Sabe-se que nada no ciclismo é certo, como demonstrou a grave queda no intocável Tadej Pogacar na recente Volta a Espanha, mas todos estão cientes de que só um azar pode privar Remco Evenepoel de conquistar, pelo quarto ano seguido, o arco-íris no contrarrelógio de domingo, primeiro dia dos Campeonatos do Mundo que vão decorrer até 27 de setembro, em Montreal, no Canadá.
Aos 26 anos, o duplo campeão olímpico de Paris-2024 prepara-se para igualar o recorde do suíço Fabian Cancellara e do alemão Tony Martin, dois ciclistas que, contudo, nunca garantiram os seus quatro títulos de forma consecutiva.
Evenepoel é o melhor contrarrelogista da atualidade – ganhou todos os cronos individuais que disputou esta temporada, inclusive no Tour - e nenhum adversário tem conseguido contestar o seu domínio, nem mesmo o italiano Filippo Ganna, que ainda no ano passado ficou atrás do belga no exercício individual dos Europeus, como já tinha ficado nos Jogos Olímpicos ou nos Mundiais, em 2023 e 2024.
Duas vezes campeão mundial (2020 e 2021), Pippo é favorito a ficar com a prata no final do exercício de 39,2 quilómetros, com os especialistas Tobias Foss, o norueguês que é o outro antigo campeão presente (2022), ou o suíço Stefan Küng a serem os outros candidatos ao pódio, numa lista em que também o português Nelson Oliveira merece destaque – o veterano é sempre um candidato ao top 10.
Embora o mexicano Isaac del Toro e o francês Paul Seixas também estejam inscritos no contrarrelógio, o momento destas estrelas chegará em 27 de setembro, na prova de fundo, na qual há uma miríade de candidatos devido à ausência do favorito número um, o ainda bicampeão Tadej Pogacar, que está a recuperar das fraturas resultantes da queda na Vuelta.
Com tantas opções, difícil é restringir a lista de pretendentes ao arco-íris na mais importante prova dos Mundiais, mas definitivamente Evenepoel, campeão de fundo em 2022, e Wout van Aert, vencedor da Paris-Roubaix diante de Pogi, têm de estar entre eles.
Como noutros Campeonatos do Mundo com esta coabitação, a Bélgica poderá ter um problema com o excesso de líderes – sobretudo devido ao ego do vice-campeão do Tour 2026 -, mas também por ser o alvo a abater por outras seleções, nomeadamente os Países Baixos, de Mathieu van der Poel.
Classicómano de excelência – e principal rival de Pogacar nas corridas de um dia -, MVDP procura o seu segundo título mundial, depois do conquistado em 2023, assim como o incansável dinamarquês Mads Pedersen, o camisola verde da última Volta a França que chegou ao arco-íris em 2019.
O elenco de candidatos é tão vasto que é impossível nomeá-los a todos, apesar de o equatoriano Richard Carapaz, campeão olímpico de fundo em Tóquio2020, o irlandês Ben Healy ou o britânico Thomas Pidcock – que terá a companhia de Oscar Onley ou Adam Yates - serem nomes incontornáveis.
Ao contrário de outras edições dos Mundiais, efetivamente na prova masculina de fundo de Montreal as nações estarão representadas pela sua elite, com a Espanha a alinhar com Enric Mas, vencedor da Vuelta2026, e Juan Ayuso, a Alemanha com Florian Lipowitz, a Áustria com Felix Gall e a Eslovénia com Primoz Roglic, o substituto possível para o compatriota Pogacar.
Se há seleções com um líder claro para os 273,7 quilómetros com início no Quartier Dix30 (Brossard) e 3.803 metros de desnível acumulado, o mesmo não se passa com a Austrália, que conta com Ben O’Connor, Michael Matthews ou Jai Hindley, e os Estados Unidos de Quinn Simmons, Matteo Jorgenson ou Brandon McNulty.
Até a Itália tem opções para todas as situações de corrida, sem esquecer o país organizador, com Derek Gee ou Michael Woods, a Noruega e a Dinamarca, caso a corrida não se propicie para Pedersen.
Entre os outsiders poderão estar a Colômbia, na despedida de Nairo Quintana, a Suíça, de Jan Christen, ou Portugal, que deverá fazer de Afonso Eulálio a sua principal aposta – a agência Lusa tentou contactar durante vários dias o selecionador, Valter Sousa, para saber quem seria o líder do sexteto luso, mas este nunca respondeu.
Nono nos duríssimos Mundiais de Kigali (Ruanda), o melhor jovem do Giro 2026 deixou boas indicações no Grande Prémio de Montreal e deverá comandar a seleção lusa, embora o explosivo António Morgado, antigo vice-campeão mundial em sub-23 (2023) e juniores (2022) possa ter uma palavra a dizer.
O sexteto de Portugal fica completo com João Almeida, o melhor voltista nacional da atualidade que está a recuperar de uma época de problemas de saúde, Nelson Oliveira, Ivo Oliveira – que também estará no crono – e Tiago Antunes, duplo medalhado nos Jogos do Mediterrâneo Taranto 2026.
Os Mundiais de ciclismo de estrada arrancam no domingo e terminam em 27 de setembro, com Portugal a participar com 18 corredores, em masculinos e femininos, nas categorias de juniores, sub-23 e elites.
