Inter campeão: um título menos óbvio do que aparenta

O triunfo de Cristian Chivu
O triunfo de Cristian ChivuREUTERS/Alessandro Garofalo

Números, gestão e contexto traçam um percurso consistente e longe de ser óbvio, marcado por ausências de peso e decisões estratégicas determinantes. O treinador concentrou todas as fichas no campeonato e construiu um sucesso sólido, sustentado e plenamente merecido.

O último a tentar foi Cesc Fàbregas, após a duríssima reviravolta sofrida pelo seu Como na segunda mão da meia-final da Taça de Itália: "Jogámos contra uma equipa que está junta há anos e que vai conquistar o scudetto. No ano passado chegaram à final da Liga dos Campeões, o Chivu nunca o dirá, mas se treinares estes jogadores estás cada vez mais perto de vencer".

Palavras que, para lá do contexto, acabam por reabrir um tema central da época oa Inter e, sobretudo, da gestão de Cristian Chivu: a perceção externa do valor do plantel nerazzurri e do real peso do sucesso no campeonato.

Narração e realidade

Durante meses, em torno dao Inter, sedimentou-se uma narrativa quase binária: ou vitória obrigatória ou fracasso total. Uma leitura que alimentou a ideia de que a equipa era claramente superior a todas as outras do campeonato.

Uma suposição apenas parcialmente confirmada pelos factos, porque se é verdade que o Nápoles – a outra grande potência da Serie A – viveu uma época marcada por lesões graves, não deixa de ser verdade que também o clube nerazzurri teve ausências importantes e momentos de emergência sem, contudo, perder, ao contrário dos restantes, o nível competitivo

A classificação
A classificaçãoDiretta

E a verdade é que, no caso do Inter, as dificuldades surgiram precisamente no momento mais delicado do percurso. Desde Lautaro Martínez, referência técnica e mental da equipa, que não esteve disponível de forma contínua, até um craque como Denzel Dumfries que, quando voltou a estar à disposição de Chivu, mostrou que com ele em campo a equipa eleva claramente o seu nível.

O conjunto destas variáveis torna impossível um juízo absoluto sobre a época nerazzurri, apesar de de fora se ter preferido reduzir tudo a uma simples equação entre o plantel mais forte e o título inevitável, minimizando o esforço real do percurso.

Primeiro o campeonato

Em termos de números, porém, o campeonato do conjunto de Milão conta outra história. O Inter vai terminar a prova com o melhor ataque, com uma vantagem enorme em relação à segunda equipa mais ofensiva, que neste momento ultrapassa os vinte golos de diferença, mantendo uma média superior a dois golos por jogo, mais um dado nada garantido no contexto da Serie A.

Um rendimento que se insere numa ideia de continuidade construída desde o início da era Chivu, que sempre deu prioridade ao campeonato em relação às outras competições, apostando frequentemente – por vezes até em demasia – em grandes rotações na Liga dos Campeões e na Taça de Itália.

Foi precisamente esta abordagem que alimentou o debate a nível europeu, onde a humilhante – porque foi mesmo assim – eliminação frente ao Bodo Glimt foi vista por muitos como um limite mais mental do que estrutural.

Mas não é bem assim. Porque se é verdade que o Inter disputou duas das últimas três finais da Liga dos Campeões, também é certo que, quando conseguiu chegar ao fim da maior competição continental, foi porque pôde contar com a total disponibilidade dos seus jogadores-chave e com a melhor versão do seu eixo principal.

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De Acerbi na defesa, a Çalhanoglu, Barella, Mkhitaryan e Dumfries no meio-campo. E, sobretudo, um Lautaro em condições ideais com um parceiro de ataque em grande forma: basta pensar na temporada extraordinária de Marcus Thuram no ano passado ou na dupla de luxo Lukaku-Dzeko em 2023. E ninguém pode realmente afirmar que este equilíbrio fundamental não se perdeu, razão pela qual era impensável que o nível geral não fosse afetado.

Objetivo: uma dobradinha histórica

Nesta perspetiva, a escolha de Chivu parece menos ideológica e mais pragmática: uma leitura realista das prioridades da época, com o scudetto como objetivo principal e a amarga consciência, ao longo do caminho, dos limites naturais do grupo em várias competições. Uma linha que, apesar das críticas externas, permitiu manter a coesão interna e resultados consistentes no campeonato, levando ao vigésimo primeiro título da história nerazzurri, com a possibilidade ainda em aberto de alcançar uma dobradinha histórica.

É que o Inter não conquista campeonato e Taça de Itália na mesma época desde 2009/10, temporada do Triplete com José Mourinho, e só noutra ocasião (2006) na sua história conseguiu atingir ambos os objetivos. Um dado que mostra o real peso do percurso atual, sobretudo para uma equipa que teve de lidar com expectativas elevadíssimas desde o início.

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Neste cenário, a época de estreia de Chivu situa-se numa linha clara: por um lado, a desilusão europeia que o técnico romeno, no próximo ano, terá de corrigir, sob pena de ser despedido; por outro, a possibilidade concreta de transformar uma temporada que começou entre dúvidas e incertezas – depois da goleada sofrida frente ao PSG na final da Liga dos Campeões – numa campanha histórica.