essa oportunidade, mas acredito que estou preparado para jogar em qualquer campeonato. Vou continuar a trabalhar para que isso aconteça e espero encontrar um contexto que me aproxime dos meus objetivos.

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