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Feminino: Linda Motlhalo, "Ronaldinho" da África do Sul, é um pesadelo para Marrocos

Linda Motlhalo, a maga da África do Sul
Linda Motlhalo, a maga da África do SulJALAL MORCHIDI / EPA / Profimedia

Quatro anos depois de ter impedido as Leoas do Atlas de conquistarem o título continental, Linda Motlhalo volta a cruzar-se com Marrocos nos quartos de final da CAN. À frente de uma equipa sul-africana ambiciosa, a centenária organizadora de jogo quer voltar a mostrar a sua magia no Estádio Moulay El Hassan.

Acompanhe as incidências do encontro

"Ronaldinho de Randfontein". Há alcunhas que assentam a uma jogadora melhor do que uma camisola. A de Linda Motlhalo, forjada nas ruas de Randfontein, diz tudo sobre o seu futebol: um drible que desequilibra, uma aceleração que surpreende, uma leitura de jogo que antecipa todos os outros em dois tempos. Este sábado, no Estádio Moulay El Hassan, em Rabate, a médio ofensiva sul-africana reencontra o Marrocos nos quartos de final da CAN feminina, precisamente quatro anos depois de ter destruído o sonho marroquino na final.

Tudo começa em Brandvlei, uma aldeia poeirenta nos arredores de Randfontein, a oeste de Joanesburgo. "Brandvlei é uma aldeia muito poeirenta onde cresci, onde normalmente jogava com os rapazes. Lembro-me de, quando caía a noite, a minha mãe vir buscar-me porque nem sequer olhava para as horas", recordava recentemente à CAF. O futebol, na família Motlhalo, é uma questão de gerações: o pai de Linda, Johannes, sonhou sem sucesso com o profissionalismo antes de se tornar treinador; o seu tio foi guarda-redes dos Kaizer Chiefs, o mítico clube sul-africano, entre 1970 e 1985.

Foi precisamente ao acompanhar o pai nos treinos que tudo mudou. "Cresci numa família virada para o futebol. O meu pai era treinador e, creio que, aos seis anos, quando ele ia treinar os rapazes, dava-me apenas uma bola e eu ficava a fazer malabarismos. Acho que foi aí que ele percebeu que era isso que me fazia feliz. E foi assim que tudo começou. Quando jogo futebol, esqueço-me dos meus problemas. É a minha alegria, é a minha felicidade", confidencia.

Um golo nos primeiros passos

Descoberta muito jovem, integrou as seleções jovens e depois o clube JVW FC, fundado pela lenda Janine van Wyk. "Lembro-me quando a Linda chegou à seleção nacional com a treinadora Vera, porque já nessa altura era uma jogadora especial. Chamo a Refiloe Jane de maestrina, e a Linda de maga. Sempre foi excelente para nós. Sempre que entra em campo, deixa-nos admirados. Marca golos decisivos nos momentos decisivos", resume hoje Desiree Ellis, selecionadora das Banyana Banyana, que a acompanha desde o início.

A sua capitã, Refiloe Jane, também recorda a miúda franzina que viu nas seleções jovens: "Baixinha, magra, mas uma jogadora cheia de talento e com futuro. Lembro-me de a ter observado nos sub-17 e sub-20, e percebia-se logo que era uma jogadora para o futuro". Motlhalo estreia-se pela seleção em 2016, com apenas 17 anos, e marca logo na sua primeira entrada em campo, num empate 2-2 frente aos Camarões.

Números de Linda Mothalo
Números de Linda MothaloFlashscore

Com 1,63 m, Motlhalo nunca teve o físico típico das médias internacionais, mas transformou isso numa arma. Centro de gravidade muito baixo, apoios curtos, capacidade de rodar em espaços reduzidos sem perder o equilíbrio: compensa com vivacidade o que lhe falta em centímetros e desestabiliza defesas muito mais robustas do que ela.

