O clube milanês ainda é o segundo com mais troféus conquistados na Liga dos Campeões, apenas atrás do inalcançável Real Madrid, e o terceiro com maior número de títulos de Itália, mas a última Champions data já de 2007 e o século XXI trouxe aos rossoneri apenas três scudetti, o mais recente em 2022. É esta a escala do desafio que espera por Ruben Amorim.
Naquele período, o AC Milan foi ultrapassado pelo Inter de Milão na galeria dos vencedores da Liga transalpina, ambos atrás da Juventus (a vecchia signora está para a Serie A como os merengues estão para a Liga dos Campeões) e na última época reduziu-se a um modesto quinto lugar, agravado por mais um cortejo vitorioso do rival milanês nas ruas da cidade.
Por enquanto, o técnico português, de 41 anos, não poderá disputar a Champions em Milão, tal como aconteceu no Manchester United, ao qual chegou em novembro de 2024 com a aura dos êxitos alcançados no Sporting, que não conseguiu transportar para o colosso inglês, afastado da ribalta desde a saída do treinador escocês Alex Ferguson, em 2013.
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Os red devils terminaram no 15.º lugar da Liga inglesa de 2024/25 - a pior classificação na era moderna da Premier League - e Ruben Amorim só sobreviveu à primeira metade da última época, tendo sido despedido em janeiro de 2026, numa altura em que o United ocupava o sexto lugar. Foi já com Michael Carrick ao leme que trepou até ao meritório terceiro lugar final.
Um desfecho que dificilmente seria antecipável 14 meses antes, apesar da fama do clube de Manchester de ser um cemitério de treinadores. Ruben Amorim acabava de chegar ao mais importante campeonato europeu cotado como um dos técnicos da moda, após idealizar a revitalização do Sporting, que deixava como líder invicto em Portugal.
Quase seis meses depois de ter comemorado o 20.º título leonino, e segundo em quatro épocas completas em Alvalade, o ex-médio suprimiu com alguma surpresa o desígnio de continuar a perseguir o primeiro bicampeonato do clube em 70 anos -alcançado pelo sucessor Rui Borges - e aceitou suceder ao neerlandês Erik ten Hag no comando do recordista de conquistas da Premier League (20).
A dimensão da tarefa que assumia nos red devils tinha traços comuns com a missão enfrentada desde março de 2020, quando abdicou da solidez competitiva do SC Braga para unir as pontas soltas e reerguer um Sporting historicamente talhado para a instabilidade.
Ruben Amorim foi devolvendo com juros os 10 milhões de euros (ME) investidos pelos leões, quantia igual à cláusula de rescisão exercida mais tarde pelo United, que não beneficiou de idêntico retorno desportivo e até teve custos acrescidos com o despedimento de um técnico com futebol acutilante, fidelidade tática ao 3-4-3 e discurso descomplexado.
A chegada a Alvalade foi encarada com ceticismo por adeptos e imprensa, mas promoveu uma tirada desarmante e auspiciosa em plena apresentação: “As pessoas perguntam: ‘E se corre mal?’. Eu pergunto: ‘E se corre bem?’”, afiançou, com a porta 10A como pano de fundo e perante o olhar do mentor dessa aposta arriscada, o presidente Frederico Varandas.
Por entre duas Taças da Liga (2020/21 e 2021/22) - que também logrou pelo SC Braga (2019/20) - e uma Supertaça Cândido Oliveira (2021), o ex-médio atingiu o auge com os campeonatos de 2020/21, quando quebrou um interregno de 19 anos e numa época sem adeptos nos estádios, devido à pandemia de covid-19, e 2023/24, com recordes de pontuação (90) e vitórias (29) do clube numa edição da Liga e o melhor ataque desde 1973/74 (96 golos).
A derrota na final da última Taça de Portugal, que podia ter selado a primeira dobradinha do Sporting em 22 anos, impediu Ruben Filipe Marques Diogo Amorim, nascido em 27 de janeiro de 1985, em Vila Franca de Xira, de completar o palmarés nacional nos bancos e repetir o quarteto de troféus vencidos nos relvados pelo Benfica, entre 2008 e 2015.
O clube da Luz, do qual era adepto desde miúdo, acomodou as suas primeiras etapas no futebol - por entre uma curta aventura no hóquei em patins -, seguindo-se CAC Pontinha, Ginásio de Corroios e Belenenses, através do qual se estreou a nível sénior, em 2003/04.

Duas épocas de afirmação sob alçada de Jorge Jesus motivaram o Benfica a investir um ME na aquisição de Ruben Amorim, em 2008/09, trajeto replicado pelo técnico no exercício seguinte, com essa dupla a cooperar na conquista de 10 troféus, incluindo três campeonatos (2009/10, 2013/14 e 2014/15), além da final da Liga Europa perdida no desempate por penáltis frente aos espanhóis do Sevilha, em 2013/14.
Brincalhão fora de campo, mas sem descurar fortes convicções nos treinos e jogos, o ex-médio chegou a ter desavenças com Jorge Jesus e foi emprestado ao SC Braga, celebrando uma das seis Taças da Liga do seu currículo como jogador (2012/13), no qual constam 14 jogos pela seleção nacional, que representou nos Mundiais de 2010 e 2014.
O regresso ao Benfica acentuou um histórico de lesões e cirurgias nos joelhos e baixou a sua influência nos relvados, originando uma cedência ao Al-Wakrah (2015/16), do Catar, antes de longos meses de inatividade e do final da carreira em 2017, então com 32 anos.
Depois de 18 golos em 337 partidas, começou a formar-se como treinador e debutou em 2018/19 pelo Casa Pia, do qual se demitiria ao fim de meio ano, punido pelo Conselho de Disciplina (CD) da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) por dar indicações em jogos como estagiário - decisão anulada mais tarde pelo Tribunal Arbitral do Desporto (TAD).
Os gansos subiram à Liga 2 e arrebataram o Campeonato de Portugal, patamar ao qual Ruben Amorim voltaria em setembro de 2019 para orientar o SC Braga B até dezembro, altura em que, já com o segundo nível, teve uma sucessão impactante a Ricardo Sá Pinto na equipa principal e persuadiu o Sporting a concretizar o terceiro negócio mais caro de sempre nos bancos - com atrasos nos pagamentos, mais IVA, ascendeu a 14,6 ME.
Inserindo novas nuances no modelo tático de sempre, o sucessor de Jorge Silas foi figura central do sucesso leonino, ao ser crucial na crescente competitividade do plantel, na abordagem ao mercado, na comunicação ou na rentabilização da formação, ajudando a diluir as críticas à gestão de Frederico Varandas.
Segundo técnico com mais jogos (228), vitórias (161) e troféus da história do Sporting, tornou-se também o mais jovem português a conquistar a Liga por duas vezes nos bancos, imitando a vertiginosa projeção do ídolo José Mourinho, com quem estagiou no emblema de Old Trafford, em 2018.
