Em 2024, foi o vencedor do Prémio Puskás de golo mais bonito do mundo em 2023. O prémio leva o nome do ex-craque húngaro e existe desde 2009, reconhecendo feitos marcantes de jogadores que não precisam de estar nos maiores clubes do mundo.
Madruga - sobrenome e não apelido - anotou um golaço de bicicleta, de fora da área, contra o Novorizontino, na Série B do Brasil. Faria outro gol daqueles contra o Tigre, antes do meio-campo, entrando na lista de responsáveis por terem marcado o "golo que Pelé não fez".
Nesta entrevista exclusiva com o Flashscore, direto da China, onde defende o Shandong Taishan, Guilherme Madruga falou sobre a transformação do prémio na sua vida e de como a carreira andou desde então.
- Ainda recorda o golo que lhe valeu o prémio?
- Foi impressionante, foi algo que eu não estava à espera. Uma bicicleta de fora da área não é comum de acontecer. Foi uma decisão muito rápida, e o detalhe é que o lance aconteceu logo depois que eu sofri um corte no supercilio, ainda estava mal da cabeça, um pouco tonto. O Novorizontino vinha de sete vitórias seguidas, salvo engano, e ganhamos na casa deles com este golo. Foi uma noite muito especial pra mim, gosto de falar que foi algo divino, algo de Deus. Eu quase saí do jogo e isso acontece em seguida. Foi algo impressionante e inesperado, a jogada veio de um lateral, a bola sobrou e acertei a bicicleta de fora da área. Foi um lance que marcou a minha carreira por causa da dimensão do prémio, foi muito bom.

- Foi a alternativa que teve naquele momento, de costas para a baliza... Muitos podiam optar por dominar, colocar no chão, tentar virar o jogo, mas fez a bicicleta mesmo com a bola a subir, sem muito a perder...
- Muita gente pergunta o que eu estava a pensar. Foi uma decisão muito rápida, por isso falo que foi algo de Deus. Não tem como explicar. Já é difícil fazer uma bicicleta de fora da área, ainda mais fazer o golo. Tive a intenção de fazer o golo, o pensamento veio e foi algo poderoso. Não tinha como dominar, a bola pinga e decido na hora. Foi uma bênção. Cheguei a perguntar ao Jordi (guarda-redes), no jogo da segunda volta, se ele estava à espera, se poderia ter sido um erro de posicionamento dele, mas ele deu-me o mérito.
- Saiu de campo já a pensar sobre essa questão do Prémio Puskás?
- No jogo, não pensei nisso. Mas, na entrevista pós-jogo, veio a pergunta, falaram que até existia uma campanha com a hashtag #madrugapuskas e o sonho começou. A partir dali, comecei a pensar nisso, é algo que nunca tinha pensado na minha vida, ainda mais para um médio defensivo. Comecei a acreditar que seria possível, foi um lindo golo. No outro dia, eu e o meu pai ficamos a brincar para ver quem via mais vezes o golo, o meu irmão também entrou na brincadeira... O golo passou em vários canais, foi muito bom ver a proporção que tomou. Logo depois do jogo, comecei a acreditar que poderia ganhar esse prémio.
- Chegou a ver os outros golos para analisar suas hipóteses?
- Sim, fiquei a ver golos da jornada, sempre ficava de olho se tinha algum mais bonito, tanto no Brasileirão como de outros lugares do mundo. Depois que saiu o meu entre os 10, eu vi que tinha hipótese. Depois ficaram três, segui na disputa e vi que tinha possibilidades de vencer. No dia do prémio, encontrei o Cafu e a Marta, eles falaram que tinham votado em mim, isso deu mais confiança. Mas não tinha como saber, eu estava com aquele nervosismo, e os outros golos também tinham sido bonitos. Eu estava confiante, mas não sabia o que iria acontecer.
- Tornou-se um carrasco do Novorizontino porque, no jogo seguinte, fez um outro golaço. Esse golo aconteceu após a data limite do prémio que ganhou. Poderia ser algo inédito, um jogador concorrer com dois golos no mesmo prémio..
