Acompanhe o Al Rayyan no Flashscore
Aos 33 anos, o médio voltou a emigrar e não se arrepende da decisão. A temporada teve alguns pontos baixos, com uma lesão que o deixou fora de combate durante várias semanas, mas ainda assim preencheu a folha de serviços com 25 jogos em todas as competições, dois golos, cinco assistências e dois troféus conquistados.

“A época poderia ter sido melhor, mas acredito que o próximo ano vai ser bom”
- Após experiências no Nottingham Forest e no Olympiacos, o Tiago voltou a emigrar. Que balanço faz desta primeira época no Al Rayyan?
O balanço é positivo. Foi uma experiência nova, muito diferente de todos os contextos a que estava habituado. Inicialmente, tive um período de adaptação um pouco longo. Fui para o Catar para assinar contrato, regressei para ir buscar a família e voltei pouco depois. Acabei por sentir algum cansaço com essas viagens e, entretanto, lesionei-me. Foi um período um pouco chato.
O clima também não ajudou. Cheguei em setembro e estavam quase 40 graus. Tudo era diferente, até os treinos: tinha um treinador novo e uma equipa também ela diferente. Acabei por sentir algum cansaço, lesionei-me e fiquei mais de um mês de fora.
- E a equipa também teve um percurso com altos e baixos, certo?
Toda esta adaptação não foi tão boa como esperava, mas acho que, depois, acabou por correr bem. Não fui tão preponderante como noutras épocas e noutros clubes. Ainda assim, considero que não foi uma temporada negativa. Poderia ter sido bem melhor, tanto a nível individual como coletivo. Ganhámos a Champions do Golfo e conquistámos a Taça do Catar.
A nível individual, não foi uma época extraordinária. Marquei dois golos e fiz cinco assistências. Poderia ter sido melhor, mas acredito que o próximo ano será melhor.
- E quais são as perspetivas tendo já em vista a época que se avizinha?
Este ano ficámos um pouco aquém das expetativas porque, olhando para as coisas, tínhamos um dos melhores plantéis, se não mesmo o melhor, do campeonato. Ainda assim, terminámos em terceiro lugar. Acho que, esta época, o objetivo passa por lutar pelo título.
Também é verdade que, ali, dão muita importância à Taça do Emir, que é como se fosse a nossa Taça de Portugal. Valorizam mesmo muito essa competição e, se calhar, até preferem conquistá-la ao próprio campeonato. O objetivo passará um pouco por aí: ganhar um desses dois troféus ou, se for possível, os dois.

- Quando chegou ao Al Rayyan o treinador era Artur Jorge, que acabou por sair para o Cruzeiro. Depois Abdulghafoor Murad Abdulla assumiu a equipa até à chegada de Vicente Moreno.
Tivemos pouco mais de um mês de trabalho juntos. Quando chegou, já estávamos numa fase muito adiantada da época. Continuávamos em todas as competições e acabámos por lutar por todas elas até ao fim. Só na Taça do Emir é que fomos eliminados nos quartos de final. Por isso, o treinador não teve muito tempo para mostrar o seu trabalho, porque era quase sempre treinar, jogar, treinar, jogar.
É verdade que, no Catar, normalmente não é assim. Joga-se quase de duas em duas semanas, porque o campeonato é curto e tem poucas equipas. Como estávamos inseridos nas competições asiáticas, acabámos por jogar um pouco mais.
Mesmo sem muito tempo, foi bastante inteligente, porque manteve algumas das coisas que estavam a ser bem feitas pelo Artur Jorge e conseguiu aperfeiçoar outras que estávamos a fazer menos bem.
- A escola espanhola acaba por beneficiar as características do Tiago?
A filosofia é boa e a metodologia também. O treino espanhol é muito semelhante ao português, porque privilegia, acima de tudo, os aspetos técnico e tático. O físico não é tão valorizado, e isso é bom para mim e para as minhas características, porque não sou um jogador muito físico. Sou um jogador que gosta de pensar o jogo e de ter bola. Por isso, tem sido uma experiência positiva com ele e estou a gostar.
- E como foi trabalhar com Artur Jorge e a equipa técnica liderada por ele?
