Reportagem: Como David Raya se tornou campeão da Premier League e fez história no Arsenal

A história de Raya está cheia de mudanças e de uma certeza amarga
A história de Raya está cheia de mudanças e de uma certeza amargaAction Images via Reuters

O guarda-redes espanhol David Raya foi um dos grandes arquitetos do primeiro título do Arsenal na Premier League em 22 anos. No mês decisivo da temporada, manteve a baliza a zeros em quatro jogos consecutivos, dando aos seus companheiros a plataforma perfeita para vencer partidas. Ao longo da época, somou um impressionante total de 19 jogos sem sofrer golos em 37 exibições, igualando o recorde do clube que pertencia ao lendário David Seaman.

O mesmo primeiro nome, o mesmo clube, mas um estilo completamente diferente. Segundo as estatísticas, Raya cometeu apenas um erro em toda a temporada que resultou em golo. Além disso, não falhou um único minuto de jogo.

O guardião beneficiou muito do estilo defensivo e da disciplina da equipa - qualidades que o seu compatriota, Mikel Arteta, tanto enfatiza. Nesses 37 jogos, Raya registou uma média de apenas 1,6 defesas por partida, a mais baixa de toda a Premier League.

Na passada segunda-feira, frente ao Burnley, por exemplo, nem sequer teve de fazer uma única defesa. O Arsenal é, aliás, a única equipa que não enfrentou um único penálti em toda a temporada!

Ao estilo do Chelsea de Mourinho

Este registo faz lembrar o Chelsea de José Mourinho e Petr Cech (um dos antecessores de Raya na baliza do Arsenal), que ainda detém o recorde de todos os tempos da liga com 24 jogos sem sofrer golos (em 35 partidas) em 2004/05.

Cech também tinha muito pouco trabalho, o que, segundo o próprio, tornava ainda mais difícil manter a concentração para aparecer ao melhor nível no momento crucial.

"E é exatamente aí que está a força de Raya. Ele faz uma defesa brilhante no momento decisivo, quando é mais preciso - não quando a equipa já ganha por 3-0. É exatamente isso que se espera de um guarda-redes", elogiou o lendário defesa dos gunners, Nigel Winterburn, numa entrevista ao Flashscore.

Olhando para os resultados, Winterburn tem toda a razão. Das 25 vitórias do Arsenal, 14 foram pela margem mínima, e oito delas pelo resultado à Mourinho de 1-0 (nas últimas quatro jornadas, o Arsenal venceu três vezes por esta marca).

As estatísticas da época de Raya
As estatísticas da época de RayaReuters/Opa by StatsPerform

Raya também se destaca pela forma como organiza a defesa. Ao contrário de muitos dos seus compatriotas, domina perfeitamente o inglês. Afinal de contas, vive em Inglaterra há quase metade da sua vida. Pouco antes de completar 17 anos, deixou a sua Barcelona natal e, graças a uma parceria entre o seu clube da altura, o Cornellà, e o Blackburn Rovers, rumou a solo britânico.

A dureza das divisões secundárias

Em Inglaterra, Raya foi emprestado aos amadores do Southport, na quinta divisão, onde teve um batismo de fogo no futebol sénior.

"Aprendi que nada vem de graça. No Blackburn, por ser jovem, tratavam de tudo por mim, mas ali percebi que tinha de cuidar de mim próprio. Foi uma grande lição, abriu-me os olhos", recordou numa entrevista aos meios do Arsenal.

Na verdade, foi o próprio jogador que pediu para ser emprestado, sentindo que o campeonato de sub-21 já não era suficiente. "Desde miúdo que sabia o que queria alcançar. Isso foi muito importante."

O guarda-redes, que não é particularmente alto para a posição (1,84 metros), teve um início complicado. Nos seus primeiros quatro jogos pelo Southport sofreu nove golos, mas não foi abaixo. Nos seis jogos seguintes, manteve a baliza a zeros por quatro vezes e ajudou a equipa a chegar à terceira eliminatória da Taça de Inglaterra. "Fomos eliminados pelo Derby County por 1-0, com um penálti no último minuto", recordou.

Ainda assim, as portas da baliza do Blackburn abriram-se. O clube resgatou-o antes do final da época e, no ano seguinte, Raya assumiu a titularidade. Graças à experiência nas ligas inferiores, aprendeu a lidar com as especificidades do futebol puramente britânico.

"Em cada canto, em cada livre, levava uma cotovelada em todos os sítios possíveis".

Um nariz novo e a evolução pelo ar

E não foram apenas cotoveladas. Num jogo contra o West Bromwich, em 2018, sofreu um golpe tão violento na cara, vindo do pé de um adversário, que ficou com os ossos do nariz completamente desfeitos. Não conseguia respirar, teve de receber oxigénio ainda no relvado e, já no hospital, os médicos constataram que a lesão era tão grave que um fragmento ósseo esteve quase a pressionar o crânio.

O incidente causou-lhe um edema grave e deformações faciais. Terminou essa temporada a jogar com uma máscara protetora e, nas férias de verão, recorreu a cirurgiões plásticos para reconstruir o nariz. A operação mudou tanto a sua fisionomia que muitos adeptos não o reconhecem nas fotografias mais antigas.

Raya demorou a adaptar-se aos duelos aéreos, mas a transferência para o Brentford ajudou-o imenso nessa área. Grande parte do mérito deve-se ao então treinador de guarda-redes do clube, Iñaki Caña, que desempenhou um papel fulcral na sua contratação. Ambos catalães, tornaram-se grandes amigos e o guarda-redes acabou por segui-lo mais tarde para o Arsenal.

"Mudei muito sob a orientação dele. Antes confiava muito nos meus reflexos e esperava em cima da linha por uma defesa milagrosa. Ele ensinou-me a ser proativo e a evitar que os remates aconteçam. E isso significa sair da linha de golo para agarrar os cruzamentos", explica Raya.

A caminho dos 31 anos, o espanhol já começou a preparar a carreira pós-futebol. Já tirou a licença B da UEFA e está a estudar para obter a especialização de treino de guarda-redes. Agora, ao conquistar o título inglês, cimentou o seu estatuto como um dos melhores do mundo na sua posição.

Ainda assim, há um aspeto em que a sorte não lhe sorri. Unai Simón é, há muito, o dono incontestável da baliza da seleção espanhola, e Raya soma apenas 12 internacionalizações. Por isso, o novo campeão da Premier League deverá assistir aos jogos do próximo Mundial a partir do banco de suplentes...

É o preço a pagar no caminho que devolveu o Arsenal à glória 22 anos depois.

O caminho para o primeiro título do Arsenal em 22 anos