- Até hoje, quando o Botafogo de Ribeirão Preto vai jogar contra o Novorizontino, muita gente me marca e brinca a dizer que eu sou o pai do Novorizontino. É uma brincadeira, tenho um carinho enorme pelo Novorizontino, é um clube que gosto e acompanho. Foi uma temporada muito boa no Botafogo de Ribeirão, marquei estes dois belos golos, algo difícil de acontecer, até por ter sido contra o mesmo adversário. Mas posso, sim, dizer que sou um pouco carrasco do Novorizontino.
- Que lembranças tem do prémio da FIFA?
- Levei o meu irmão comigo na premiação, ele é mais velho e a gente conhecia muitos jogadores pelo facto de jogarmos muitos videojogos. Ele até conhecia mais jogadores do que eu. Quando nós chegamos lá, lembro que a gente viu Del Piero, esses nomes... Foi algo especial, vi pessoas que eu jamais imaginei estar junto. Fizemos as refeições no mesmo ambiente de muitos craques, o meu irmão apanhou o elevador com o Roberto Carlos, teve uma conversa com o Cafu. Acabei por o admirar ainda mais depois disso, brinquei com a Marta, achei até que já era íntimo dela... Foi especial estar ao lado dessas pessoas, estar ali no mesmo palco dos melhores do mundo, o melhor técnico foi o Guardiola... São pessoas essenciais para o futebol, gente que fez história... Só de estar no palco foi magnífico.
- O discurso estava pronto ou precisou de improvisar?
- Eu não tinha nada pronto, até comentei com o assessor do Botafogo-SP que precisava de ter algo pronto, não sabia se ia ganhar. Se ganhasse, tinha que ter algo pronto. Muita gente estaria a assistir, queria falar algo especial. É o momento em que todo o mundo está a ver, queria falar um pouco de mim, das pessoas que estavam por trás, de quem me ajudou a ser um jogador de futebol. Não é uma carreira fácil, passamos situações complicadas. De tarde, fiquei sozinho no meu quarto e pensei no que ia falar. Coloquei um louvor na TV, comecei a chorar sozinho, foi um momento bem íntimo. Não falei para muitas pessoas sobre isso, mas chorei a pensar no discurso que eu poderia falar e fiz questão de falar do meu pai. Ele dava treino para mim na areia quando eu tinha 13 anos. Isso acontecia às sete da noite num clube, os sócios ficavam vendo aquilo... O meu pai não tem formação de treinador nem nada, mas ele confiava em mim. Alguns chamavam o meu pai de louco por dar treino para um menino de 13 anos a achar que ia virar jogador. Era uma cidade de 24 mil habitantes. No discurso, eu também cito a minha mãe. Ela chorava escondida, não me falava por conta da distância, por causa da saudade. Então consegui falar dos meus pais, da minha família, um dos principais pilares para mim ao lado de Deus. Consegui demonstrar da melhor forma, mesmo sendo uma pessoa tímida. O prémio deu-me tranquilidade para falar em qualquer lugar. Ali, eu estava a falar na frente de campeões do mundo, de grandes pessoas do futebol. Hoje eu consigo falar em qualquer ambiente, foi algo que me trouxe esta aprendizagem. Foi algo muito bom, mas nada planeado.
- Como é que a sua sua carreira mudou depois disso? Quando se transferia para um novo clube, existia a expectativa de voltar a fazer um novo golo bonito?
- Sim, logo depois do golo, comecei a sentir-me um pouco mais pressionado, porque isso trouxe visibilidade. Comecei a ter mais seguidores nas redes sociais, a ser mais acompanhado, e isso era bom de certa forma, eu era mais visto. Mas também trazia a pressão. No próprio Botafogo já teve isso. Na época, falei com o meu psicólogo que precisava de ficar mais focado. Sabia que isso iria trazer pressão, mais pessoas iriam ver os meus jogos, querendo ver algo melhor. O meu jogo é bom, mas não sou esse tipo de fazer golos bonitos. Depois do Botafogo e até no Cuiabá, teve essa brincadeira de que eu tinha que fazer um novo golo digno de Puskás. Todos os lugares têm isso, mas eu levo numa boa, sem pressão. Sei que vou fazer o meu melhor, às vezes vai sair um golo bonito e sempre vai ter essa pressão.