Foi bom. É sempre mais fácil quando temos alguém que fala a nossa língua, sobretudo estando no estrangeiro. Por isso, foi positivo. Depois, acabou por não correr como era esperado e por não corresponder às expetativas, porque não estávamos a conseguir os resultados que se exigiam, tendo em conta o plantel que tínhamos. Além disso, não estávamos a praticar um futebol contagiante. Tínhamos jogadores muito bons na equipa, mas, naquela altura, não apresentávamos um futebol atrativo.
Treinar com o Artur Jorge foi bom. É um treinador português, experiente e que já conhecia a Liga. A equipa técnica também era portuguesa, por isso havia um bom clima e um bom ambiente. Acho que isso foi importante. Também acabei por não ser tão preponderante. Cheguei, lesionei-me e a concorrência interna também era forte.

"Em Portugal há plantéis com 20 jogadores estrangeiros e três ou quatro portugueses"
- E como é lidar com o limite na utilização de jogadores estrangeiros?
É um pouco chato. Se eu jogar de início, para entrar outro estrangeiro tem de sair um jogador estrangeiro. Eles protegem muito os jogadores locais, o que é ótimo. Acho que é algo em que também deveríamos pensar em Portugal, porque o jogador local tem de ter espaço para jogar.
Na Liga, jogam seis estrangeiros e os restantes têm de ser jogadores locais. Em Portugal, muitas vezes, vemos equipas com 11 estrangeiros em campo e plantéis com 20, enquanto os portugueses são apenas três ou quatro. Vimos isso, por exemplo, na última época, no Rio Ave.
Acho que é uma boa forma de pensar o futebol e de proteger os jogadores locais. Para nós, estrangeiros, acaba por não ser tão benéfico, porque nem sempre temos o tempo de jogo que gostaríamos.
- E como é feita essa gestão durante os jogos?
Muitas vezes estás a jogar bem, mas a equipa precisa de outra coisa, precisa de atacar mais. O treinador tem de tirar um médio para colocar um avançado. Se esse avançado for estrangeiro, tem de sair outro estrangeiro. Ou, se for preciso defender, tem de tirar um médio mais ofensivo para colocar outro central.
Acabas sempre por sair um pouco prejudicado por causa disso. Acho que também foi um pouco por aí que não tive o tempo de jogo que gostaria. Ainda assim, o ano foi positivo. Fui jogando, foi bom e conquistámos algumas coisas. Mas acredito que o próximo ano será bem melhor.
- E como é o dia a dia do Tiago no Catar?
Como está muito calor, treinamos ao final da tarde e, durante o Ramadão, à noite. Normalmente, de manhã, acordo, vou deixar as crianças à escola e depois faço o meu treino de ginásio. Regresso a casa, almoço e fico por lá durante o início da tarde.
Como vivemos num hotel, temos acesso à praia e, de vez em quando, vou até lá. Noutras ocasiões, vou buscar os miúdos à escola e eles ficam a brincar com outras crianças. Ao final da tarde, é altura de relaxar um pouco antes de sair para o treino. Quando acaba, regresso a casa, descanso e, no dia seguinte, repete-se a mesma rotina.

"Foram momentos tensos para nós. Foi assustador, principalmente para as crianças"
- Em março, o Catar foi um dos países do Golfo atingidos por ataques iranianos. De que forma é que conseguiram lidar com esses momentos de maior tensão?
Não vou mentir, foram momentos complicados e assustadores, sobretudo por causa das crianças. O mais novo ainda não percebe muito bem o que se passa, mas o Valentim já tem consciência das coisas e acabou por ficar um pouco assustado.
Nós, enquanto adultos, sentíamo-nos relativamente seguros, porque o Catar é um país muito rico e tem um sistema de defesa extremamente desenvolvido. Mesmo assim, era impossível não sentir o que estava a acontecer. O apartamento tremia com as explosões, os vidros abanavam e ouvíamos perfeitamente o barulho, apesar de algumas delas acontecerem relativamente longe. Foi uma experiência que nunca tínhamos vivido e que, naturalmente, nos marcou.
- Foram vários episódios de tensão?
