Ela sonhou, ele marcou: Danny Butterfield, herói do Palace, recorda hat-trick improvável

Danny Butterfield disputou 269 jogos pelo Crystal Palace
Danny Butterfield disputou 269 jogos pelo Crystal PalaceAllstar/Paul Mcfegan / Mary Evans Picture Library / Profimedia

Para a maioria dos adeptos de futebol, 02 de fevereiro de 2010 é apenas mais uma data. Para Danny Butterfield, tornou-se a noite em que foi lançado na mais estranha das experiências de Neil Warnock... e, de alguma forma, conseguiu o hat-trick mais rápido da história do Crystal Palace.

Lateral-direito de origem, presença fiável, favorito dos adeptos: nada em Butterfield fazia prever que fosse liderar o ataque num jogo da Taça de Inglaterra. No entanto, lá estava ele, a avançado, porque a esposa de Warnock sonhou que ele iria marcar.

“O Neil (Warnock) entrou no balneário e disse que a esposa tinha sonhado que eu ia marcar, por isso ia começar a avançado. Houve quase risos no balneário, parecia que era uma oportunidade para todos nós”, contou Butterfield.

Warnock confiou no sonho, mesmo assim. A primeira parte foi difícil. “Lembro-me de a primeira parte ter sido péssima. Estive muito mal e pensei que tinha de me esforçar mais e começar a correr mais”.

O que se seguiu foram seis minutos e 48 segundos de puro caos – pé esquerdo, pé direito, cabeça – um hat-trick perfeito que o acompanharia para o resto da carreira.

“De repente, o hat-trick aconteceu tão depressa. Nem parecia real. Foi simplesmente engraçado, um momento surreal”, recorda.

Mas esses seis minutos mostram apenas uma pequena parte de quem era Butterfield. Cresceu “maluco por futebol”, mas o seu percurso esteve longe de ser fácil.

“Andei por todo o lado. Era um pouco trotamundos no futebol de formação”. Peterborough, Nottingham Forest, Leicester – e finalmente o Grimsby, o clube que apostou nele.

Danny Butterfield celebra um golo
Danny Butterfield celebra um goloGLYN KIRK / AFP / AFP / Profimedia

“Fui a testes como avançado... e surgiu uma oportunidade, devido a lesão, para jogar a lateral-direito na equipa principal".

A estreia chegou de repente. “Tive de entrar no carro com os jogadores da equipa principal... E disseram-me que ia ser titular no dia seguinte”.

Acabaria por fazer 124 jogos de Liga pelos mariners, incluindo uma noite memorável em Anfield.

“Foi uma loucura... tivemos imensa sorte, mas depois o Phil Jevons marcou um golo inacreditável”. Butterfield ainda considera esse momento “uma das maiores conquistas” da sua carreira.

Um erro contratual permitiu-lhe sair a custo zero, e o Crystal Palace agiu rapidamente. “É como o primeiro dia de escola, porque a primeira coisa que sabes é que foste contratado para ocupar o lugar de alguém”.

Mas encontrou logo camaradagem com os outros reforços Andy Johnson, Shaun Derry e Dele Adebola. “Ficámos todos muito amigos... foi único termos assinado todos num curto espaço de tempo e mantermos a amizade”.

O Palace tornou-se casa. Ao longo de quase uma década, viveu subidas de divisão, lutas pela manutenção e o capítulo mais negro do clube: a administração em 2010.

Butterfield recorda bem a pressão. “É difícil porque o clube fica dividido... Os adeptos pensam que o clube vai fechar... a realidade é que não estás a receber salário”.

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Alguns colegas nem tinham dinheiro para a gasolina para ir aos treinos. Ainda assim, nunca pensou em sair. “Nunca me passou pela cabeça sair do Palace; pelo contrário, fez-me querer ficar e lutar”.

Quando o contrato terminou, desceu à League One para se juntar ao Southampton – uma decisão que se revelou muito mais ambiciosa do que parecia. “Sabia que tinham um bom grupo de jovens jogadores e achei que podia acrescentar experiência”.

A equipa cresceu, e Butterfield tornou-se uma referência. Sob o comando de Mauricio Pochettino, começou a ver o jogo de outra forma. “Ele sabia que eu era uma figura importante... por isso aproximou-me ainda mais, mesmo não jogando por ele”.

Treinar tornou-se rapidamente o passo natural seguinte. No Exeter, Paul Tisdale confiou-lhe a liderança de sessões. “Estava a orientar alguns dos jovens numa sessão à tarde... Provavelmente usava mais o equipamento de staff do que a camisola de jogo”.

Daí seguiu para funções na academia do Southampton e no MK Dons, com todos os altos e baixos da profissão. O estilo de vida era exigente. “Percebes que estás muitas vezes sozinho, e acabas por perder parte do crescimento dos teus filhos”.

Agora, após sair do Eastleigh, Butterfield está decidido quanto ao que quer para o futuro. “Sempre quis arriscar por mim próprio. Quero ter a responsabilidade sobre os meus ombros; quero sentir a pressão”.

As oportunidades podem ser raras. Mas, afinal, da última vez que foi lançado numa situação inédita, marcou um hat-trick. Se perguntar aos adeptos de futebol sobre Butterfield, vão falar desses seis minutos. Se perguntar aos colegas e treinadores, vão contar-lhe outra história.

Foi um verdadeiro profissional. Um líder. Alguém que manteve um clube vivo durante a administração. Alguém que assumiu sempre que foi preciso – mesmo que isso significasse jogar a avançado porque a esposa do treinador teve um sonho.