Análise: Os segredos do primeiro apuramento europeu do Sunderland em mais de 50 anos

O capitão do Sunderland, Granit Xhaka, celebra a qualificação para a Liga Europa
O capitão do Sunderland, Granit Xhaka, celebra a qualificação para a Liga EuropaAction Images via Reuters/Lee Smith

O Sunderland surpreendeu todos com as suas exibições na Premier League esta época, transformando uma temporada que muitos esperavam terminar com a descida de divisão numa das melhores da história do clube.

Os Black Cats vão disputar a Liga Europa na época 2026/27, viajando pelo continente pela primeira vez desde 1973.

O sétimo lugar foi garantido após uma vitória por 2-1 frente ao Chelsea no último dia da temporada 2025/26 – mas isso conta apenas uma pequena parte do que foi uma caminhada dramática.

O Flashscore analisa como o Sunderland contrariou todas as probabilidades para tornar realidade um sonho que, até há pouco tempo, muitos consideravam impossível.

Das profundezas da League One

O Sunderland tinha estado pela última vez na Premier League em 2017, mas sofreu duas descidas consecutivas até cair para o terceiro escalão em 2019.

Permaneceu aí durante a pandemia, o Euro-2020 disputado em 2021, vários falsos recomeços e, a certa altura, chegou mesmo a correr sérios riscos financeiros.

A ligação à League One terminou há apenas quatro anos, quando os Black Cats terminaram em quinto, mas venceram o play-off na mesma época em que perderam por 6-0 com o Bolton, 5-1 com o Rotherham e 4-0 com o Portsmouth.

Seguiu-se alguma esperança no Championship com um sexto lugar antes de uma campanha de play-off sem sucesso e a equipa regrediu para o 16.º lugar na época 2023/24.

Esse desastre levou os Black Cats a nomearem o quase desconhecido Regis Le Bris. E foi aí que a redenção começou verdadeiramente a ganhar força.

O melhor treinador do Sunderland na era moderna?

A chegada de Le Bris foi recebida com muita incerteza, depois de ter orientado uma descida de divisão com o Lorient. Mas encaixava no perfil que o Sunderland procurava: um treinador adaptável e, acima de tudo, excecional a trabalhar com jovens talentos.

O francês iniciou a carreira como treinador de formação em França, antes de chegar ao futebol sénior no Lorient e depois rumar a Inglaterra.

É doutorado em fisiologia e biomecânica, além de possuir um diploma em treino mental de atletas de alto rendimento.

O seu impacto em Sunderland fez-se sentir desde o primeiro dia – perderam apenas três jogos do campeonato antes do Natal e, quando ficou claro que o lugar no play-off estava garantido e a promoção direta era impossível, talvez a experiência de Le Bris, comprovada pelas suas qualificações académicas, tenha vindo ao de cima.

Rodou bastante a equipa nos últimos cinco jogos da época; os Black Cats perderam todos esses encontros. Surgiram dúvidas no mundo do futebol, pois o Sunderland tinha perdido um dos ingredientes essenciais para qualquer campanha de play-off: o embalo.

No entanto, o reverso da medalha foi que os jogadores-chave estavam totalmente aptos e frescos para os três jogos mais importantes da época. E o Sunderland marcou aos 88 minutos da primeira mão da meia-final, aos 120+3 da segunda mão e aos 90+5 da final, a caminho da promoção.

Esses golos tardios validaram uma decisão incrivelmente corajosa de Le Bris e, no fim, provaram a sua competência para liderar os Black Cats.

Uma Premier League para recordar

A subida ao principal escalão abriu uma nova era para o Sunderland, com várias estrelas do Championship a saírem, dentro e fora de campo.

O diretor desportivo Kristjaan Speakman supervisionou as transferências de verão juntamente com o novo diretor de futebol Florent Ghisolfi, antes de também sair.

O capitão Dan Neil e os heróis do play-off Patrick Roberts e Anthony Patterson foram todos dispensados, com grandes nomes a chegarem em sentido inverso.

O mercado de transferências de verão ficará para a história como o melhor do Sunderland, com um investimento de 185 milhões de euros em 14 reforços.

Vários desses jogadores são agora considerados pelos adeptos como dos melhores de sempre a vestir a camisola do Sunderland.

Granit Xhaka, Enzo Le Fee e Nordi Mukiele destacaram-se especialmente ao longo da época – enquanto jovens como Robin Roefs, Noah Sadiki e Brian Brobbey também deram o seu contributo.

Dos 14 reforços, pode dizer-se que apenas dois não corresponderam, o que é um registo notável para um clube recém-promovido.

Apesar de os nomes sonantes terem muitas vezes ocupado as manchetes, vários dos mais antigos também estiveram à altura do desafio. Trai Hume, Dan Ballard e Chris Rigg adaptaram-se sem dificuldades à Premier League, enquanto Luke O'Nien, Wilson Isidor, Eliezer Mayenda e Dennis Cirkin também corresponderam sempre que foram chamados.

Os Black Cats começaram com uma vitória por 3-0 sobre o West Ham na jornada inaugural e raramente olharam para trás, batendo o rival Newcastle por duas vezes, fazendo a dobradinha frente ao Chelsea e mantendo-se invictos em casa até meados de fevereiro.

Sunderland terminou a época em 7.º lugar
Sunderland terminou a época em 7.º lugarFlashscore

A combinação de um plantel tão impressionante com um treinador taticamente astuto conduziu o Sunderland ao futebol europeu, numa época que nenhum adepto esquecerá tão cedo.

Vitória no último dia frente ao Chelsea

O Sunderland chegou ao último dia a precisar de vencer o Chelsea e esperar que o Brentford não vencesse ou que o Brighton perdesse (ou ambos).

Uma vitória combinada com um desses resultados garantiria um lugar na Liga Conferência. Com os três a acontecer, os Black Cats entraram na Liga Europa.

Os adeptos encheram as ruas para receber o autocarro da equipa antes do jogo e criaram o ambiente para uma tarde inesquecível no Stadium of Light.

Com Xhaka, Mukiele e Le Fee a assumirem o controlo do jogo numa primeira parte dominadora, foi apropriado que o golo inaugural tenha surgido de uma combinação entre dois jogadores que estão em Wearside desde os tempos da League One.

O'Nien desviou de cabeça um passe longo para Hume finalizar de primeira e fazer explodir o estádio. Quando os adeptos pensavam que não podia melhorar, os novos reforços contribuíram para o segundo, após uma jogada excecional de Lutsharel Geertruida, Le Fee e Brobbey, que resultou em Malo Gusto a marcar na própria baliza.

Cole Palmer ainda reduziu para o Chelsea antes de Wesley Fofana ver o segundo amarelo por travar Isidor e os Black Cats conseguiram segurar a vitória. Todas as atenções voltaram-se então para Brentford e Brighton.

Os Bees apenas empataram em Liverpool. O Brighton foi goleado pelo Manchester United. E exatamente um ano depois de vencer o play-off, o Sunderland confirmou o seu lugar na Liga Europa.

O dia 24 de maio ficará para sempre na história de Wearside, por mais do que um motivo.

Os jogadores espalharam-se pelo relvado a celebrar, os adeptos choraram de alegria e Le Bris abraçou os seus colegas de equipa técnica quando chegou a confirmação do estatuto europeu.

Há apenas quatro anos, o Sunderland celebrava uma vitória no play-off frente ao Wycombe para sair da League One. Agora, os adeptos sentem que o céu é o limite para este grupo de jogadores e equipa técnica.

No que toca a épocas de regresso à Premier League, os Black Cats dificilmente podiam ter sonhado com melhor.

Ali Pollock
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