Sim, sentimo-nos sempre acompanhados. Aquilo que espero, sinceramente, é que tudo volte rapidamente à normalidade, porque o Catar é um país extraordinário para viver. Tem uma enorme qualidade de vida, é excelente para quem tem filhos e também oferece ótimas condições de trabalho. Espero apenas que tudo estabilize, para podermos voltar a viver tranquilamente e a fazer aquilo de que mais gostamos, que é jogar futebol.
- A questão financeira teve um peso elevada quando o Tiago aceitou a proposta do Al Rayyan?
Sim, não é segredo que não tinha intenção de sair do Vitória SC. Saí porque teve de ser. Nunca foi por querer ganhar mais dinheiro, viver uma nova experiência ou o que quer que fosse. Acabou por acontecer da forma que já foi falada e, entretanto, surgiu o Al-Rayyan.
A possibilidade de ir para um país que oferecia muita qualidade de vida para mim e para a minha família, onde também poderia melhorar as minhas condições financeiras, teve muito peso, como é óbvio. Não vou ser hipócrita e dizer que fui para o Catar porque sabia que o campeonato era incrível e que iria manter o mesmo nível competitivo.

"Vitória SC parece que está sempre em constante adaptação"
- E o nível competitivo entre os dois campeonatos é diferente?
Sei perfeitamente que, neste momento, o campeonato português está acima do campeonato do Catar em termos competitivos. No entanto, o futebol catari está a crescer muito e acredito que, por ser também um país muito rico, consegue atrair jogadores de grande qualidade.
A prova disso é vermos aqui jogadores como Roberto Firmino, que tem muita qualidade. O facto de estar no Catar não acontece por acaso.
- Foi a proposta certa que surgiu no momento certo?
Escolhi o Al-Rayyan também pelo aspeto financeiro, como é óbvio, mas não foi apenas por isso. Foi uma decisão que quis tomar. Já tinha dito à minha família que só sairia do Vitória SC, um clube onde me sentia em casa, para lhes proporcionar uma melhor qualidade de vida.
O Catar era o lugar onde conseguia conciliar as duas coisas: oferecer qualidade de vida à minha família e, ao mesmo tempo, jogar num campeonato que me atraía. Foi sobretudo por aí.
- E qual é o clique que falta ao Vitória SC?
Não sei mesmo explicar. Há muita gente que me faz essa pergunta: o que falta ao Vitória SC para ganhar títulos e estar sempre lá em cima? Se calhar, estabilidade. É um clube muito grande, com muitos adeptos e minimamente organizado, embora passe por algumas dificuldades financeiras, é um facto.
Tem adeptos que acompanham a equipa para todo o lado e que são o 12.º jogador. Acho que é um clube que tem de ganhar mais títulos. Precisa de ganhar mais títulos e de ter mais estabilidade.
Nestes últimos anos, estivemos na Liga Conferência e houve épocas em que tivemos a possibilidade de chegar à fase de grupos. Mas, apesar de tanta coisa boa e bem feita, acabaram por sair sempre muitos treinadores e muitos jogadores. Houve muitas mudanças. Sei que o futebol é assim, é preciso renovar, é normal, e temos de respeitar isso.

- E o clube poderá estabilizar agora com uma nova direção e com Tiago Margarido como treinador?
É preciso que o clube crie alguma estabilidade, porque, caso contrário, vão estar sempre a entrar e a sair pessoas que pouco ou nada conhecem o Vitória SC. Isto é um processo. Como estava a explicar, a minha adaptação ao Catar não foi imediata e aqui também não é. Ainda por cima, porque é um clube muito especial e muito exigente. Nem todos os jogadores estão preparados para jogar no Vitória SC.
Acho que é importante ter pessoas, e não apenas jogadores, que conheçam o clube e consigam transmitir rapidamente a sua mística a quem chega, para que a adaptação seja mais fácil e mais rápida.
O Vitória SC parece estar em constante adaptação, porque não consegue manter um núcleo. É também um clube que, devido às dificuldades financeiras que atravessa, precisa de vender. Há jogadores que saem por esse motivo e outros porque não se adaptaram como era esperado. Acho que é preciso dar tempo ao tempo, não apenas aos jogadores, mas também aos treinadores.
- Afinal, o que precipitou a debandada que ocorreu no Vitória SC na janela de transferências do verão de 2025?
