Ladeados pelas hélices das turbinas eólicas, os peregrinos seguiam compenetrados pelo trilho que abandonava a estrada alcatroada, evitando a lama aqui e ali, até confluírem num anfiteatro que vale a Fafe o epíteto de catedral dos ralis: milhares de pessoas concentravam-se junto ao icónico salto da classificativa que integra a sexta ronda do Campeonato do Mundo (WRC).
Residente em Fafe, Rui Silva já assiste ao Rali de Portugal há 15 anos, deslocando-se ora para a Pedra Sentada, ora para o Confurco, mas os outros elementos do grupo que o acompanha - Bernardo Lino, de Lamego, Maria Chaves, do Algarve, Tomás e Luís Marques, do Porto, e Rui Dantas, de Braga - estão ali pela primeira vez.
“Normalmente, vou a Vieira do Minho ver o rali, mas aqui em Fafe é outra coisa. Consegue-se perceber o sentimento que as pessoas têm pelo rali. Estamos aqui para aproveitar a festa”, confessa Rui Dantas, à agência Lusa, enquanto prepara a máquina fotográfica.
Nas imediações do salto, a atmosfera é de festa popular, com pilotos amadores a circularem nas suas motas e corredores prontos a desafiar o frio e a ameaça de chuva em bicicletas de BTT entre dezenas de bancas, algumas onde se prepara pão com chouriço na hora e outras onde se vende merchandising do WRC.
Uma dessas bancas está a cargo de Tomek Szkudlarek, Grzegorz Wojciechowkski e Chris Rzasa, trio oriundo de Wroclaw, na Polónia, e circula por vários ralis do Campeonato, como Croácia, Grécia e Sardenha, além de Portugal, há cerca de 20 anos, encontrando em Fafe um ponto alto para as vendas.
“É uma grande multidão. Não vejo nenhum outro local com esta afluência. Só vi algo parecido noutro local em 2009, no Rali da Polónia. É um local espetacular. Estamos aqui três dias, porque as pessoas vêm muito cedo. O negócio é sempre bom aqui”, descreve Chris Rzasa, que se encontra pela primeira vez em solo luso, ao contrário dos colegas.
Além das autocaravanas e das tendas, também as bandeiras decoram a romaria ali vivida, sejam elas de Portugal, de Espanha, da Galiza, do País Basco, da República da Irlanda, da Bulgária, da Estónia… ou a azul e branca do Sport Clube Freamunde, a mais proeminente entre as que se encontravam à vista.
O estandarte identifica um grupo de 20 pessoas daquela cidade inserida no concelho de Paços de Ferreira, ali instalado desde as 06:00 de sábado, num ritual que se repete há seis anos, a comer bifanas ou entrecosto, a beber cerveja ou Favaios, o vinho moscatel de Alijó, e a acompanhar a corrida… pela televisão.
“Honestamente, nem vemos a corrida (junto ao salto da Pedra Sentada). Ficamos no nosso sítio, a beber o nosso Favaios e a comer a nossa bifana, a acompanhar a corrida pela televisão. Só não trouxemos o capão, porque dava muito trabalho a confecionar”, adianta Rogério Monteiro, de 47 anos, enquanto o grupo prepara mais uma panela de bifanas.
Mais abaixo, junto ao traçado, a chuva faz uma aparição indesejada a 20 minutos do início da especial do Fafe, a segunda do dia, após Vieira do Minho, e impele muitos dos espetadores a erguerem os guarda-chuvas, para protesto daqueles cuja visão fica obstruída.
Os saltos de Martins Sesks (Ford Puma) e de Dani Sordo (Hyundai i20) ainda se deram entre as gotas que caíam, dificultando a visão de centenas, mas as nuvens dissiparam-se a tempo das passagens dos primeiros classificados, o que substituiu a visão dos guarda-chuvas pela dos incontáveis telemóveis prontos a captar vídeo, assim que a buzina ao longe anunciava a passagem do próximo carro.
Quando chegou a vez de Thierry Neuville (Hyundai i20) ou de Sebastien Ogier (Toyota Yaris) voarem na Pedra Sentada, já o sol iluminava a vista dos milhares que procuravam apreciar a experiência, fosse ela inédita ou repetida, como no caso de Rui Silva.
“Foram bons saltos, mas, em anos anteriores, já tive saltos bem melhores. Nos anos dos Ford Fiesta e dos Volkswagen Polo (entre 2013 e 2016) houve carros a saltar por cima de mim. Estava junto à pedra. Também poderá ter a ver com o facto de estar a chover”, admitiu.
Já Luís Marques, o mais velho do grupo, que se lembra de ter percorrido muitos troços de rali a acompanhar o escocês Colin McRae e o seu Subaru Impreza, na segunda metade da década de 90 do século XX, realça a “experiência fantástica a repetir”, assim como Bernardo Lino.
“Para primeira experiência, foi incrível. Só tinha visto isto na televisão. Na televisão, não tem nada a ver com o que é aqui. Aqui há muito mais adrenalina. Parece que saltam muito mais do que na televisão. É uma experiência para repetir. Vale todos os minutos passados aqui”, sentencia.
