Psicólogos, profissionais de marketing, a imprensa e as redes sociais sabem perfeitamente bem que listas e prémios hierárquicos têm um apelo quase irresistível.
O cérebro humano evoluiu para escolher coisas, para se livrar do barulho e focar no que interessa. Para organizar o mundo ao redor.
Quais os animais disponíveis para se caçar? Eu como essa fruta silvestre ou aquela?
Segundo a psiquiatra e escritora norte-americana Anna Lembke, hoje em dia temos mais tempo do que nunca para "ficar dentro das nossas próprias cabeças", e por isso as classificações ganham cada vez mais impacto.
Elas dão um sentido de organização e entendimento a um turbilhão de informações cada vez maior e mais caótico.

No seu livro "Dopamine Nation", Lembke explica que o cérebro prefere dados já mastigados – em vez de ter de fazer todo o esforço – e afirma que essas listagens tipo "top 10" trazem tranquilidade mental.
O investigador Matthew Isaac, da Universidade de Seattle, garante que há um comportamento chamado de "Efeito top 10", que é uma tendência das pessoas de agrupar as coisas em grupos de números redondos – e de descartar o que está fora deste grupo como algo inferior.
Distinções baseadas em rankings tocam em três áreas importantíssimas de estímulo: estima baseada no desempenho ("eu ganhei a corrida"); estima baseada nos atributos sociais ("eu jogo na mehor equipa do mundo"); e estima baseada na percepção dos nossos pares ("eles aplaudiram a minha performance! Eu ganhei likes no meu post").
"O que os rankings fazem é alimentar esses três tipos de estimas que a sociedade em que vivemos nos empurra", escreveu Mike Spivey, expert em educação e CEO de uma consulta que vende, precisamente, rankings para empresas.
Bem, e o que tudo isto tem a ver com a Bola de Ouro, cuja cerimónia, na segunda-feira, distingiu o médio Rodri e não Vinícius Júnior como "o melhor jogador de futebol da última temporada"?
Vamos a uma lista de fatores que podem explicar por que damos importâncoa a este tipo de prémio, e também por que não devemos dar-lhe tanta importância.
Primeiro, um ranking das razões pelas quais prémios como este são tão populares.

Top 5 da popularidade
• 1) De acordo com neurocientistas ouvidos pelo Flashscore, há um consenso de que é natural para nós Homo Sapiens buscar reconhecimento e excecionalismo. Prémios como a Bola de Ouro e Oscar mexem com essas duas características.
• 2) Ainda do ponto de vista da pessoa premiada, é também natural querer fazer parte de uma elite, e de fazer parte de um conto de fadas de sucesso.
• 3) Do ponto de vista da audiência, há uma fascinação por pessoas com as quais pode relacionar-se, mas que, de alguma forma, também são escolhidas como especiais ou semi-deuses.
• 4) Prémios funcionam no cérebro como os rankings, no sentido de organização e hierarquização da informação.
• 5) A comunicação social sabe que prémios e rankings geram mais cliques – por tudo o que já dissemos acima. Além disso, estas cerimónias geram conteúdo valioso de bandeja, portanto são explorados até à última gota. Isto faz com que uma Bola de Ouro da vida ganhe imensa visibilidade.

Top 10 por que a Bola de Ouro é uma ilusão
• 1) Prémios e rankings são condicionados, arbitrários e subjetivos. "É como casar com alguém porque os seus amigos gostam da pessoa, mesmo que você não goste", escreveu Mike Spivey.
• 2) Os rankings dão um descanso para o cérebro, mas podem ser prejudiciais. Eles podem levá-lo a tomar uma decisão errada, por exemplo.
• 3) A Bola de Ouro distingue uma peça num desporto que é muito coletivo, e ainda tende a destacar atacantes. Qual o critério? Não há.
• 4) No caso de Vini Júnior, para muita gente a Bola de Ouro deste ano cumpriria um papel social, já que o atleta é um bastião na luta anti-racista. No entanto, esta é uma expectativa irrealista para uma lista que apenas elege os "melhores jogadores" de uma temporada.
• 5) Como 99% das nacionalidades, os brasileiros têm necessidade de ser reconhecidos pelos pares mais poderosos. Há 17 anos que um brasileiro não é reconhecido como melhor futebolista do mundo, e por isso também a escolha de Rodri indignou muitas pessoas no Brasil. Mas a Bola de Ouro não é um reconhecimento de França ou do "mundo", e sim de 100 jornalistas aleatórios.
• 6) O futebol é cheio de política. Com o crescimento do estatuto do prémio, não se pode esperar que a Bola de Oura esteja isenta de problemas na sua eleição.
• 7) O painel de jornalistas não é uma comissão de notáveis à la Prémio Nobel. O narrador Cléber Machado, único brasileiro na eleição da Bola de Ouro, conta que foi escolhido de forma informal com um colega francês. "Arnaud Pierre Courtadon trabalhava na Gazeta Esportiva e também para a France Football. Disse que a revista ia ampliar a votação e perguntou se eu queria votar pelo Brasil", lembra Cléber, que não é exatamente um especialista em futebol europeu.
• 8) Além de massajar o ego e o bolso dos jogadores, a Bola de Ouro só beneficia a France Football – uma revista de nicho que só é conhecida fora de França por conta do prémio que inventou em 1956.
• 9) Até meados dos anos 2000, os media europeus tratavam a Bola de Ouro como o "European Footballer of the Year". O prémio é e sempre foi eurocentrista. Em 2010, a FIFA resolveu transformá-lo em algo mais global, antes de sair do jo e criar o seu próprio prémio, em 2015. Este boost da FIFA e a criação de uma cerimónia pomposa e televisiva fizeram com que a Bola de Ouro ganhasse, de uma década para outra, o estatuto ilusório de Oscar do futebol.
• 10) O que vale no futebol é título, taças, Campeonatos do Mundo. É isso o que move o desporto e os adeptos.

Uma última questão: se Camavinga, por exemplo, fosse favorito a "melhor do mundo" e perdesse na última hora para Rodri, o Brasil não estaria tão indignado. A psicóloga do COB (Comité Olímpico Brasileiro) explicou ao Flashscore que o adepto olha para o atleta brasileiro lá fora como um representante dele mesmo, como um herói, como um soldado da pátria.
Quando este atleta é derrotado, por empatia, o adepto é derrotado também. Some-se a isso a nossa necessidade de ser visto/reconhecido lá fora e a possível injustiça na escolha – mesmo que a maioria não veja Rodri jogar, para avaliar quem é melhor ou pior. Pronto, a receita do protesto está dada.
No entanto, passamos o ano inteiro sem dar bola para a France Football. Se no seu ranking Vinícius Júnior é melhor que todos, não dê bola para a Bola de Ouro deles.