Não há muito a dizer. A verdade é essa. Como costumo dizer, quem tem o poder manda, e quem o tinha decidiu que era necessária uma renovação. Só temos de aceitar e respeitar. Não saí chateado nem triste, nem fiquei de mal com ninguém. A única coisa que me deixou magoado foram as declarações.
Não sei qual foi o intuito, sinceramente, nem quero saber. É o que é. Cada um tem de assumir a responsabilidade pelos seus atos. O presidente, na altura, disse o que disse e é ele quem pode esclarecer.
- Não guarda nenhuma mágoa?
Em relação à questão dos “vaidosos”, é aquilo que já foi dito. Já falei sobre isso e não há muito mais a acrescentar. Respeitei a decisão e só tinha de a aceitar, apesar de ter ficado triste, porque era e continua a ser um clube de que gosto muito e de que vou gostar sempre. Não queria sair do clube, muito menos da forma como saí, mas respeito.
Acho que o trabalho realizado pelo presidente, enquanto lá esteve, foi muito bem feito. Ainda assim, considero que falhou em algumas coisas e sinto que isso ficou evidente no momento da nossa saída, quando disse o que disse.
Muitas coisas foram alcançadas graças a nós. Tivemos muito mérito naquilo que foi feito e acho que devia ter existido uma palavra de gratidão. Aconteceu exatamente o contrário: deixou-nos em xeque ao chamar-nos vaidosos.

Rui Borges queria o médio no Sporting
- E falou com o antigo presidente António Miguel Cardoso?
Senti que aquilo foi, de certa forma, uma forma de defesa para justificar alguma coisa, mas não estou chateado por isso. Fiquei apenas triste por não termos recebido uma palavra de gratidão e por ter acontecido precisamente o contrário. Mas é o que é, está feito.
Quero ser sempre parte da solução para o Vitória SC e nunca do problema. Por isso, também não quero continuar a falar sobre esse assunto. Para mim, está esclarecido.
- No mercado de transferências do último verão, falou-se da possibilidade de trocar o Vitória SC pelo Sporting. É verdade?
Não foi apenas um rumor. Aconteceu e é um facto. Foi uma possibilidade real, sobretudo depois do último jogo da época, precisamente contra o Sporting. Falei com o meu agente e percebi que podia mesmo acontecer. No entanto, as condições não eram comparáveis às propostas que tinha, nomeadamente à do Catar.
Teria sido especial voltar a trabalhar com o Rui Borges, porque foi um treinador que conseguiu tirar o melhor de mim. Mas acredito que as coisas acontecem por alguma razão. Fui para o Catar porque, naquele momento, era a melhor decisão para mim e para a minha família.
- E ficou triste com este desfecho?
Acabou por não acontecer, também com muita pena minha, porque voltar a trabalhar com o Rui Borges teria sido muito bom para mim. Foi uma pessoa que conseguiu extrair o melhor de mim. Mas as coisas são como são. Acredito muito que aquilo que tem de ser, será. Se fui para o Catar, foi porque tinha de ir e porque, naquele momento, era o melhor para mim e para a minha família.

- E como foi trabalhar com o Rui Borges em Guimarães?
Foi muito positivo. O Rui Borges é um treinador que privilegia muito a pessoa antes do jogador. Preocupa-se com o lado humano, com aquilo que cada um vive fora do campo e com o seu estado mental. É alguém que percebe muito de futebol, mas que também sabe gerir pessoas.
Se um jogador chega menos bem mentalmente, ele percebe. Tem essa sensibilidade. Acho que é um ser humano incrível e um treinador com muita qualidade. Tenho muita pena de que as coisas nem sempre tenham corrido como ele merecia, porque gosto muito dele, tanto enquanto treinador como enquanto pessoa.
- Rui Borges chegou ao Sporting, sagrou-se campeão e conquistou a Taça de Portugal, mas na última época não conseguiu vencer nenhuma prova. Vai iniciar a nova temporada pressionado?
Sim, o Rui Borges nunca foi consensual no Sporting, essa é a verdade. Desde que chegou, acho que também apanhou a pior fase possível. Foi substituir o Rúben Amorim, o João Pereira, infelizmente, não tinha conseguido fazê-lo com muito sucesso e as pessoas não depositavam grande esperança nele. Ainda estavam a fazer o luto pelo Amorim, e acho que isso não foi benéfico para ele.
