Ir para o conteúdo principal

Feminino: Cabo Verde pode sonhar com um futuro mais risonho

Jogadoras de Cabo Verde aplaudem os adeptos
Jogadoras de Cabo Verde aplaudem os adeptosCAF Online

Cabo Verde não vai prosseguir na CAN Feminina 2026; derrotada pelo Gana (2-0) e depois pelo Mali (3-2), a equipa foi eliminada mesmo antes de disputar o último jogo do grupo. Mas para esta equipa, que está a descobrir a competição, a aventura é muito mais do que apenas pontos.

Siga o Cabo Verde - Camarões com o Flashscore

Há apenas um ano, a simples ideia de ver Cabo Verde disputar a CAN Feminina parecia quase utópica. O arquipélago, com uma população pouco superior a 500.000 habitantes, realizou o seu primeiro jogo internacional apenas em 2018, tendo ficado dois anos sem competir devido à pandemia de COVID-19.

A qualificação foi conquistada após um play-off muito disputado frente ao Mali: derrota por 1-0 em casa, na Praia, e depois uma reviravolta completa em Bamaco, que permitiu garantir a qualificação com um registo de golos agregado de 4-3.

Esta caminhada mágica faz parte de um verão excecional para o futebol cabo-verdiano. Apenas um mês antes, a seleção masculina disputou o seu primeiro Mundial e esteve perto de levar a campeã em título, a Argentina, a um desempate por penáltis nos oitavos de final, perdendo por 3-2 após prolongamento.

Segundo Tatiana Carvalho, vice-presidente da Federação Cabo-verdiana de Futebol responsável pelo futebol feminino, esse feito alimentou o espírito coletivo da equipa feminina. 

"Os feitos da equipa masculina são uma enorme fonte de motivação e inspiração para nós", explicou à ESPN antes do torneio: "Estamos a trilhar o nosso próprio caminho, baseando-nos nos mesmos princípios, determinadas a honrar a nossa bandeira, a nossa Federação e todo o povo de Cabo Verde."

No banco, esta história também tem um rosto: Silvéria Nédio, de 60 anos, que orienta a equipa desde a sua criação em 2018. Antiga jogadora de andebol, ginasta rítmica e futebolista, passou muitos anos como extremo no FC Juventude, nas ilhas.

Antes do início do torneio frente ao Gana, numa conferência de imprensa em Casablanca, não escondeu a emoção de liderar o seu país no palco dos gigantes do futebol africano. "É um privilégio absoluto estar aqui. Esperamos fazer um bom jogo, jogar com determinação, porque sabemos que o Gana é uma equipa forte e muito determinada. Estamos motivadas como grupo."

Um Grupo D desequilibrado

Em solo marroquino, a realidade desportiva rapidamente se impôs ao sonho. No entanto, depois de terem sido derrotadas na estreia pelo Gana, no estádio Moulay Rachid, as cabo-verdianas deram uma resposta muito mais convincente frente ao Mali, no domingo, no estádio Larbi Zaouli, em Casablanca.

A perder por 1-0 após um golo de Oumou Kone, responderam por intermédio de Eveline Varela, antes de voltarem a conceder na segunda parte perante um Mali mais eficaz, com golos de Fatoumata Niakate e Fatoumata Diarra. Alivia Kelly ainda reduziu a diferença nos descontos, fixando o resultado final em 3-2.

Dois golos marcados num só jogo, depois de um início difícil frente ao Gana: a estatística pode parecer modesta, mas tem significado para uma equipa que está a viver esta experiência competitiva pela primeira vez.

Num Grupo D dominado por uma Camarões intransigente – vencedora dos dois primeiros jogos e já com presença garantida nos quartos de final –, Cabo Verde nunca teve margem de erro para poder sonhar com a qualificação.

Jogar pelo orgulho

Resta assim um último ato, na quinta-feira, frente a uma equipa dos Camarões já apurada, mas que quererá terminar a fase de grupos em alta antes dos quartos de final.

Para as jogadoras cabo-verdianas, este jogo já não tem influência na classificação, mas mantém um peso simbólico: terminar a sua primeira CAN feminin de forma positiva, ganhar experiência internacional e, talvez, confirmar as promessas deixadas frente ao Mali.

A avançada Sandra Martins, que fez parte da sua formação em Inglaterra antes de integrar a seleção cabo-verdiana através da diáspora, já tinha avisado antes do torneio para não subestimarem a sua equipa.

"Acho que vamos estar bem, provavelmente melhor do que as pessoas esperam de estreantes, disse:  "O nosso objetivo são duas vitórias e, se todas derem o seu melhor e trabalharmos realmente em conjunto, podemos ter uma oportunidade de chegar à próxima ronda."

Uma bênção disfarçada

Durante a preparação, um acontecimento externo acabou por jogar a favor de Cabo Verde.

Esta CAN estava inicialmente marcada para março, mas foi adiada apenas 12 dias antes do início – uma decisão da Confederação Africana de Futebol justificada pelo desejo de "garantir o sucesso" da competição, mas que gerou críticas em todo o continente.

Para uma equipa tão jovem como Cabo Verde, classificada na 120.ª posição mundial e entre as mais baixas do Norte de África, acabou por ser uma bênção. O adiamento deu à equipa técnica de Nédio vários meses extra para afinar o grupo, já que o núcleo da equipa continua jovem e em desenvolvimento.

"Falámos sobre isso entre nós e precisávamos de mais tempo para preparar-nos", explicou Martins: "Recentemente disputámos dois particulares contra a Costa do Marfim, e esses jogos foram realmente úteis para nós. Trabalhámos vários aspetos do nosso jogo, recebemos novas colegas e elas integraram-se muito bem na equipa. Passar mais tempo juntas ajudou-nos mesmo a compreender-nos melhor dentro de campo."

Esta perceção é especialmente relevante tendo em conta a composição desta seleção cabo-verdiana, fortemente marcada pela diáspora: 14 jogadoras atuam em Portugal, outras duas noutros países europeus e apenas cinco jogam nas ilhas. Tantas origens diferentes, com percursos, sotaques e, por vezes, hábitos de jogo distintos a conjugar. Os meses extra de preparação permitiram a esta equipa ainda inexperiente e composta por vários perfis criar uma verdadeira química de grupo.

Para além dos resultados, este verão ficará como um marco fundamental para o futebol cabo-verdiano, tal como aconteceu com a seleção masculina. Uma geração inteira de jovens cabo-verdianas está a descobrir, pela primeira vez, uma seleção feminina no maior palco do continente.