Natural de Recife, no estado de Pernambuco, Júlio, de 36 anos, perdeu cerca de 120 quilos sem recorrer a cirurgia ou medicamentos. Hoje pesa aproximadamente 190 quilos e participa em provas desportivas pelo mundo, após ter passado anos dominado pela compulsão alimentar.
"Em dois anos e meio, eu engordei algo em torno de 120 quilos", contou à agência Lusa, em Pequim, ao recordar o período da pandemia de covid-19, quando se isolou em casa e chegou a ter dificuldades para realizar tarefas básicas.
"Tomar um banho era uma das coisas mais desafiantes da vida. Porque, quando você é muito grande, você acha que vai cair", recordou. "Eu saía do banho suado. Eu saía do banho já a querer ir-me deitar. Isto é vida? Claro que não é".
A transformação começou após um episódio que ainda hoje o emociona.
No dia do seu aniversário, a 13 de novembro, nasceu o sobrinho, precisamente à mesma hora em que Júlio nasceu. Interpretou a coincidência como um sinal divino, numa altura em que já começava a perder a esperança de constituir família.
Dias depois, tentou visitar o recém-nascido para lhe entregar um presente, mas não conseguiu sair do automóvel. "Eu fui dominado por um sentimento de impotência. Eu senti-me um lixo", disse.
"De que valeu a pena, então, até aqui, a vida toda? Ter empreendido, ter viajado, ter trabalhado, ter-me esforçado para ter alguma coisinha, de que valeu a pena?", questionou.
Naquele dia, decidiu inscrever-se em aulas de hidroginástica.
A experiência levou-o posteriormente à natação, modalidade que considera decisiva para recuperar a mobilidade e começar a emagrecer.
"A natação salvou a minha vida", afirmou.
Chegou a nadar mais de duas horas por dia, repartidas por duas sessões, uma atividade que lhe permitia também afastar-se das distrações e dos hábitos alimentares que procurava abandonar.
"Ali eu não tinha como estar no telemóvel. Ali eu não tinha como encomendar comida", explicou.
Pouco depois de iniciar a transformação, perdeu o pai e, um mês mais tarde, um tio de quem era próximo.
Com receio de voltar aos antigos hábitos, começou a partilhar o percurso nas redes sociais, onde ganhou notoriedade.
O primeiro vídeo que se tornou viral mostrava as dificuldades que enfrentava durante uma viagem de avião, quando outros passageiros não queriam sentar-se ao seu lado.
"Eu passei a documentar tudo o que acontecesse comigo. Se eu tiver que chorar, eu vou chorar. Se tiver que sorrir, eu vou sorrir", explicou.
A corrida surgiu quase por acaso, depois de uma visita à secretaria municipal dos Desportos de São Paulo, onde foi desafiado a participar na tradicional São Silvestre, realizada no último dia do ano.
Na altura, pesava cerca de 220 quilos e nunca tinha percorrido mais de seis quilómetros num treino.
Ao sétimo quilómetro da prova, esteve prestes a desistir.
"Deitei-me no chão", recordou, explicando que recebeu então, através de uma transmissão em direto nas redes sociais, um vídeo da irmã e do sobrinho a incentivá-lo a continuar.
"Eu posso chegar amanhã. Posso arrastar-me. Mas esta criança vai ter um exemplo, pelo menos, de que vale a pena começar e terminar", afirmou.
Acabou por completar os cerca de 15 quilómetros da São Silvestre e, desde então, participou em provas em Portugal, Argentina e Uruguai, entre outros países.
A passagem pela China tem, contudo, um significado especial.
O pai, nascido no interior de Pernambuco, era apaixonado por geografia e sonhava conhecer o mundo, sobretudo a China e a Austrália.
"Ele foi aquele pai que ensina as bandeiras, capitais, todos os países. Sempre que existia uma reportagem na China, assistia, chamava-me para assistir", acrescentou.
Júlio chegou a prometer-lhe que um dia fariam uma viagem juntos, mas o pai morreu pouco após o filho iniciar o processo de emagrecimento.
"Para mim, ter escolhido aqui a Muralha da China é uma coisa muito afetiva", afirmou.
"É um momento onde eu vou subir a muralha. Nem sei o tamanho do desafio que vou enfrentar. Vou só", acrescentou.
A transformação tem também uma vertente solidária: Júlio associa a perda de peso à doação de alimentos e afirma já ter distribuído mais de duas toneladas, incluindo em Angola, Cabo Verde e no Brasil.
A próxima etapa será Barcelona, onde pretende participar numa corrida ligada aos bombeiros locais e organizar uma nova doação.
Mas o objetivo final é mais ambicioso: perder cerca de 220 quilos relativamente ao peso máximo e completar a maratona de Atenas, na Grécia, associada às origens históricas da modalidade.
"Eu não vou desistir até chegar, até alcançar isso", garantiu.
Questionado sobre o que diria hoje ao homem que chegou a estar praticamente confinado a um quarto escuro, respondeu: "Vale a pena. Vai doer, mas vale a pena".
