Ir para o conteúdo principal

Nascida em Espanha, formada na Bélgica: Ouzraoui, a "cidadã do mundo" que faz sonhar Marrocos

Sakina Ouzraoui, jogadora de Marrocos
Sakina Ouzraoui, jogadora de MarrocosJALAL MORCHIDI / EPA / Profimedia

Brilhante desde o apito inicial da CAN 2026 em casa, depois de ter sido a revelação da CAN 2024, Sakina Ouzraoui afirmou-se como um dos pilares ofensivos de Marrocos. Das ruas de Bruxelas ao topo de África, recordamos o percurso de uma jogadora excecional que carrega os sonhos de todo um povo.

Acompanhe as incidências do encontro

Não precisou de forçar a sua natureza para se tornar numa das grandes atrações desta CAN 2026 em casa. Nesta segunda-feira, 3 de agosto, no Estádio Moulay El Hassan, em Rabate, num jogo que a própria Sakina Ouzraoui apelidou de "pequena final" antes do início, a avançada marroquina voltou a tentar de tudo para quebrar a muralha senegalesa.

Aos 76 minutos, empurrada por adeptos totalmente do seu lado, protagonizou uma arrancada solitária que ficará como uma das imagens marcantes desta fase de grupos: com a bola nos pés, deixou para trás, uma a uma, as defesas senegalesas na área, antes de se desviar ligeiramente para a esquerda e ver o seu remate sair ao lado da baliza. O resultado manteve-se em 0-0, mas o essencial estava noutro lado: com este empate, Marrocos terminava a fase de grupos invicto, na liderança, com sete pontos, e garantia a qualificação para os quartos de final da sua Taça das Nações Africanas em casa.

Este gesto não foi um feito isolado. É a marca de uma jogadora que, desde o início do torneio, não para de mostrar porque se tornou uma das referências ofensivas das Leoas do Atlas. Logo no jogo de abertura, a 26 de julho frente ao Quénia, foi ela quem desbloqueou o encontro: aos 19 minutos, lançada em profundidade por um passe de Yasmin Mrabet que rasgou as linhas da defesa queniana, Ouzraoui inaugurou o marcador com uma bela finalização, antes de as suas colegas Maryame Atiq e depois Ibtissam Jraidi, autora de um bis, fecharem o resultado para uma vitória expressiva por 4-0. Uma entrada perfeita numa competição que Marrocos, vice-campeão continental em título, quer desta vez conquistar em casa.

Uma CAN vivida com um suplemento de alma

Para Sakina Ouzraoui, esta CAN organizada no seu país do coração não é um torneio como os outros. Em declarações à Welcome Africa no início de agosto, confessou sem rodeios a emoção especial que representa disputar esta competição em casa: "Tive a sorte de disputar a minha primeira Taça das Nações Africanas no verão passado, também em Marrocos, mas terminou com um sabor amargo porque fomos vice-campeãs. Este ano, abordamos a competição com muito mais entusiasmo e com o objetivo de que esta taça fique em casa. Para mim, foi a melhor experiência de toda a minha carreira. Pensava que nada superaria o Mundial que disputei, mas jogar uma Taça das Nações Africanas em casa, com mais de 40.000 pessoas a apoiar-te, não se vive todos os dias".

Antes do duelo decisivo frente ao Senegal, fez questão de moderar o entusiasmo geral, recordando em conferência de imprensa em Rabate que nada estava garantido: "Estamos determinadas a gerir bem este jogo porque a qualificação ainda não está confirmada". E acrescentou, sobre um adversário já conhecido do passado: "Já jogámos contra o Senegal, mas o jogo de amanhã será diferente. As equipas evoluem de ano para ano e vamos fazer tudo para vencer". Uma lucidez que não é por acaso numa jogadora que aprendeu, ao longo da carreira, a nunca dar nada por garantido.

O grande objetivo para lá da CAN é conhecido por todas: o Mundial-2027 no Brasil. Para Ouzraoui, o desafio vai além do simples feito desportivo. Numa entrevista à FIFA, confessou, com os olhos a brilhar: "Já participámos num Mundial, e jogar um segundo seria incrível. O próximo é no Brasil, é um sonho dentro de um sonho. Quem pode pedir mais? É o país do futebol, o país do Joga Bonito. Gostávamos muito de ir lá praticar o Joga Bonito, mostrar o nosso futebol no Brasil e dar a conhecer Marrocos à América do Sul".

