Esta segunda-feira, na mais recente edição da revista Dragões, André Villas-Boas teceu uma opinião sobre o mais recente escândalo que abalou a arbitragem nacional. Recorde-se que o Ministério Público está a investigar alegada corrupção na nomeação de árbitros, depois de uma queixa de 20 páginas que o jornal Público deu conta.
Perante isto, o presidente do FC Porto considerou prudente Luciano Gonçalves, presidente do Conselho de Arbitragem, suspender temporariamente funções. “Não como antecipação de culpa, mas como proteção da própria pessoa, da função que exerce e da instituição que representa”, justifica.
Deixou também uma menção a Pedro Proença: “Não pode tratar esta crise como uma mera divergência interna. O que está em causa é a confiança nos processos, nas nomeações e na integridade das competições após uma época desastrosa”.
Supertaça
O presidente do FC Porto deu também as boas-vindas aos reforços e deixou uma mensagem tendo em vista a Supertaça diante do Torreense, que venceu a Taça de Portugal ao Sporting.
“Não há espaço para distrações, facilidades ou confiança construída sobre aquilo que fizemos no passado. Entraremos em campo conscientes da nossa responsabilidade, da qualidade do adversário e da exigência de uma final. Queremos conquistar a Supertaça, mas sabemos que só o poderemos fazer com concentração máxima, espírito coletivo e uma entrega à altura do símbolo que representamos”, alertou
Boavista
Por último, o presidente dos azuis e brancos escreveu sobre a queda do Boavista, rival citadino que fechou portas devido a questões financeiras.
“Aquilo que está a acontecer a um clube histórico da nossa cidade não deve ser motivo de satisfação para ninguém. É uma ferida no património desportivo e social do Porto e um alerta para todo o futebol português. O encerramento da atividade, depois de anos de insolvência, incumprimento e degradação financeira, mostra até onde pode chegar uma instituição centenária quando fica dependente de modelos de negócio opacos, de estruturas acionistas desligadas da sua comunidade e de mecanismos de controlo incapazes de agir a tempo”, concluiu.
Em atualização
Leia o editorial na íntegra:
Caros Portistas,
Julho é o mês em que tudo recomeça.
A época passada terminou com títulos, festas e momentos que ficarão para sempre na nossa memória. Mas nenhuma conquista anterior vence o jogo seguinte. Nenhum troféu nos dá vantagem no primeiro duelo. Nenhuma celebração substitui o trabalho que temos novamente pela frente.
Entramos na nova época com expectativas renovadas, mas com o mesmo compromisso de sempre: vencer. Um compromisso que exige rigor nos processos, intensidade no trabalho, disciplina, capacidade de superação e a consciência permanente de que o todo será sempre maior do que cada uma das partes.
A união que nos marcou na última temporada não pode ser apenas recordada. Tem de ser reconstruída todos os dias. No balneário, no Olival, no Dragão, na Direção, na Administração, em cada departamento e em cada bancada. Foi juntos que chegámos ao sucesso e será juntos que voltaremos a lutar por ele.
A Supertaça Cândido de Oliveira marca o primeiro momento oficial da temporada. E começa logo com uma final.
Do outro lado estará o Torreense, uma equipa que surpreendeu o país, mas certamente não se surpreendeu a si própria. Conquistou a Taça de Portugal com coragem, organização e uma crença que lhe permitiu alcançar um feito inédito no futebol português. O seu percurso merece respeito e diz-nos tudo sobre a dificuldade que encontraremos em Coimbra.
Não há espaço para distrações, facilidades ou confiança construída sobre aquilo que fizemos no passado. Entraremos em campo conscientes da nossa responsabilidade, da qualidade do adversário e da exigência de uma final. Queremos conquistar a Supertaça, mas sabemos que só o poderemos fazer com concentração máxima, espírito coletivo e uma entrega à altura do símbolo que representamos.
Uma nova época traz também novas caras, novas histórias e a necessidade de integrar diferentes percursos numa identidade comum.
Damos as boas-vindas ao Inbeom Hwang e ao João Afonso, jogadores que chegam com qualidade, ambição e vontade de se afirmarem no FC Porto. Saudamos também o regresso do André Silva, nove anos depois de ter deixado a casa onde cresceu e onde o seu golo começou. Regressar ao FC Porto é voltar a um lugar conhecido, mas é também assumir uma nova responsabilidade perante o seu Clube de coração, um grupo novo e objetivos que se renovam.
Mame Niang, Eirik Granaas e Cardoso Varela representam outra dimensão do trabalho que estamos a desenvolver. São jogadores jovens, com talento e potencial, que projetamos no futuro do FC Porto. Não lhes colocamos o peso de promessas antecipadas. Damos-lhes estrutura, acompanhamento, exigência e a oportunidade de crescerem. O talento abre portas, mas só o trabalho, o carácter e a capacidade de compreender aquilo que significa ser Porto permitem atravessá-las.
A todos os que chegam, uma mensagem simples: entram num Clube campeão, mas não herdam nenhuma vitória. Terão de conquistar o seu espaço, respeitar os nossos valores e compreender que vestir esta camisola é um privilégio acompanhado por uma exigência diária.
Essa exigência é alimentada, como sempre, pelos nossos Sócios.
O processo dos Lugares Anuais terminou com uma resposta extraordinária. Perto de 96% dos lugares foram renovados e todos os lugares disponibilizados acabaram adquiridos por Sócios que aguardavam na lista de espera. São números que nos orgulham, mas que nunca olharemos apenas como percentagens. A maior taxa de renovação da nossa História representa confiança, pertença e uma vontade enorme de continuar a viver o FC Porto no Dragão.
