Na primeira vez que representou a seleção nacional, o líder da Volta a Itália já era sub-23, mas, na principal etapa de montanha da Corrida da Paz, uma das mais prestigiadas provas desse escalão, foi terceiro, um resultado que o antigo selecionador considera ter sido “um sinal de que realmente tinha condições”.
Mas foi no ano passado, nos duríssimos Mundiais do Ruanda, onde Afonso Eulálio foi nono, um dos melhores resultados de sempre da seleção portuguesa na prova de fundo de elites, que o agora reformado José Poeira percebeu que algo tinha mudado.
“Ele fez uma corrida inteligente, bem colocado, sempre no sítio, a ler a corrida, a não ir ao choque dos principais candidatos e, depois, ficava num grupo bom, que o levava lá ao sítio outra vez. (…) Aí eu vi e percebi que ele realmente já não era Eulálio de ser um menino da equipa, de ajudar os colegas, era um pouco mais. E a equipa também viu isso”, considera.
O facto de nenhum dos ciclistas da Bahrain Victorious, à exceção do maglia rosa da 109.ª edição do Giro, ter completado a prova fez com que o luso de 24 anos desse “um passo importante dentro da equipa, para reconhecerem nele um valor”, avalia, em declarações à agência Lusa.
“Ele veio de trás para a frente, sempre a progredir, e sempre a ganhar experiência, porque é inteligente, já se viu que sabe ler as coisas, e começa a ter ambição, começa a acreditar nele. E isso faz com que a equipa também, numa situação daquelas, (pense) vamos ajudá-lo, porque andar de líder os dias que forem, já é muito bom para ele, e também para a equipa”, completa.
O homem que passou quase 25 anos como selecionador nacional de estrada acredita que Eulálio pode chegar ao final deste Giro, que termina em 31 de maio, dentro do top 10, até porque alguns dos candidatos já foram eliminados.
“Chegou a um ponto em que os valores que estão ali são muito bons, são corredores de renome, com experiência, e aquilo já tem de ser muito bem gerido. O que ele está a fazer é gerir as suas capacidades, a sua força, porque estamos a falar de uma prova de três semanas. E aí é outro ponto que a gente quer ver, que é como é que ele se dá. O problema da maior parte dos corredores é a terceira semana”, destaca.
Para Poeira, falta agora saber como é que o corpo do ciclista que vestiu a camisola rosa após integrar uma fuga na quinta etapa “vai reagir” às quase duas semanas que faltam de Volta a Itália, naquela que é apenas a sua segunda experiência numa corrida de três semanas, depois de ter desistido na antepenúltima etapa da passada edição da ‘corsa rosa’.
“Do ano passado para este ano, se calhar evoluiu muito nessa parte das três semanas. Pode até estar bem. Agora, há um desgaste entre o estar de líder, a pressão - se bem que acho que ele lida bem com a pressão. Para ele é um dia de cada vez e, pronto, vai passando os dias. Só que o facto de estar de líder, tem de ir ao pódio, tem de passar o controlo… Enquanto os outros acabam e vão para o hotel descansar, ele tem mais uma hora ou mais de desgaste com várias coisas”, alerta.
Ainda que haja sempre uma pressão, à qual ninguém “é insensível” ainda mais um ‘novato’, o também ex-ciclista acha que o seu antigo selecionado “está-se a sair muito bem”.
“Quando foi para uma equipa fora, (…) uma equipa grande, há um período de adaptação, e ele está a adaptar-se muito bem, excelente, e percebeu como é que se corre, como é que se tem de fazer as coisas. No ano passado, vi que ele estava muito mais maduro, muito mais calmo, não estava com stress em nada”, compara relativamente à sua estreia em Mundiais, em 2024.
Poeira defende que Eulálio, que rumou ao WorldTour em 2025, “evoluiu bastante de um ano para o outro”, estando agora “na posição de expectativa de até onde ele vai conseguir chegar”.
“Há de perder tempo, mas, se ele perder a camisola e for o Jonas Vingegaard a ser o líder, e ele ficar ali perto… pode segurar-se num bom lugar e com a ajuda do trabalho dos outros, ele pode-se manter por ali num lugar nos 10. Agora, a terceira semana manda muito. Não acho que seja impossível isso acontecer. Com o que ele já fez, com estes dias todos de líder, depois se ficar nos 10 primeiros, faz uma grande Volta a Itália”, conclui.