Da ginástica às ruas de Bruxelas

Para compreender o percurso de Sakina Ouzraoui Diki, é preciso recuar até L'Hospitalet de Llobregat, na área metropolitana de Barcelona, onde nasceu a 29 de agosto de 2001. Uma infância que mudou rapidamente: o pai perdeu o emprego e, para não deixar a mãe sozinha a sustentar a família, mudaram-se de Espanha para França, antes de se fixarem definitivamente na Bélgica. A pequena Sakina praticava então ginástica artística, uma modalidade que teve de abandonar à chegada a Bruxelas, por falta de clube disponível. Já tinha dado uns toques na bola com o irmão e os primos, e começou a jogar nas ruas e no recreio da escola. Foi aí, quase por acaso, que um professor reparou nas suas qualidades e perguntou-lhe se estava inscrita num clube. A resposta, negativa na altura, marcou o início de uma carreira: rumou ao RWDM Brussels, o seu primeiro clube, antes de as suas qualidades chamarem a atenção do grande Anderlecht.

Após uma época por empréstimo no Club Brugge, regressou ao Anderlecht, onde somou troféus: cinco títulos de campeã da Bélgica e uma Taça. Mas teve de fazer uma escolha a nível internacional. A Bélgica abriu-lhe as portas, uma oportunidade que recusou com palavras claras, ao jornal espanhol El Día: "Propuseram-me primeiro jogar pela Bélgica, mas honestamente, não me sentia belga. E quando jogas por uma seleção nacional, tens de o sentir. Os únicos países pelos quais queria jogar eram Espanha e Marrocos, que era a minha opção número um. Trago-o no coração. É o país dos meus pais, mas também me sinto marroquina". A decisão estava tomada: seria Marrocos.

A sua estreia pelas Leoas do Atlas aconteceu a 6 de outubro de 2022, frente à Polónia, num campo de treinos em Cádis. Menos de um ano depois, disputou o seu primeiro grande torneio: o Mundial-2023 na Austrália e Nova Zelândia.

Um Mundial-2023 que entrou para a história

Lançada às feras pelo selecionador da altura, Reynald Pedros, Ouzraoui descobriu o palco mundial com apenas 21 anos, menos de 10 depois de calçar as primeiras chuteiras quase por acaso. Marrocos, frente à Alemanha, à Coreia do Sul e à Colômbia, começou a competição com uma pesada derrota (6-0) frente às futuras semifinalistas alemãs. Mas as marroquinas reagiram de forma brilhante, somando duas vitórias frente à Coreia do Sul (1-0) e à Colômbia (1-0), garantindo uma qualificação histórica para os oitavos de final, uma estreia para uma nação árabe. A aventura terminou depois frente à França (4-0), mas Ouzraoui jogou todos os jogos e terminou entre as melhores dribladoras do torneio, entrando mesmo no top 10 desta estatística.

"Foi a minha primeira experiência na seleção nacional durante o Mundial 2023, tudo era novo para mim e defrontei jogadoras que via na televisão", recorda. "Hoje, evoluí muito nestes últimos meses e espero continuar neste caminho".

A revelação da CAN 2024 já em casa

Um ano depois, novo capítulo: a CAN 2024, disputada em Marrocos no verão de 2025. Ouzraoui tornou-se uma das revelações do torneio. O percurso marroquino foi brilhante: as Leoas do Atlas terminaram em primeiro lugar do grupo após um empate com a Zâmbia (2-2), uma vitória frente à RD Congo (4-2) e um triunfo sobre o... Senegal (1-0). Nos quartos de final, Marrocos eliminou o Mali (3-1), e depois garantiu a presença na final após um duelo emocionante frente ao Gana, nas meias-finais.

Foi precisamente nesse momento decisivo que Sakina Ouzraoui deixou uma marca indelével. Frente ao Gana, na segunda parte, foi ela quem empatou com um remate forte e preciso, colocando Marrocos de novo na luta. Poucos minutos depois, voltou a motivar as colegas antes da marcação de grandes penalidades, vencida por 4-2 após um empate a 1-1. Uma segunda final de CAN consecutiva para Marrocos, desta vez frente à Nigéria. As marroquinas estiveram muito tempo na frente (2-0) até à hora de jogo, mas acabaram por perder por 3-2.

A dribladora-mor da LaLiga F

Fora dos relvados, Ouzraoui conta com um ambiente saudável, que aponta como a razão do seu sucesso atual. A sua força vem do apoio da família, da fé e do ambiente afetivo. "A minha família é tudo para mim. Sempre me apoiaram. Este troféu também é deles. Sem eles, não estaria aqui hoje", afirmou após a CAN 2024. O marido, Nabil Chajari, resumiu a dedicação da companheira: "Ela merece. Trabalha muito. E tem um parceiro que acredita nela, que a incentiva a superar-se sempre. Fez tudo isto com o coração".

No plano dos clubes, o verão de 2024 marca uma viragem: depois de cinco títulos de campeã da Bélgica pelo Anderlecht, Sakina Ouzraoui aceita o desafio do Costa Adeje Tenerife e regressa a Espanha, país que sempre considerou como casa. "É a primeira vez que deixo o campeonato belga. Sempre soube que o meu objetivo número um era jogar em Espanha. Queria voltar a casa", explicou à Welcome Africa. O clube canário já a conhecia pela presença da belga Jassina Blom no plantel.