Por detrás de cada renovação está muitas vezes uma família que faz contas, reorganiza prioridades e abdica de outras coisas para continuar presente. A Direção do Clube e a Administração da SAD conhecem esse esforço e não o tomam como adquirido. Deixamos, por isso, um agradecimento profundo a todos os que renovaram e aos que esperaram pelo seu momento para adquirir um Lugar Anual.
E não esquecemos aqueles que não puderam continuar. Há lugares com histórias que começaram nas Antas, atravessaram décadas de Dragão e passaram entre gerações. Quem não renovou não deixa de ser Portista, nem perde o seu lugar na memória e na vida do Clube. O FC Porto sabe que a vida nem sempre permite escolher o coração e não pode ficar indiferente à dor de quem interrompe uma ligação construída ao longo de tantos anos.
O esforço dos Sócios obriga-nos a servir melhor, a melhorar a experiência no Dragão, a gerir com rigor e, naturalmente, a construir equipas capazes de continuar a vencer. Porque o estádio não é apenas betão, cadeiras ou serviços. O Dragão são as pessoas que chegam cedo, que vêm de longe, que trazem filhos e netos, que cantam, exigem, sofrem e nunca deixam a equipa sozinha.
Julho marca também o nascimento de um projeto há muito desejado: a equipa sénior de futsal do Futebol Clube do Porto.
Começaremos na Terceira Divisão Nacional, com humildade no ponto de partida e ambição no destino. Queremos construir bases sólidas, desenvolver uma identidade própria e criar uma equipa que apaixone os Portistas e que, com o tempo, leve o FC Porto aos patamares que a sua dimensão exige.
A escolha de Cardinal para capitão diz muito sobre aquilo que pretendemos. Não é preciso explicar-lhe o que é o Porto, porque ele sempre o viveu. É um Portista profundo, um dos grandes nomes da história da modalidade e alguém que classificou este regresso como o dia mais feliz da sua vida desportiva. Antes de a primeira bola rolar, o nosso capitão já representa pertença, emoção, experiência e a responsabilidade de abrir caminho para os que virão depois.
Mas uma nova época não pode começar sem olharmos também para aquilo que ameaça a sua serenidade e a credibilidade das competições.
O setor da arbitragem inicia a temporada envolvido numa crise institucional que não augura nada de bom. O FC Porto alertou repetidamente, ao longo da última época, para fragilidades no funcionamento do Conselho de Arbitragem, para a instabilidade criada sobre os árbitros e para a necessidade de maior independência, uniformidade de critérios, profissionalização e transparência, bem como a renovação tardia da tecnologia VAR.
O processo disciplinar relativo às alegadas interferências nas nomeações foi arquivado pelo Conselho de Justiça por insuficiência de indícios e proteção das comunicações privadas. Esse arquivamento deve ser respeitado, mas não atenua a desconfiança instalada na liderança do setor. As notícias recentemente conhecidas dão conta de que a Polícia Judiciária recebeu uma participação e está a desenvolver diligências sobre suspeitas de corrupção e tráfico de influências relacionadas com essas nomeações. Não antecipamos conclusões, não fazemos condenações públicas e não nos substituímos às autoridades. Esperamos, isso sim, um apuramento célere, rigoroso e completo.
Consideramos por isso prudente que o Presidente do Conselho de Arbitragem suspenda temporariamente as suas funções enquanto defende o seu bom nome e os factos sejam esclarecidos. Não como antecipação de culpa, mas como proteção da própria pessoa, da função que exerce e da instituição que representa.
Esperamos também uma posição mais firme e clara da Federação Portuguesa de Futebol. A sua Direção assumiu diretamente o pelouro da arbitragem e não pode tratar esta crise como uma mera divergência interna. O que está em causa é a confiança nos processos, nas nomeações e na integridade das competições após uma época desastrosa.
Por fim, uma palavra sobre o Boavista.
Aquilo que está a acontecer a um Clube histórico da nossa cidade não deve ser motivo de satisfação para ninguém. É uma ferida no património desportivo e social do Porto e um alerta para todo o futebol português. O encerramento da atividade, depois de anos de insolvência, incumprimento e degradação financeira, mostra até onde pode chegar uma instituição centenária quando fica dependente de modelos de negócio opacos, de estruturas acionistas desligadas da sua comunidade e de mecanismos de controlo incapazes de agir a tempo.
Não compete ao FC Porto substituir-se aos tribunais, aos credores ou aos responsáveis do Boavista. Mas compete-nos afirmar que o futebol português necessita urgentemente de rever os seus regulamentos de licenciamento, sustentabilidade e fair play financeiro. É necessário escrutinar melhor a origem dos capitais, a idoneidade dos investidores, as garantias dadas às instituições e o cumprimento permanente das obrigações económicas e sociais.
Os clubes não são ativos descartáveis. Pertencem à História, às cidades, aos Sócios e às comunidades que os construíram. Quando um clube centenário fica ligado às máquinas, falhou muito mais do que uma administração. Falhou um sistema inteiro que deveria ter protegido a competição, os trabalhadores, os adeptos e o património coletivo.
Caros Portistas,
A época começa agora. Traz novas ambições, novos jogadores, novos projetos e dificuldades que conhecemos bem. Sabemos que, para alcançarmos os nossos objetivos, teremos muitas vezes de trabalhar mais, lutar mais e permanecer mais unidos do que os outros.
Não é vitimização. É consciência histórica. É saber quem somos, o que representamos e aquilo que sempre nos foi exigido.
Queremos uma grande época. Queremos honrar os títulos conquistados sem viver deles.
Queremos defender o FC Porto com rigor, coragem e compromisso. E queremos voltar a dar aos nossos Sócios e Adeptos as alegrias que o seu esforço merece.
Tudo recomeça.
Menos a nossa ânsia de vencer.
Viva o Futebol Clube do Porto.
