Quando os Estados Unidos foram anfitriões do Mundial pela primeira vez, conta Rothenberg, o futebol era visto por grande parte dos meios de comunicação norte-americanos com "desdém, senão desprezo".
As críticas eram sempre as mesmas: aborrecido, com poucos golos, um desporto para o resto do mundo.
Sentado no escritório da sua casa em Beverly Hills, Rothenberg, de 87 anos, sorri ao recordar a evolução do futebol nos Estados Unidos, que se prepara para receber a maioria dos jogos do Mundial do próximo mês.
A Major League Soccer atravessa um excelente momento, com 30 equipas profissionais e uma média superior a 20.000 adeptos por jogo, um número acima da assistência média tanto da NBA como da NHL de hóquei no gelo.
A Premier League e outras competições europeias de clubes são transmitidas em sinal aberto na televisão nacional.
"Daqui a 30 anos, acredito que estaremos a disputar, se é que ainda não o fazemos, o protagonismo com a NFL neste país", declarou Rothenberg à AFP.
"Não consigo imaginar que a NFL possa crescer mais e, a certa altura, vai estagnar. Os problemas de lesões vão aumentar e haverá uma desaceleração, precisamente quando o futebol continua a crescer sem parar".
Uma base sólida
Para ilustrar o seu argumento, Rothenberg dá como exemplo a sua alma mater, a Universidade de Michigan, uma potência do futebol americano universitário.
"Quando eu lá estava e durante anos depois, se entrasses em Ann Arbor, nos campos vazios as pessoas lançavam uma bola de futebol americano", recorda Rothenberg. "Hoje em dia, nesses mesmos campos, estão a jogar com uma bola de futebol".
Rothenberg retratou a ascensão do futebol nos Estados Unidos nas suas novas memórias: “The Big Bounce: The Surge that Shaped the Future of US Soccer”, onde aprofunda as suas experiências como um dos pioneiros do desporto-rei na América do Norte.
A sua ligação ao futebol começou nos anos 60, quando ajudou a gerir os Los Angeles Wolves na United Soccer Association, precursora do que viria a ser a North American Soccer League.
Mais tarde, Rothenberg organizou o bem-sucedido torneio de futebol dos Jogos Olímpicos de Los Angeles 1984, que terminou com a vitória da França sobre o Brasil perante 101.799 espectadores no Rose Bowl de Pasadena.
Como diretor executivo do Mundial-1994, Rothenberg supervisionou um torneio que continua a ser o Mundial com maior assistência da história, com uma média de 68.991 espectadores por jogo.
Parte do sucesso de 1994, segundo Rothenberg, deveu-se ao desempenho em campo da equipa norte-americana, que surpreendeu ao chegar aos oitavos de final, onde caiu perante a futura campeã, o Brasil.
“Se a nossa equipa tivesse sido um desastre, por muitos bilhetes que tivéssemos vendido e por muito dinheiro que tivéssemos ganho, teria ficado uma sombra sobre este desporto”, afirma Rothenberg.
32 anos depois, a pressão sobre a equipa dos Estados Unidos é menor, segundo Rothenberg, porque o futebol já tem uma base muito mais sólida.
"Estou convencido de que vamos passar a fase de grupos; até onde chegarmos depois dependerá do quanto progredirmos e de quem nos calhar defrontar", comenta sobre as hipóteses da equipa em 2026.
"Mas não temo um fracasso porque agora o futebol tem uma base que antes não tinha. Uma grande prestação da nossa equipa vai impulsionar muito este desporto. Mas se o desempenho for fraco, não nos vai afundar".
Um Mundial com 64 equipas?
Desde 1994, o Mundial duplicou de tamanho, passando de 24 para 48 seleções. No entanto, Rothenberg não teme uma eventual perda de qualidade e até defende alargar o torneio para 64 equipas em futuras edições.
Eliminar a fase de grupos e apostar num formato de eliminação direta faria com que cada jogo fosse “de vida ou morte”, argumenta.
"É uma proposta radical, mas seria interessante analisá-la" assinala Rothenberg.
"Haverá goleadas escandalosas? Sim. Mas também haverá histórias de Cinderela, em que algum país, vindo do nada, coloca em apuros o cabeça de série número 1.º ou até o elimina. Penso que isso voltaria a gerar muita emoção".
Rothenberg insiste ainda que a criticada estrutura de venda de bilhetes que a FIFA vai usar em 2026, muito contestada por grupos de adeptos, não será "mais do que um tema mediático".
"Neste país estamos habituados a preços elevados e preços dinâmicos", afirma. "Há pessoas que não são ricas a gastar milhares de dólares para ir a um concerto da Taylor Swift ou do Bad Bunny. Isso reflete o verdadeiro mercado".
"Haverá preços fora do alcance de muita gente? Sim, mas infelizmente isso acontece em muitos setores da sociedade atualmente".
