Assim que se aproximou a hora da segunda especial amarantina, no mais longo dos quatro dias da sexta prova do Campeonato do Mundo, com mais de 145 quilómetros, o acesso ao conhecido gancho ficou cada vez mais enlameado, mas os aficionados dos ralis mantinham-se de olhos postos na gravilha, formando praticamente duas bancadas, frente a frente, com guarda-chuvas em punho ou simplesmente protegidos com o capuz.
Oriunda da Lixa, localidade vizinha no concelho de Felgueiras, Bárbara Fonseca, de 27 anos, sempre ouviu o pai falar de ralis “pelo ambiente e por pessoas a acampar” e deslocou-se pela primeira vez ao ‘gancho’ em 2025, juntamente com o namorado, José Araújo, de 25 anos, a quem introduziu “o bichinho” por essa variante do automobilismo.
“Era e sou fã de Fórmula 1, e comecei a vir no ano passado. Viemos para a mesma zona, com um dia de sol espetacular. É uma sensação diferente. Num dia de sol, os pilotos têm mais agressividade. Agora nota-se maior cuidado. Nunca tínhamos visto rali à chuva. Também nos traz entusiasmo saber como isto é. O carro escorrega mais um bocadinho”, compara o espetador de Leça da Palmeira, em declarações à Lusa.
Ao lado, Pedro Andrade, espetador de 22 anos, oriundo do Marco de Canaveses, assistiu à passagem matinal por Amarante, quando ainda não chovia, e notou essa diferença no andamento dos carros.
Se há quem se mantenha colado ao trajeto onde os pilotos deixam o seu rasto, há quem prefira ver a prova mais acima, naquela ‘zona espetáculo íngreme, rodeada de pinheiros.
Tanya Kaduchenko e Ivanna Minina viajaram desde a capital ucraniana Kiev até à Polónia de automóvel e voaram depois para Portugal, para assistirem pela segunda vez ao rali luso, o único a que já assistiram no Campeonato do Mundo.
“É difícil estar aqui, mas viemos porque adoramos os ralis. Sou piloto profissional no meu país e integro a equipa nacional. O meu marido também é piloto profissional. É a nossa paixão. Conhecemos todos os pilotos na sexta-feira à noite”, disse Tanya, assumindo-se como fã do país, pelas pessoas amigáveis e prestáveis, e augurando “muito futuro” a Adrien Fourmaux (Hyundai i20).
Enquanto, em Fridão, havia quem aproveitasse a inclinação da área reservada aos espetadores para ter uma visão mais panorâmica da corrida, houve, em Felgueiras, na primeira especial da tarde, quem se empoleirasse num eucalipto para ter uma visão privilegiada dos bólides.
Fã da velocidade e dos ralis, Nuno Teixeira, de 38 anos, vive na freguesia de Serzedo, no concelho de Guimarães, e tem apenas de percorrer 100 metros para aceder à passagem do rali em Jugueiros, freguesia do concelho de Felgueiras, onde assiste à corrida desde o regresso da classificativa ao calendário, em 2021, sempre na mesma árvore.
“Costumo ver o rali aqui. Há alturas em que também vou para o salto, para Fafe, com os meus amigos. Em baixo, só conseguimos ver esta curva. Se tivermos no alto, conseguimos ver os carros a fazer a trajetória em duas curvas”, descreve, vestido com um casaco do Vitória SC, assumindo-se fã de Sebastien Ogier e de Thierry Neuville, os dois primeiros classificados, respetivamente.
Entre as centenas de espetadores que se concentraram em Jugueiros, para verem os pilotos a velocidades bem mais altas, a levantarem nuvens de pó quando a chuva ainda era só ameaça, a maioria tinha de se contentar com o rés-do-chão, como Adrián e Alfonso, de Santander.
Fãs assumidos do sueco Oliver Solberg, piloto que chegou hoje a liderar o rali, os irmãos que preferiram não divulgar o apelido permaneciam sentados junto à fita separadora, enquanto acompanhavam a corrida ao segundo através do telemóvel.
"Vimos ver o rali há quatro anos. Este percurso é muito fechado. Já estivemos em Amarante. Vamos a Fafe amanhã (domingo). O percurso que mais gostamos é o de Vieira do Minho”, descrevem, apontando o público como “o melhor do rali”, pelo menos em comparação a outras provas a que já assistiram, como o da Catalunha, que figurou no WRC até 2022, e o das Ilhas Canárias, agora no calendário.
Um pouco mais ao lado, vê-se uma mesa repleta de copos e de pratos, com vestígios de uma refeição farta, numa mesa instalada sob um tolde, enquanto o grupo composto por Sílvio Sá, de 55 anos, João Sá, de 21, Gil Jesus, de 37, Diogo Tavares, de 40, Sérgio Moreira, de 46, e João Rego, de 39, espera avidamente pelo próximo piloto.
Ali instalado desde as 06:00, o sexteto oriundo de Vila Nova de Famalicão, Santo Tirso e Póvoa de Varzim acompanha o Rali de Portugal desde que voltou ao norte, em 2015, e vaticina uma corrida renhida até domingo, entre elogios a Ogier, Solberg e Ott Tanak, estoniano que deixou o WRC nesta época.
“Da maneira que está, é para a power stage para amanhã (domingo)”, aposta Sílvio Sá, enquanto prepara uns “preguinhos de picanha em pão e um queijinho”, antecipando o próximo momento de petiscar.
