A consagração de CR7 na Arábia: o fim da maldição e a glória pelas mãos de Jesus

Cristiano Ronaldo sagrou-se campeão da Arábia Saudita pela primeira vez
Cristiano Ronaldo sagrou-se campeão da Arábia Saudita pela primeira vezREUTERS/Stringer

Mais de três anos depois de assinar pelo Al Nassr, Cristiano Ronaldo conquistou finalmente o primeiro campeonato da Arábia Saudita. O título parecia inevitável quando o português trocou o futebol europeu pelo projeto milionário saudita, mas demorou muito mais do que o esperado. Entre investimentos milionários, revoluções no plantel e desilusões sucessivas, foi Jorge Jesus quem acabou por cumprir a promessa feita no início da época e entregou ao capitão da seleção o primeiro troféu da era CR7 em solo saudita.

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A entrevista de Cristiano Ronaldo a Piers Morgan ficou para a história. A rutura com o Manchester United abriu caminho a uma surpreendente mudança para a Arábia Saudita, que mudou para sempre a carreira da lenda portuguesa, mas também a história do futebol.

É certo que o futebol saudita já vivia uma fase de mudança, com a promessa do El Dorado a convencer jogadores consagrados a deixar o futebol europeu para rechear os cofres numa incursão pelo campeonato asiático, mas foi quando Cristiano Ronaldo assinou pelo Al Nassr que a verdadeira revolução começou.

A transferência de uma das maiores figuras da história do futebol para a Arábia Saudita abriu as portas para várias estrelas, da mesma geração ou de outras mais recentes, seguirem o mesmo caminho. No entanto, essa acabou por ser também a maldição do próprio Ronaldo.

Al Hilal, uma pedra no sapato

Os primeiros meses ainda permitiram sonhar. Sob o comando de Rudi Garcia, o Al Nassr manteve-se vivo na luta pelo campeonato, mas foi no verão seguinte que o efeito Cristiano se fez sentir a sério no clube e na própria liga saudita.

Em 2023/24, o clube oficializou a chegada de Luís Castro, que deixou o Botafogo a meio de um possível título no Brasil, e investiu mais de 150 milhões de euros nas contratações de jogadores como Otávio, Laporte, Sadio Mané, Brozovic e Seko Fofana. Porém, nem isso, nem os 35 golos de CR7 no campeonato, foram suficientes para travar um Al Hilal dominador, que terminou com 14 pontos de vantagem sobre o vice-campeão e nos recordes do Guinness.

Com Jorge Jesus ao leme, o gigante de Riade gastou perto de 400 milhões de euros para trazer Neymar, Rúben Neves, Milinkovic-Savic, Malcom, Mitrovic e Bono e terminou o campeonato com um registo imaculado - 31 vitórias, três empates e zero derrotas.

Neymar fez apenas sete jogos pelo Al Hilal
Neymar fez apenas sete jogos pelo Al HilalYASSER BAKHSH / GETTY IMAGES EUROPE / GETTY IMAGES VIA AFP

Longe da luta pelo campeonato, o Al Nassr ainda teve uma última oportunidade para dar a Cristiano Ronaldo o primeiro título em solo saudita, mas voltou a esbarrar no mesmo adversário. O Al Hilal venceu a Taça nos penáltis, com Bono em destaque, e as lágrimas do capitão no final da partida acabaram por resumir uma época de frustração.

Mais distante dos títulos, mais perto dos recordes... no Youtube

Em ano de Mundial de Clubes, Cristiano Ronaldo via a redução do investimento do Al Hilal e a aposta do Al Nassr como uma motivação para chegar às medalhas.

O Al Hilal reduziu o investimento depois da chegada maciça de estrelas e o Al Nassr voltou a atacar o mercado para corrigir lacunas do plantel. Bento chegou para assumir a baliza e, já em janeiro, Jhon Durán foi contratado por 77 milhões de euros para reacender a esperança na segunda metade da temporada.