A primeira época foi de adaptação: 28 jogos disputados, 11 como titular e 17 como suplente, num total de 1.133 minutos, dois golos e uma assistência. O verdadeiro salto qualitativo deu-se na época seguinte. Titular indiscutível, Sakina Ouzraoui destacou-se estatisticamente: na pausa de inverno, no início de janeiro de 2026, era a jogadora com mais tentativas de drible em toda a LaLiga F, com 75 tentativas, das quais 36 bem-sucedidas, ou seja, uma taxa de sucesso próxima dos 50%. Liderava assim ambos os rankings, tanto em volume como em eficácia. A avançada do Tenerife também se destacou pelo número de remates, com 36 tentados, apenas atrás das jogadoras do Barcelona Vicky López (43) e Claudia Pina (40), prova de uma participação ofensiva constante.

Números de Sakina Ouzraoui
Números de Sakina OuzraouiFlashscore

Extrema ou ponta, conforme as necessidades do treinador, foi eleita três vezes melhor jogadora em campo com o Costa Adeje Tenerife, um clube que ficou a apenas quatro pontos da Europa nessa temporada. A sua parceria com a avançada argentina Gramaglia, formada após a lesão de Carlota, tornou-se uma das marcas da frente de ataque tinerfeña: Sakina acelera, a argentina finaliza. Uma complementaridade que fez dela uma peça fundamental do plantel, tendo sido suplente apenas uma vez durante a época.

Uma identidade plural assumida

Nascida em Espanha, formada na Bélgica, marroquina de coração: Sakina Ouzraoui representa uma geração de jogadoras biculturais que muito contribuíram para o crescimento das Leoas do Atlas nos últimos anos. Um fenómeno que ela liga diretamente aos feitos da seleção masculina. "A prestação histórica dos Leões há quatro anos deu maior visibilidade a Marrocos e incentivou muitas jogadoras binacionais a juntarem-se à seleção. Novos nomes também se integraram desde a final da CAN 2022", observou. Uma dinâmica reforçada, segundo ela, pelo recente percurso dos homens até aos quartos de final do Mundial-2026. "A nossa equipa tornou-se mais forte e experiente, contando agora com jogadoras que atuam nos melhores campeonatos e clubes. Se pudéssemos convocar 40 jogadoras, fá-lo-íamos".

No seu testemunho à Welcome Africa, abordou mais a fundo esta questão da identidade, com uma sinceridade rara. Questionada sobre o que o futebol lhe ensinou acerca de pertencer a vários lugares ao mesmo tempo, respondeu: "No meu caso, digo sempre que sou uma cidadã do mundo. Onde quer que vá, sinto que não pertenço totalmente a um só lugar, e isso ensinou-me a aceitar quem sou e a ter orgulho das minhas raízes". Sobre as suas raízes marroquinas, nunca renegadas apesar de uma infância passada na Europa: "Os meus pais são marroquinos e sinto-me marroquina e espanhola. Sempre me transmitiram a cultura do país e hoje ela continua muito presente na minha vida, mesmo que a viva de forma diferente porque nasci e cresci na Europa. Apesar de tudo, tento nunca perder as minhas raízes".

Instalada há dois anos em Tenerife, diz também sentir a proximidade geográfica e cultural entre as Canárias e Marrocos: "É verdade que a ilha está muito próxima de Marrocos e que as culturas podem misturar-se. Sente-se essa proximidade e essa ligação".

Um modelo para a juventude africana

Consciente do seu alcance simbólico, Sakina Ouzraoui assume plenamente o seu estatuto de referência para as jovens marroquinas e afrodescendentes que a veem jogar: "Tenho plena consciência desse papel. No fim de contas, quando és profissional, venhas de onde vieres, tornas-te uma referência para as crianças. Tento fazer as coisas bem e transmitir-lhes que não importa de onde vens, onde cresceste ou de onde vêm os teus pais. Terão sempre oportunidades, só precisam de trabalhar muito e acreditar nos seus sonhos".

Uma mensagem que quis reforçar, no final da entrevista, dirigida a todas as que ainda duvidam da possibilidade de um percurso assim: "Que nunca deixem de acreditar nem de sonhar. O caminho não é fácil, há críticas e muitos estereótipos, mas é preciso lutar contra esses obstáculos. Quando és boa numa área e lutas para lá chegar, ninguém te pode travar, com uma única condição: nunca baixar os braços".

Uma filosofia que resume bem o percurso desta ginasta que se tornou numa dribladora de excelência, de L'Hospitalet a Bruxelas, de Anderlecht a Tenerife, até Rabate, onde hoje carrega as esperanças de todo um país rumo a um título continental que, mais uma vez, será disputado em casa.

Futebol