Filha de Maradona diz que "havia plano" para a morte do pai que fugiu ao controlo dos autores

Gianinna Maradona a 21 de abril
Gianinna Maradona a 21 de abrilJUAN MABROMATA/AFP

A filha de Diego Maradona, Gianinna, afirmou estar convencida, numa entrevista a vários meios de comunicação, incluindo a AFP, de que "havia um plano" por parte do círculo próximo e da equipa médica em torno do seu pai, se não para o matar, pelo menos para o manter sob controlo, mas um plano que lhes escapou.

"Havia um plano, sem dúvida, e alguém que o comandava, mas as coisas fugiram-lhe ao controlo", afirmou Gianinna, de 36 anos, esta semana, à margem do julgamento em San Isidro de sete profissionais de saúde por alegadas negligências fatais contra a estrela argentina do futebol, falecida a 25 de novembro de 2020.

Apontou o dedo a alguns próximos, como o ex-advogado e representante de Maradona, Matias Morla, e o seu antigo assistente Maximiliano Pomargo, que não estão entre os arguidos. No entanto, também eles foram agora enviados a julgamento, em data ainda por definir, por gestão fraudulenta das marcas Maradona.

"Não consigo conceptualizar bem esse plano, o facto de quererem matá-lo. Morla queria ter a vida do meu pai nas suas mãos? Seguramente", afirma.

"O poder de ter Maradona"

Para sustentar esta tese, recorda que alguns dos arguidos convenceram a família, em novembro de 2020, de que a única opção para Maradona, após a neurocirurgia, era a convalescença em casa e não o internamento em psiquiatria. O antigo jogador do Nápoles poderia também ter tratado as suas dependências, mas essa opção exigiria, perante a provável recusa de Maradona, a tutela de um juiz.

"Não lhes convinha que o meu pai fosse internado em psiquiatria, porque muita coisa desabaria para Morla", a quem Maradona tinha dado procuração para a utilização comercial do seu nome, recorda Gianinna.

"Ele, que tinha a assinatura, que podia assinar como se fosse o meu pai. Tinha o poder de ter Maradona (sob controlo) e fazia o que queria com esse poder", criticou, denunciando que o círculo próximo naquela altura "pensava sempre no aspeto financeiro, não na saúde" do astro argentino.

No seu longo depoimento há duas semanas no julgamento, Gianinna, várias vezes emocionada até às lágrimas, denunciou uma "manipulação total, horrível" da família por parte da equipa médica em torno do seu pai.

O contexto da sua convalescença em Tigre, a norte de Buenos Aires, numa casa grande mas sem material médico adequado, quase insalubre e descrita pela acusação como "desprovida de tudo", é um elemento-chave do julgamento.

Gianinna considera que os sete arguidos "são todos responsáveis, uns em grau mais elevado do que outros", e aponta Leopoldo Luque, então médico pessoal de Maradona, como aquele "que comandava tudo" na equipa: "era a voz principal".

No entanto, afirma que cada um tem responsabilidade pelo que fez ou deixou de fazer. "O enfermeiro que devia tê-lo vigiado antes de sair não o vigiou, e o enfermeiro que chegou também não o vigiou".

"Tinham medo"

Maradona morreu aos 60 anos devido a uma paragem cardiorrespiratória e a um edema pulmonar, segundo algumas perícias, após várias horas de agonia, sozinho na cama da residência alugada para a sua convalescença.

"Todos tinham uma linha orientadora e todos seguiam, respeitavam algo", insistiu Gianinna, mantendo a sua ideia de "plano".

"Quem mexia um pouco os cordelinhos (...), era o Maxi Pomargo", antigo braço direito de Maradona, cunhado do advogado Morla.

Aliás, garante Gianinna, quando o estado do pai se agravou, os membros da equipa de cuidados "tinham medo, porque nos áudios (mensagens incluídas no processo, nota do editor), ouvem-se coisas como 'Estou a proteger-me legalmente'. Nunca imaginaram que o Ministério Público fosse agir rapidamente, apreender os seus telemóveis, fazer buscas em casa deles".

Os sete arguidos negam qualquer responsabilidade na morte de Maradona, alegando causas naturais. Defendem-se com a sua especialidade, cada um com o seu papel. Arriscam entre 8 e 25 anos de prisão.