Acompanhe as incidências do encontro
Durante muito tempo, observou as avançadas adversárias a partir das suas próprias redes antes de se tornar, ela própria, o maior pesadelo delas. Nguenar Ndiaye, nascida a 10 de janeiro de 1995 em Mbour, representa uma das trajetórias mais invulgares do futebol senegalês. E numa altura em que o Senegal disputa a qualificação para os quartos de final da CAN frente a Marrocos, a avançada das Leoas está mais do que nunca no centro do projeto de Mame Moussa Cissé.
Uma reconversão vinda das redes
No entanto, tudo começa na baliza. Descoberta ainda muito jovem por Jean-Pierre Corréa, conhecido como "Tchampou", treinador das Dorades de Mbour, Nguenar Ndiaye integrou o clube desde tenra idade: foi mesmo a sua formação que, na altura, tratou de ir buscar os seus documentos de registo civil. Guarda-redes nos primeiros tempos, só encontrou a sua posição definitiva aos 16 anos, quando iniciou a transição para o ataque.
Este percurso levou-a depois ao AFA Grand-Yoff, em Dacar, e mais tarde ao AS Dakar Sacré-Cœur em 2020, onde disputou os play-offs da Division 1. No ano seguinte, representou o clube nas qualificações da zona A da Liga dos Campeões Feminina da CAF, onde terminou como co-melhor marcadora. Seguiu-se uma transferência decisiva: rumo à França e ao Bourges Foot 18, em 2021.
Em Bourges, a senegalesa encontrou o ambiente ideal para se afirmar. O clube, cujo acionista maioritário é nada menos do que Sadio Mané, tornou-se palco de uma evolução constante, rodeada por uma comunidade de compatriotas como Méta Kandé ou Safiétou Sagna, também chamadas à seleção. Sob a orientação da sua treinadora Sandrine Jacquet, Ndiaye trabalhou o seu pé esquerdo, sendo de origem destra, e foi corrigindo gradualmente as suas lacunas técnicas. "Ela ouve e esforça-se, mesmo quando não gosta", confidenciou a sua treinadora à Footeuses, elogiando ainda a humildade e a generosidade da jogadora fora do relvado. Já em maio de 2023, conduziu a sua equipa a um título regional, a Taça Centre-Val de Loire, com um hat-trick numa exibição coletiva.

As estatísticas falam por si. Nas últimas três épocas da D3 feminina francesa, Nguenar Ndiaye marcou 59 golos em 60 jogos, incluindo 13 golos em apenas 19 partidas na época 2025/2026, que permitiu às Bruyères garantir a subida à segunda divisão. Uma autêntica razia que não passou despercebida a Sadio Mané, muito atento ao percurso da equipa feminina e que, por diversas vezes, telefonou pessoalmente às jogadoras para as felicitar após os resultados, chegando mesmo a duplicar o prémio depois de um empate arrancado in extremis.
A referência ofensiva das Leoas
Ndiaye também demonstra esta eficácia com a camisola nacional. Decisiva logo nos play-offs de qualificação para a CAN 2022, onde foi eleita jogadora do jogo frente à Tunísia, já nessa altura assumia uma ambição desmedida. "Nunca vou ficar satisfeita quando se trata de marcar golos", confessou à Wiwsport, sonhando tornar-se uma referência continental no futuro.

A promessa cumpriu-se na edição de 2024. Ndiaye marcou dois golos frente à RD Congo e mais dois contra a Zâmbia, terminando como co-melhor marcadora do torneio com quatro golos, em igualdade com a marroquina Ghizlane Chebbak. Este total elevou o seu registo para cinco golos em fases finais da CAN, um recorde para o Senegal, tanto em masculinos como em femininos, antes do início da edição marroquina de 2026.
CAN 2026: um encontro com a história
Nesta terceira participação consecutiva das Leoas na CAN, a ambição expressa pelo selecionador Mame Moussa Cissé é clara: fazer melhor do que os dois últimos quartos de final e alcançar, pela primeira vez, as meias-finais, o que garante a qualificação direta para o Mundial feminino. Um objetivo que passa, mais uma vez, pelos golos de Nguenar Ndiaye.
O início do torneio, no entanto, foi complicado. Derrotadas logo na estreia pela Argélia (0-2), as senegalesas reagiram frente ao Quénia, vencendo por 1-0 graças a um golo de Seynabou Mbengue, com uma Ndiaye omnipresente junto à baliza adversária durante toda a segunda parte. Este triunfo relançou as Leoas na luta pela qualificação, mas o seu destino já não depende apenas delas: no topo do grupo A com seis pontos e uma defesa sólida, o Marrocos de Jorge Vilda chega à última jornada em posição privilegiada. O Senegal, terceiro com três pontos, precisa de um resultado frente às Leoas do Atlas esta segunda-feira à noite no Estádio Olímpico de Rabat, e de esperar um deslize da Argélia contra o Quénia, para garantir a presença nos quartos de final.
Aos 31 anos, quem outrora sonhava ser comparada aos maiores nomes do futebol já não tem nada a provar quanto ao seu estatuto de melhor marcadora da história das Leoas na Taça das Nações Africanas. Falta agora transformar esta razia individual num resultado coletivo, para oferecer ao Senegal a meia-final continental que ainda lhe escapa.