Tento não colocar um peso e levar numa boa. Isso acontece por mérito e não é sempre que se vai repetir. Mudou um pouco a minha trajetória, tornei-me um jogador mais visto, mais procurado. No Cuiabá, estava cheio de expectativa, achei que eu tinha acertado na escolha, mas infelizmente não deu certo. Mas apareceu essa oportunidade da China, queria estar a jogar mais, já que no Cuiabá não estava a conseguir. Agora estou a ter mais tempo de jogo, a ter visibilidade, e tenho melhorado. Pedi a Deus, na época de Cuiabá, e Ele abriu as portas na China. Sabia que era longe, que estaria sozinho, mas tem dado certo.
- Como tem sido a experiência na China?
- Aqui aprende-se bastante, é um jogo diferente. É um país mais fechado, poucos jogadores da China vão para fora, e precisamos de lidar com profissionais diferentes. É preciso cuidar mais, porque senão você se prejudica. Tenho aprendido a ser mais profissional, cuidar mais de mim. A liga tem um nível muito bom, os estrangeiros que vêm para cá são muito bons e agregam bastante. Muitos falam que a liga chinesa é fácil, mas aqui, se você não se cuidar, não consegue desenvolver um bom jogo. As coisas têm melhorado, tenho jogado bastante, tenho uma relação boa com os adeptos e com o clube. A estrutura é invejável, era isso que eu queria, estar num lugar bom para trabalhar. Estou num clube grande, estamos sempre a disputar as primeiras posições e gosto disso.

- Tem contrato até dezembro. Já existe conversas para renovar?
- No meio da temporada apareceu uma proposta da Rússia e de outros clubes. Estou à espera, o clube mostra uma certa dificuldade para libertar. Mas eu gosto muito de estar aqui e iremos conversar sobre a renovação. Isso depende do mercado. A China é um país tranquilo e seguro, diferente do Brasil. Tem também a questão cultural, adaptei-me bem. Os primeiros seis meses são mais difíceis, mas, depois da adaptação, vive-se muito bem.
- Qual o motivo do apelido?
- Esse é o meu sobrenome. O meu nome completo é Guilherme Miranda Madruga Gomes. Na época não gostava do Madruga, porque fazia muita referência ao Seu Madruga da série Chaves. Quando entrei no mundo do futebol, tinha outro Guilherme também, o treinador da época começou a chamar-me de Madruga e ficou. Depois, comecei a gostar. O meu avô também era conhecido desta forma, ele é muito querido por mim, e depois habituei-me a isso.
- Foi descoberto num jogo entre ex-jogadores do Corinthians e do Internacional. Como foi isso?
- Eu tinha 14 anos, essa história é um pouco engraçada. Teve um jogo das estrelas com Marcelinho, Biro-Biro, etc... Depois, teve um churrasco, o meu pai acabou por fazer amizade com o Marcelinho Carioca e apareceu a oportunidade de ir para São Paulo fazer um teste no Corinthians. Eu morava no interior de Mato Grosso do Sul, não sabia de muita coisa, até mesmo de futebol. No teste na escola do Marcelinho, estive muito mal, muito mesmo. Não teve como ser aprovado. Daí, lá em São Paulo mesmo, apareceu outro empresário, e aí comecei a trajetória do futebol. Aos 15 anos, disputei o Mineiro pela Usipa. Dali, fui para o interior de São Paulo até chegar ao Desportivo Brasil. Fiz a formação lá, e aí sim comecei a minha carreira, antes de aparecer para o cenário nacional.