Mesmo assim, deu uma grande resposta nesse ano. Fez a dobradinha, ganhou o Campeonato e a Taça de Portugal. Era um treinador ainda com poucas provas dadas, que chegou ao Sporting numa fase muito complicada, depois de uma série de jogos sem vencer. Chegou, mudou as coisas e percebeu-se logo que o espírito era diferente. Por isso, há muito mérito no trabalho dele.
Tive muitos bons treinadores, outros nem tanto, mas consegui aprender alguma coisa com todos eles, nem que fosse aquilo que não devo fazer, caso um dia venha a ser treinador. O Rui Borges não foi um desses casos, muito pelo contrário. Acho que é um pouco aquilo que eu seria se fosse treinador de futebol: alguém que percebe muito do jogo, mas que, acima de tudo, privilegia o homem e a pessoa.
- E quais são as principais qualidades do mister Rui Borges?
É muito preocupado com o bem-estar do jogador, mesmo fora do clube. Quer saber como está a tua vida, o que fazes, se estás bem e se tens condições para treinar. Se chegas um pouco menos bem do ponto de vista mental, é o primeiro a dizer: “Hoje não estás bem para treinar. Descansa, prefiro que descanses.”
Acho que, acima de tudo, é um ser humano incrível, além do bom treinador que é. Não sei o que aconteceu este ano para não ter conseguido atingir os objetivos, mas tenho pena, porque gosto muito dele, tanto enquanto treinador como enquanto pessoa.
"Ir para o Sporting seria a oportunidade da minha carreira"
- E quais foram os treinadores que mais o marcaram até agora?
Mitchell van der Gaag foi o treinador que me lançou e a quem vou estar eternamente grato. Tive também o Rui Jorge e o mister Romeu que foram, além de bons treinadores, pessoas que me moldaram para a vida, a maneira como eles viam o futebol e não só. Aquilo, não sei, eles incutem-te uma coisa que não dá para explicar, só mesmo convivendo com eles para perceber porque são muito exigentes, são pessoas sérias e forçam-te a ser. Basicamente, eles forçam-te a ser aquilo porque não há outra maneira de trabalhar com eles.
E acho que cresci muito com eles e muitas das coisas que levei, que fui e me tornei enquanto profissional foi graças àquilo que eu aprendi com eles nos dois anos em que trabalhei com eles. Tive também o mister José Mota que era uma pessoa muito boa, também não é um treinador consensual no mundo do futebol. Há muita gente que gosta, outra que não, mas eu gostei, acho que acima de tudo porque gosto de treinadores que se preocupam com o homem, não só com o jogador de futebol.
E o José Mota também era um bocadinho isso. Tive o Rui Borges, tive o Álvaro Pacheco que também foi... No Vitória SC eu acho que apanhei muito bons treinadores. O mister Daniel Sousa, tive pouco tempo com ele, mas identificava-me com a ideia dele.
O mister Moreno também, um homem também incrível, boa gente. E pronto, tive muitos bons, alguns menos bons, mas é como eu disse anteriormente, aprendi um bocadinho com todos eles.
- Aos 33 anos, ainda alimenta alguns sonhos, como jogar num clube com outra dimensão?
Sou uma pessoa muito ambiciosa, mas também realista. Tenho consciência de que a grande oportunidade da minha carreira surgiu quando saí do Vitória SC e apareceu a possibilidade de ir para o Sporting. Seria a oportunidade de representar um clube com presença na Liga dos Campeões e com uma projeção diferente.
Mas também tinha 32 anos e sei como funciona o futebol atual. Hoje, olha-se muito para jogadores jovens, com potencial de venda. É difícil um clube investir num jogador dessa idade.
Quando escolhi o Catar, optei pelo bem-estar da minha família e também pela estabilidade financeira. Sabia que, provavelmente, essa oportunidade de dar outro salto desportivo já não voltaria a aparecer.
- Faltou um esforço extra por parte do Sporting?
É o que é, essa é a realidade. Quando escolhi o Catar, optei pelo bem-estar da minha família e também pela estabilidade financeira. Sabia que uma oportunidade como a do Sporting provavelmente já não voltaria a aparecer.