A rainha dos penáltis

Na CAN 2016, disputada precisamente nos Camarões, marca o seu primeiro golo continental aos 18 anos: um remate aos 84 minutos frente ao Egipto, que sela uma vitória por 5-0 e a qualificação para as meias-finais em Limbe. Desde então, construiu uma reputação de executante quase infalível da marca dos onze metros, ao ponto de a imprensa sul-africana a apelidar de "a rainha africana do penálti". Refiloe Jane confirma: "Ela é uma das marcadoras de penáltis da equipa, e foi ela própria que decidiu assumir essa responsabilidade. Demonstrou muita coragem, determinação e trabalho para alcançar tudo o que conseguiu na vida e no futebol".

Em 2018, com 19 anos, deixa o JVW para assinar pelo Houston Dash na NWSL, recrutada por Vera Pauw, então treinadora do clube norte-americano. "Estou sem palavras. Não sei o que dizer, parece-me apenas um sonho. Quero apenas continuar a trabalhar e aprender com todos à minha volta", confessava na altura. Pauw, por sua vez, não poupava elogios: "A Linda é um dos talentos mais promissores do futebol feminino neste momento. As suas qualidades vêm complementar o talento que já temos no nosso plantel. Vai trazer variedade ao nosso ataque e isso permitirá às outras jogadoras darem o seu melhor".

Após uma época em Houston, segue-se a China e o Beijing BG Phoenix, onde reencontra a sua melhor amiga e compatriota Thembi Kgatlana. A barreira da língua? Resolvida em equipa. "Felizmente, estava com a minha melhor amiga, a Thembi, e com a barreira da língua tínhamos uma tradutora, por isso foi mais fácil para nós. O que mais gostei na China foi da comida!", recorda com um sorriso.

Uma afirmação sueca

Em 2020, ruma à Suécia e ao Djurgårdens IF. A sua estreia não podia ter sido mais espetacular: entra em campo num dérbi de Estocolmo frente ao AIK e marca dois golos que garantem a vitória à sua equipa. O resto seguiu o mesmo caminho: eleita melhor reforço do ano pelas próprias colegas logo na primeira época, renovou em 2022 e continuou a marcar golos decisivos, como aquele remate aos 85 minutos que garantiu uma vitória por 2-1 frente ao Vittsjö após três jogos sem vencer. O seu treinador da altura, Jean Balawo, elogiava a sua maturidade: "Apesar da juventude, é uma líder em campo, e a Linda já enfrentou dois desafios exigentes nos Estados Unidos e na China, além de ter disputado mais de quarenta jogos internacionais".

Em 2022, faz parte da equipa que dá à África do Sul o seu primeiro título continental, novamente em Marrocos, com uma vitória por 2-1 na final frente às Leoas do Atlas. Um ano depois, segue para a Escócia e para o Glasgow City, onde se sagra campeã logo na primeira época. Depois chega o Mundial-2023 na Austrália e Nova Zelândia, onde o sorteio lhe reserva um reencontro especial: a África do Sul começa o torneio frente à Suécia, o seu país de adoção durante três anos.

Já centenária

"Somos claramente as outsiders", confessava antes do jogo, "porque conhecemos a Suécia, são agora número dois do mundo, fizeram um percurso excelente, e o nosso primeiro jogo é precisamente contra elas. Temos de ganhar um jogo e dar o nosso melhor". Poucos dias depois, frente à Argentina, é novamente ela quem inaugura o marcador, aos 30 minutos, após assistência de Kgatlana, num jogo que termina num empate espetacular 2-2 e que coloca as sul-africanas no caminho da histórica qualificação para os oitavos de final.

Depois de uma passagem pelos Estados Unidos ao serviço do Racing Louisville em 2024, regressa ao Glasgow City, onde continua a jogar. No passado dia 26 de julho, frente à Tanzânia na abertura desta CAN, cumpriu a sua 100.ª internacionalização pelas Bafana Bafana, entrando para o restrito grupo de centenárias do futebol sul-africano. Mas a longevidade não lhe tirou a ambição. "Nunca dou nada por garantido, porque sei que há tantas jogadoras talentosas em toda a África", dizia recentemente. Este sábado, com 27 anos, aquela a quem Desiree Ellis chama "a maga" terá a oportunidade de escrever mais uma página nesta já rica história, frente a um Marrocos sedento de vingança que ainda não esqueceu a final perdida em 2022.

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