O percurso do medalha de ouro em Pequim-2008 - depois dos imortais Carlos Lopes, em Los Angeles-1984, e Rosa Mota, em Seul-1988, ambos na maratona, e Fernanda Ribeiro, em Atlanta-1996, nos 10.000 metros - teve um decisivo ponto final no ‘ultimo salto’, evento que reuniu a família da sua carreira, no Estádio Universitário de Lisboa.
Os seus longos anos na ribalta, com mais de uma dezena de medalhas em grandes competições de triplo salto, ficaram marcados por alguns hiatos competitivos, sobretudo devido a lesões, as mais graves em 2012 e 2014, que apenas aperfeiçoaram o seu forte espírito de resiliência.
Após várias lesões graves e uma carreira que relançou, com sucesso, já depois dos 30 anos, Nelson Évora teve um fase menos consensual, sobretudo a partir do momento em que o cubano Pedro Pablo Pichardo passou a poder representar o país, acabando por ser campeão olímpico precisamente em Tóquio-2020.
Évora chegou a afirmar que Pichardo foi "comprado" para Portugal ter resultados “a curto prazo”, lembrando que ele próprio só teve a naturalização após 11 anos de residente: o seu rival ripostou dizendo, entre outras coisas, que consegue atingir os 17,74 metros, que são a referência do atleta filho de cabo-verdianos e nascido na Costa do Marfim, onde o pai trabalhava, “de leggings compridas e de chapéu”.
Polémicas à parte, a verdade é que Nelson Évora, que vive em Portugal desde os seis anos, com raízes em Odivelas, na região da grande Lisboa, esticou a sua carreira ao ponto de, a semanas de completar 35 anos, ter sido vice-campeão da Europa em pista coberta, em Glasgow-2019, com 17,11 metros, apenas um ano depois do ouro Europeu ao ar livre, em Berlim-2018, com 17,10.
Foi precisamente em Odivelas que foi descoberto por João Ganço, seu vizinho que era professor de Educação Física, que era entusiasta do atletismo (criou um centro de treinos na Escola Secundária da Ramada) e que o levou aos títulos olímpico e mundial, as suas mais importantes conquistas, mas do qual se afastou após o Rio2016.
Aos 11 anos, já treinava no Benfica, brilhando tanto no salto em comprimento como no salto em altura, acabando por se focar na primeira especialidade, sobretudo a partir de 2004, na época de estreia como sub-23.
Dois anos antes, em 2002, a Federação Portuguesa de Atletismo, atenta ao enorme potencial o jovem que em júnior chegou a passar pelo FC Porto, já tinha cuidado da sua naturalização para poder representar o país.
Foi em 2006, quando tinha 22 anos, que superou pela primeira vez os 17 metros (17,19) e sucedeu a Carlos Calado como recordista nacional do triplo salto.
Saltou para a ribalta internacional quando, no ano seguinte, nos Mundiais Osaka-2007, no Japão, conquistou a medalha de ouro com 17,74, o seu melhor desempenho de sempre e recorde português que vingou até 2018, superado por Pedro Pichardo (17,95), que entretanto em Roma-2024 o fixou em 18,04.
Ainda jovem, mas já uma figura mundial, o ponto alto da carreira com o título olímpico em Pequim-2008, com 17,67, um ano antes de vice-campeão mundial em Berlim-2009, com 17,55.
O céu parecia o limite quando em 2010 uma fratura de esforço na tíbia o levou à primeira interrupção importante, falhando os Europeus, seguindo-se, em 2011, nova lesão no calcanhar, antes do seu verdadeiro ano zero, que foi 2012.
Nova fratura na tíbia e um hiato dos grandes palcos que se prolongou quando o joelho direito lhe causou problemas, em 2014, obrigado a artroscopia, ainda assim a conseguir um sexto lugar nos Europeus Zurique-2014.
Nunca desistiu, prometeu voltar em grande e em 2015 ultrapassou diversas vezes os 17 metros, acabando por se sagrar campeão da Europa em pista coberta, em Praga, e alcançado o bronze nos Mundiais ao ar livre, em Pequim.
No Rio-2016 foi somente sexto e o Benfica propôs-lhe uma redução substancial do apoio, numa altura em que o caminho parecia igualmente esgotar-se com o treinador João Ganço: no final dessa época rumou ao Sporting e fixou-se em Madrid, no grupo do cubano Ivan Pedroso, antigo campeão do salto em comprimento.
Em 2017, renovou o título europeu em pista coberta, em Belgrado, e conseguiu nova medalha de bronze no Mundial, em Londres, antes de novo terceiro lugar (e recorde nacional – 17,40), em 2018, nos Mundiais indoor, em Birmingham, antes do título europeu de ar livre, o único que lhe faltava, conquistado em Berlim.
Já com 37 anos, e três meses depois de ter sido operado ao joelho esquerdo, Nelson Évora não foi além de 15,39 e dois saltos nulos, falhando a qualificação para a final de Tóquio-2020, reservada para quem saltasse pelo menos 17,05 metros ou para os 12 melhores.
Évora tinha chegado aos seus quartos Jogos Olímpicos, depois do ouro em Pequim-2008, do sexto lugar no Rio-2016 e do 40.º posto em Atenas-2004.
O desportista voltou ao mediatismo nacional quando, aos 42 anos, decidiu participar nos Nacionais e assim sagrar-se campeão pela 13.ª vez, conseguindo, com a camisola dos açorianos Juventude Ilha Verde, chegar ao título com um salto a 16,03 metros.