Podia ter pensado: “Vou arriscar, vou ganhar bastante menos, mas é uma grande oportunidade.” No entanto, também tinha 32 anos e sabia que, mesmo que jogasse no Sporting, dificilmente sairia depois para um clube muito maior.
Hoje em dia, não apenas no futebol português, há uma aposta muito grande em jogadores jovens e com potencial de venda. Poucos clubes querem investir num jogador de 32 anos. Isso também foi um entrave à minha ida para o Sporting, porque o clube não queria pagar pela minha saída do Vitória SC e o Vitória SC também não estava disposto a deixar-me sair livre para o Sporting.

- No início da carreira, o Tiago jogava como um número dez à antiga e com o passar dos anos foi recuando no terreno. Qual é a posição em que mais gosta de jogar?
Em relação à posição, o Aimar sempre foi o meu ídolo e sempre gostei muito de jogar nessa zona do terreno. Mas, com o tempo, fui ganhando um gosto diferente por jogar mais atrás, porque sentia que tinha mais bola e que era mais importante para a equipa.
Sinto que, nessas posições, consigo participar mais no jogo e dar mais à equipa. As minhas melhores épocas foram como médio oito ou como médio seis. É aí que sinto que consigo tirar o melhor de mim.
- Estamos na fase de todas as decisões no Mundial-2026. Até onde poderá chegar a nossa Seleção?
Acredito que Portugal pode ganhar. Temos jogadores incríveis, alguns dos melhores do mundo, e parece existir um grupo muito unido, o que é fundamental neste tipo de competições.
Aposto todas as minhas fichas em Portugal. Caso não seja Portugal, diria a França. Há outras seleções muito fortes, como Espanha, Argentina ou Brasil, mas a minha segunda aposta seria a França.
- Quais são as ideias que o Tiago defende para tornar o futebol português mais competitivo?
Acima de tudo, é preciso valorizar mais o jogador português. Pagam-se salários muito elevados a muitos jogadores estrangeiros que nem sempre acrescentam verdadeira qualidade, enquanto há jogadores portugueses nas divisões inferiores com muito valor e pouca valorização. Basta olhar para o exemplo do Torreense, que ganhou a Taça de Portugal com jogadores que não tinham salários milionários.
Não digo que todos devam ganhar o mesmo, porque há jogadores de outro nível que merecem outro tipo de reconhecimento. Mas existe um desequilíbrio muito grande. Temos de proteger e valorizar mais aquilo que é nosso.
O exemplo do João Moutinho mostra isso. Aos 39 anos, continua a ser importante no SC Braga e renovou contrato porque dá garantias à equipa. Em Portugal, muitas vezes, prefere-se apostar num jogador estrangeiro com potencial de venda em vez de valorizar um jogador português que já demonstrou qualidade.
- Tem alguma história mais curiosa ou fora da caixa que gostaria de partilhar?
Lembro-me muito da pré-época no Belenenses, em 2012/13, quando fomos para os Fuzileiros. Foi uma experiência marcante. Estivemos privados de sono, acordávamos às seis da manhã e tínhamos treinos e atividades muito exigentes.
Na primeira noite, acordei com tiros. Já me tinham avisado de que, provavelmente, nos iam mandar fazer a cama, por isso decidi dormir por cima dos lençóis para não ter esse trabalho de manhã. Passei um frio enorme e, no fim, ainda me desfizeram a cama na mesma.
Também fizemos atividades no lodo, algumas delas com jogadores lesionados que tínhamos de carregar ao colo. Foi duro, mas ajudou muito a criar espírito de grupo. Éramos praticamente todos desconhecidos, muitos vindos da Liga 3, mas acabámos por fazer história e ainda hoje detemos o recorde de pontos da Liga 2.
- O Tiago iniciou a carreira na formação do Benfica. Ficou com alguma mágoa por não ter triunfado no clube?
Não, nenhuma. O Benfica era e continua a ser o meu clube de coração. Sou benfiquista e não escondo isso. Claro que gostava muito de ter triunfado ali, mas não guardo qualquer mágoa.
Cresci muito no Benfica, fiz grandes amizades e foi uma experiência muito importante para mim, tanto enquanto jogador como enquanto homem. Nada acontece por acaso. O futuro trouxe-me até aqui e aceito isso com tranquilidade.