Mas a época acabou por correr ainda pior.

Cristiano Ronaldo voltou a terminar como melhor marcador do campeonato, desta vez com 25 golos, mas o Al Nassr nunca conseguiu entrar verdadeiramente na luta pelo título. A equipa, já sob o comando de Stefano Pioli, terminou novamente a mais de 10 pontos do campeão Al Ittihad e acabou no terceiro lugar, atrás do Al Hilal.

Além de falhar o título, o Al Nassr caiu nas meias-finais da Liga dos Campeões asiática de forma surpreendente, frente ao Kawasaki Frontale. Além disso, a temporada começou com deceção na primeira hipótese de título, ao ser goleado (1-4) na final da Supertaça pelo carrasco da época anterior, o Al Hilal, semanas depois de CR7 ter criado... um canal de Youtube.

A ironia era inevitável. O jogador que revolucionou o futebol saudita continuava sem conseguir conquistar títulos no país enquanto discutia a possibilidade de ultrapassar o youtuber MrBeast em número de subscritores.

Da greve à consagração pelas mãos de Jesus

Depois de duas épocas e meia no Al Nassr, a cabine de troféus do internacional português continuou vazia.

Os números individuais impressionavam, os golos multiplicavam-se e os recordes sucediam-se, mas os títulos continuavam do outro lado da cidade, o que alimentou rumores de uma possível saída no verão, até a pensar no Mundial de Clubes.

No entanto, com o Mundial-2026 no horizonte, a conquista da Liga das Nações no currículo e o objetivo dos 1.000 golos cada vez mais presente, Cristiano Ronaldo decidiu continuar fiel ao projeto saudita. Mas não sem antes aumentar a própria influência dentro do clube.

Depois de Luís Castro, o Al Nassr voltou a apostar num treinador português que conhecia perfeitamente o futebol saudita. Jorge Jesus reuniu-se com CR7 e juntou-lhe João Félix. A dupla começou a mostrar química desde cedo e até foi replicada na seleção nacional.

Ao mesmo tempo, a influência do capitão português tornou-se ainda mais evidente nos bastidores. José Semedo, amigo próximo de Ronaldo, passou de diretor-técnico a diretor-geral do clube, um sinal claro do peso do avançado na estrutura do Al Nassr.

As queixas de Jorge Jesus sobre a falta de reforços, somadas ao descontentamento de Ronaldo com um alegado favorecimento ao Al Hilal, criaram um ambiente de instabilidade no momento em que o título parecia finalmente possível. O português chegou mesmo a ausentar-se em protesto, reacendendo dúvidas sobre o futuro.

Só que, desta vez, o Al Nassr não caiu, ainda que um deslize de Bento, na partida que podia consagrar o Al Nassr frente ao rival Al Hilal, tenha colocado um ponto de interrogação sobre o título, e a Liga dos Campeões asiáticos 2, teoricamente ao alcance da equipa de CR7, tenha acabado numa surpreendente desilusão.

Numa época em que o investimento foi mais reduzido, o critério revelou-se fundamental para que o conjunto de Riade assumisse a dianteira do campeonato durante grande parte da época e nem as questões à volta de Ronaldo, que esteve algumas semanas parado por lesão, tiraram a confiança a Jorge Jesus.

Antes do jogo com o Al Hilal, o carismático treinador português, que estará de saída no final da época, não teve receio de provocar o seu antigo clube ao dizer: "Sou a pessoa que conhece melhor o Al-Hilal, fui quem construiu a equipa".

Certo é que, depois de anos de investimento milionário, revoluções no plantel, frustrações e derrotas marcantes, algumas delas esta época, Jorge Jesus acabou mesmo por cumprir a promessa que levou para Riade: dar títulos a Cristiano Ronaldo, o jogador que mudou o futebol saudita, mas que precisou de quase três anos para finalmente vencer na Arábia.