Em conversa com o Flashscore no Portugal Football Summit, pouco depois da sua intervenção, o antigo Administrador Delegado do Milan e atual consultor sénior para clubes de futebol explicou porque é que as regras da Serie A estão a prejudicar o talento italiano, porque é que o Como deveria ser visto como um modelo de referência e não como um problema, e quais os erros cometidos pelos investidores estrangeiros ao comprar um clube de futebol.
A longa ausência de Itália do Mundial
Para Fassone, a ausência da Itália em três Mundiais consecutivos não pode ser atribuída a uma única causa. Aponta antes para um longo declínio da qualidade do futebol nacional, sem que nenhum clube italiano vença a Liga dos Campeões desde o Inter em 2010.
“Existem muitas razões, não apenas uma”, disse ao Flashscore. “Mas quando o ciclo negativo se prolonga durante tanto tempo, és obrigado a olhar para a estrutura e para as regras do sistema. Se analisares os dados disponíveis hoje, vês que os jogadores italianos são muito pouco utilizados na Serie A. O produto futebolístico gerado atualmente pela Serie A é fraco".
Segundo ele, o problema nasce precisamente do quadro regulamentar, e a mudança tem de partir do topo.
“As regras atuais não favorecem o desenvolvimento dos talentos e dos jogadores italianos”, afirmou Fassone. “Esperamos que, com Roberto Mancini agora, e com o novo presidente da federação, possam ser introduzidas novas regras para apoiar o nível do nosso futebol".

Apesar de não ter sugerido medidas concretas à federação, Fassone foi claro quanto à dimensão do problema. A escassez de jogadores italianos na Serie A, segundo ele, deixou a seleção com uma base de escolha perigosamente reduzida.
"O número total de jogadores italianos convocáveis para a seleção é mesmo, mesmo baixo", afirmou. "Na última convocatória, há poucos dias, Mancini foi obrigado a olhar para fora de Itália para encontrar jogadores elegíveis. Com as leis gerais da Comissão Europeia, é preciso encontrar uma forma de premiar os clubes que apoiam a seleção. Se não o fizeres, será difícil sair desta situação".
A ascensão do Como
Poucos clubes representam melhor do que o Como a tensão entre a ambição dos clubes e o interesse nacional. A sua rápida ascensão foi acompanhada por críticas devido à falta de jogadores italianos, com o clube a poder inscrever apenas cerca de 20 jogadores para a Liga dos Campeões e a pagar um valor extra por contratações formadas em Itália como Moise Kean.
Quando questionado se o Como faz parte do problema ou da solução, Fassone respondeu simplesmente: "Ambas as coisas".
"A história do Como, na minha opinião, é extremamente interessante", afirmou. "Gosto do que fizeram nos últimos três ou quatro anos. Penso que são uma referência para outros clubes. Mas a perspetiva de um clube individual não é a mesma da federação. Não têm o mesmo objetivo".
Explicou que o Como quis construir um novo clube de topo em Itália através de uma estratégia completamente diferente, baseada no marketing e na atratividade internacional do Lago de Como. A escassez de jogadores italianos, segundo ele, é uma consequência natural desta abordagem, não um defeito.
De acordo com Fassone, o que o Como realmente evidencia é um problema mais profundo relacionado com as regras financeiras que os clubes têm de cumprir tanto a nível europeu como nacional. As atuais normas permitem que os clubes gastem apenas entre 70 e 85 por cento das receitas em salários e transferências, dependendo do país, tornando quase impossível um crescimento rápido para os clubes mais pequenos.
"O Como não está em conformidade com o FFP, porque não podes fazer crescer o teu clube se as receitas são baixas", afirmou. "Se o Como tivesse cumprido estas regras, não estaria onde está hoje".
Insiste que a responsabilidade é dos órgãos de governação, não do clube. "A combinação entre regras financeiras e regras futebolísticas não está nas mãos dos clubes. Está nas mãos da federação italiana e da UEFA", disse. “Precisamos de casos como o do Como. São muito, muito importantes. Não são algo para apagar ou descartar dizendo que não cumprem as regras".

Isto não significa que Fassone apoie a posição da direção do Como de que basta pagar as multas do FFP e seguir em frente. “Isto não é a solução”, afirmou. “Não podes simplesmente dizer: ‘Ok, pagámos a multa.’ Não é uma solução a longo prazo".
Quanto à forma como o Como subiu tão rapidamente, Fassone atribui o mérito a uma mentalidade empresarial clássica, com investimentos significativos em infraestruturas e jogadores muito antes de chegarem as receitas.
“Como podes melhorar o teu produto se esperas que as receitas cresçam?”, questionou. “As receitas crescem depois de investires, e isto aplica-se a qualquer setor, não apenas ao futebol. Provavelmente foram mais rápidos do que esperavam no início. Mas fizeram aquilo que recomendo sempre. Se és empresário, tens de investir primeiro, e depois os resultados aparecem".
A propriedade dos clubes
A multipropriedade de clubes tornou-se uma das tendências mais relevantes do futebol moderno, com o City Football Group e os proprietários do Chelsea, BlueCo, a construírem redes de clubes. Fassone, que aconselha proprietários de clubes e considera Giampaolo Pozzo (proprietário da Udinese e do Watford) um amigo próximo, acredita que o sistema pode funcionar se for bem gerido.
“Do ponto de vista empresarial, penso que a multipropriedade é um sistema que pode funcionar”, afirmou.
Segundo Fassone, a chave está na diversidade dentro da rede: clubes de diferentes dimensões e categorias, distribuídos por países com regulamentos distintos, como as vantagens de Portugal com jogadores portugueses e brasileiros ou as regras da Suíça sobre o número de estrangeiros em campo.

“Podes construir um percurso de crescimento para os teus jogadores, começando pelo clube mais pequeno e subindo de nível”, explicou. "Se gerires bem a parte financeira, entre empréstimos e transferências, podes proteger um clube em dificuldades com outro que esteja saudável nesse momento. Se fizeres tudo isto respeitando as regras, e evitares que clubes da mesma rede participem na mesma competição internacional, estou muito confiante de que a multipropriedade pode ser um bom caminho para o crescimento".
Tendo aconselhado vários investidores que se aproximaram do futebol, Fassone identificou também o erro mais comum dos recém-chegados: pensar que o futebol funciona como qualquer outro setor.
“O pressuposto natural quando investes em algo novo é: ‘Se tive sucesso no imobiliário ou noutro setor, posso ter sucesso também no futebol usando as mesmas regras'”. afirmou. “Esta é a primeira coisa que tento ensinar-lhes. O futebol é um mundo completamente diferente. É o único setor em que os teus jogadores, os teus funcionários, são um ativo financeiro".
O seu conselho aos novos proprietários é adaptarem-se, não transplantarem. “Seguramente podes trazer algo da tua experiência anterior, mas não tudo”, disse. “Procuro ensinar-lhes a não cometerem demasiados erros no início ao pensarem que podem replicar exatamente aquilo que já viveram".
